Compreender a tokenização antes de a sofrer
Um ativo tokenizado continua a ser um instrumento financeiro clássico (ação, obrigação, participação em fundo), mas registado num livro-razão descentralizado e inviolável — a blockchain. Esta representação digital não muda a natureza do ativo em si, apenas a forma como ele é registado, transacionado e liquidado, com potencial para eficiência, transparência e acessibilidade superiores.
Nos principais mercados financeiros, grandes instituições estão a pressionar para que este modelo deixe de ser apenas experimental e passe a integrar a infraestrutura dos mercados tradicionais:
A Nasdaq já tinha apresentado formalmente um pedido de alteração de regras junto à Securities and Exchange Commission (SEC) dos EUA para permitir a negociação de ações e outros valores mobiliários tokenizados na sua bolsa principal — ou seja, versões tokenizadas de ações que seriam tratadas, executadas e liquidadas sob o mesmo sistema e com os mesmos direitos que os títulos tradicionais, desde que cumpram requisitos regulamentares e de equivalência.
O JPMorgan é um dos bancos que tem avançado na prática com tokenização de ativos reais. Através da sua plataforma interna de tokenização (Kinexys Fund Flow), o banco já tokenizou um fundo de private equity na sua própria infraestrutura blockchain e está a preparar outros produtos digitais que representam instrumentos financeiros tradicionais em forma de token.
Estes movimentos mostram que a tokenização não é apenas uma ideia teórica: instituições financeiras já estão a implementar soluções de tokenização em escala real, ligando blockchains privadas ou à economia financeira tradicional, enquanto bolsas como a Nasdaq procuram um enquadramento regulatório para integrar estes títulos nos mercados regulamentados.
E a tokenização do ouro?
A tokenização não se limita a ações, obrigações e fundos — ela está a chegar também a matérias-primas históricas como o ouro. O conceito de ouro tokenizado refere-se a versões digitais do ouro físico, onde cada token representa a posse de uma quantidade específica de ouro físico guardado em cofres seguros.
Saiba mais sobre a abordagem proposta pelo World Gold Council, que planeia combinar a segurança da custódia física com a flexibilidade de um registo digital, permitindo fração de propriedade e liquidez mais eficiente baseada em blockchain a partir de 2026.
Tokenizar -para quê?
Concretamente, isto altera vários aspetos para o investidor:
- Transações mais rápidas: os prazos de liquidação podem passar de vários dias para apenas alguns minutos.
- Custos reduzidos: a automatização e a redução de intermediários logísticos diminuem os encargos.
- Maior acessibilidade: a possibilidade de adquirir frações de ativos permite a mais investidores o acesso a classes anteriormente reservadas a profissionais, como private equity ou imobiliário prime (alto padrão).
Contudo, a tokenização não elimina os riscos: introduz novos. A segurança digital, a estabilidade jurídica dos títulos e a governação dos registos devem ser rigorosamente enquadradas.
Importante: a tokenização regulamentada não tem nada a ver com criptomoedas especulativas. Os produtos tokenizados são instrumentos financeiros supervisionados pelos reguladores europeus.
O que fazem os nossos vizinhos pode importar
Em França e no Luxemburgo, a tokenização já não é experimental. Paris autorizou a primeira emissão obrigacionista em blockchain, e vários fundos luxemburgueses utilizam esta tecnologia para tornar mais fluida a distribuição.
Estas iniciativas inserem-se no regime piloto europeu DLT )Distributed Ledger Technology), que permite aos estados-membros testar infraestruturas blockchain até 2029 sob supervisão regulamentar.
Para o investidor belga, a consequência é clara: não existe ainda um mercado DLT doméstico, e os primeiros produtos tokenizados acessíveis virão do estrangeiro, sobretudo do Luxemburgo e de França, onde o enquadramento já está operacional.
Isso não significa que estejam fora de alcance: serão distribuídos por bancos, sociedades gestoras ou plataformas licenciadas pela CSSF ou pela AMF.
Antes de investir, alguns cuidados são essenciais:
- Pergunte ao seu banco se disponibiliza produtos tokenizados estrangeiros na sua oferta patrimonial.
- Verifique a conformidade DLT: o produto deve enquadrar-se no regime piloto europeu e estar sob supervisão oficial.
- Informe-se sobre a custódia dos tokens: são guardados pelo banco, por um depositário autorizado ou numa carteira digital pessoal?
- Avalie a liquidez real: estes mercados ainda são jovens; é fundamental garantir a possibilidade de revenda rápida a um preço transparente.
Oportunidades a acompanhar
Mesmo sem mercado local, alguns produtos poderão surgir em breve nos portefólios dos investidores belgas:
Obrigações empresariais tokenizadas: ao reduzir os custos de emissão, podem abrir espaço a uma maior diversidade de emitentes, incluindo PME.
Fundos de investimento tokenizados: ao automatizar subscrições e resgates, prometem melhorar a liquidez de fundos anteriormente “fechados”.
Imobiliário fracionado: permite a um investidor particular adquirir uma fração de um imóvel por algumas centenas de euros, em vez de um investimento inicial de seis dígitos.
Em todos os casos, é essencial verificar a documentação regulamentar e confirmar que o emitente está autorizado num estado-membro da UE.
Um horizonte a acompanhar, não um Eldorado imediato
A Europa já deu o pontapé de saída. Para o investidor europeu, este período de transição é uma oportunidade de vigilância e aprendizagem.
Nos próximos três a cinco anos, deverá emergir uma oferta estruturada, mais clara e melhor enquadrada. Quem dedicar tempo hoje a compreender os princípios, os riscos e os intervenientes da tokenização poderá entrar amanhã com confiança.
Num universo financeiro cada vez mais digital, o conhecimento torna-se uma vantagem competitiva. Compreender a tokenização é já investir na próxima geração dos mercados.
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