Pagar a si próprio primeiro faz mesmo diferença na construção de poupança e património a longo prazo? Sim. Tratar a poupança como uma despesa fixa, antes de qualquer outro pagamento, é a forma mais eficaz de criar disciplina financeira, acumular capital de forma consistente e beneficiar do efeito dos juros compostos ao longo do tempo.
Por exemplo, se poupar 200 € por mês e investir esse dinheiro durante 25 anos a uma taxa de 4%, acumulará mais de 102 mil euros. Quanto mais cedo adotar este hábito, maior será o impacto no valor final acumulado.
O que significa pagar a si próprio primeiro
A ideia é muito simples: se paga ao Estado, aos bancos e às empresas que lhe fornecem bens e serviços, por que não pagar também a si próprio? É um conceito em que, provavelmente, nunca pensou, mas só pagando a si próprio de forma regular é possível construir, de forma gradual, um nível de poupança consistente. Essa disciplina é essencial para garantir um futuro financeiro mais tranquilo e alcançar objetivos de longo prazo, como a reforma, a compra de casa ou a independência financeira. No fundo, pagar a si próprio significa simplesmente poupar – de forma consciente, sistemática e com um propósito claro.
Mas atenção: na expressão “pagar a si próprio primeiro”, a palavra mais importante é mesmo “primeiro”. Porquê? Porque, se poupar apenas o dinheiro que sobra no final do mês, o mais provável é não poupar nada ou fazê-lo apenas de forma irregular e em pequenos montantes. É por isso que a poupança deve ser tratada como uma prioridade. Tem de pagar a si próprio antes de pagar a todos os outros, transformando a poupança num compromisso fixo e não numa opção residual.
Leia isto antes de contestar
É natural que o conselho de colocar de lado uma parte do rendimento logo no início do mês não seja particularmente apelativo. Os mais céticos poderão até criticar esta ideia, afirmando: “Eu prefiro aproveitar a vida.” Mas, porque motivo canalizar uma parte do seu rendimento para a poupança significa não aproveitar a vida? Poupar é uma forma de garantir que poderá continuar a “aproveitar a vida”, não apenas hoje, mas também no futuro com mais segurança e tranquilidade financeira.
Será que o nível de satisfação que obtém ao ir a um restaurante três vezes por mês é assim tão diferente daquele que teria se fosse apenas duas ou até uma vez? Será mesmo necessário ter dez pares de sapatos? Usa realmente tudo o que compra? Os exemplos poderiam multiplicar-se quase infinitamente. No fundo, tudo depende da perspetiva com que encaramos o consumo. Por vezes, vale a pena parar e refletir se os hábitos que mantém há anos contribuem assim tanto para a sua felicidade e bem-estar.
É frequente ouvir “Eu nem consigo pagar as minhas despesas, quanto mais poupar”.
Obviamente que o “pagar primeiro a mim próprio” é mais fácil para umas pessoas do que para outras. É até possível que haja quem não o consiga mesmo fazer. Mas, para a maioria das pessoas, é possível, desde que tenha alguma disciplina.
Se não consegue poupar 10 ou 15% do seu rendimento, comece por 5% ou até 2 por cento. O mais importante não é o valor inicial, mas dar o primeiro passo. A vida muda, e é natural que, no futuro, consiga aumentar o seu nível de poupança, seja porque os rendimentos aumentam ou as despesas diminuem. Criar este hábito desde cedo faz toda a diferença a longo prazo. Partilhe este princípio com os seus filhos e amigos. Ensinar a importância da poupança é contribuir para uma relação mais saudável com o dinheiro, hoje e no futuro.
Quanto deve pagar a si próprio?
Se registar todos os seus rendimentos e despesas e elaborar um orçamento familiar, responder a esta pergunta torna-se simples. Com uma visão clara do seu dinheiro, é mais fácil definir um valor realista para a poupança.
Caso ainda não tenha esse controlo, pode começar por estabelecer um valor fixo para pagar a si próprio e ajustá-lo gradualmente, à medida que ganha uma perceção mais precisa de quanto ganha e de quanto necessita para cobrir as suas despesas mensais.
Comece por definir uma percentagem do seu rendimento, sobretudo se este variar de mês para mês, já que assim é mais fácil manter vez de 1500, não conseguiria manter um nível de poupança proporcional. Ainda assim, definir um valor fixo, como 100, 150 ou 200 euros, também é uma opção válida e, para muitas pessoas, até mais fácil de pôr em prática, pois evita ter de fazer contas todos os meses.
Outra forma simples de encarar a poupança é a seguinte: assumindo que a maioria das pessoas trabalha 8 horas por dia, pode canalizar uma dessas horas para a poupança. Nesse caso, estará a poupar 12,5% do seu rendimento. Por exemplo, se receber 800 euros líquidos por mês, estará a pagar a si próprio 100 euros.
O mais importante é começar a poupar o quanto antes e manter disciplina. Um exemplo prático: imagine que recebe 1500 euros líquidos por mês. Se decidir pagar a si próprio 10%, considere que o seu rendimento efetivo é de 1350 euros e planeie o seu mês com base nesse valor. Será que, com 1350 euros em quase o mesmo estilo de vida? Na maioria dos casos, sim. Além disso, existe o conforto mental de saber que todos os meses está a aumentar a sua almofada financeira. Essa reserva permite que, a prazo, consiga atingir alguns, se não todos, os seus objetivos.
É claro que a fase da vida em que se encontra influencia a sua capacidade de poupar. Por exemplo, é mais difícil poupar se ainda tiver os filhos a seu cargo do que se não tiver ou já forem independentes.
A boa notícia é que pode sempre ajustar o montante destinado à poupança, embora o ideal seja manter alguma consistência para não se levar por desculpas. Uma boa prática é aumentar gradualmente o valor poupado à medida que os rendimentos crescerem ou as despesas diminuírem.
Em resumo, o valor da autoremuneração pode variar de pessoa para pessoa, mas deve sempre respeitar um princípio basilar: “preparar o futuro sem hipotecar o presente”.
Poupança automática como ferramenta de sucesso
O segundo, e último, passo para conseguir pagar a si próprio todos os meses é não deixar esta tarefa ao acaso, nem confiar que vai lembrar-se de fazê-la. Porquê? Porque poupar é demasiado importante, o nosso foco tende a dispersar‑se com o tempo, surgem esquecimentos, férias, preocupações, e, claro, a tentação de fazer exceções é grande.
Por todas estas razões, e muitas outras, sem um mecanismo automático de poupança é muito difícil manter a disciplina. Programar uma transferência bancária automática para uma conta diferente garante que o compromisso consigo próprio se mantém, independentemente das distrações ou imprevistos do dia a dia.
É também importante que não tenha nenhum cartão, nem de débito nem de crédito, associado à sua conta de poupança, para não ter possibilidade de, num impulso, mesmo que seja esporádico, gastar dinheiro dessa conta. Em situações de aperto, somos todos tentados a recorrer aos meios que temos mais à mão.
Vamos a um exemplo sobre a importância da consistência das transferências automáticas: se poupar todos os meses 200 euros, acumulará 72 mil euros em 30 anos. Mas, se não for suficientemente disciplinado e falhar três meses por ano, o valor que acumular baixará para 54 mil, uma diferença de 18 mil euros, que corresponde a menos 25 por cento.
Estes cálculos não incluem os ganhos obtidos se investir aquilo que paga a si próprio, uma condição essencial para atingir a sua liberdade financeira. Se conseguir rentabilizar as poupanças a uma taxa de 6% ao ano, acumularia 195 851 euros em 30 anos. Se falhar o pagamento a si próprio apenas três vezes por ano, o valor acumulado baixaria para 111 894 euros, uma diferença de quase 84 mil euros.
Por isso, é fundamental que o pagamento a si próprio seja feito de forma automática. Assim, não precisa de se preocupar nem correr o risco de adiar ou quebrar esse compromisso consigo mesmo.
Consistência, sem exceções nem desculpas
Como vimos, para que o princípio “pague-se primeiro a si próprio” se torne um verdadeiro alicerce da sua independência financeira, é essencial não abrir exceções nem inventar desculpas. Frases como: “Ah, quero mesmo comprar aquele telemóvel, por isso este mês não vou pagar a mim próprio” são precisamente o que compromete a disciplina. Não duvido que queira muito o objeto em questão, mas será mesmo necessário comprá-lo agora? Não poderá esperar e adquiri-lo quando tiver efetivamente o dinheiro disponível? Manter esta consistência é o que transforma a poupança em liberdade financeira real.
Se houvesse um mês em que a sua entidade patronal não lhe pagasse o vencimento, como se sentiria? Certamente, ficaria muito aborrecido. Pois é exatamente dessa forma que deve encarar o pagamento a si próprio. Abrir exceções uma vez aumenta muito a probabilidade de abrir outras no futuro. Pagar a si próprio implica um compromisso consistente e duradouro.
Exceções só devem ocorrer em situações realmente excecionais. Por exemplo, se o carro avariar e surgir uma despesa extra não prevista, e ainda não tiver um fundo de emergência, talvez nesse mês possa adiar o pagamento a si próprio. Mas o ideal é que, nos meses seguintes, aumente um pouco a poupança até repor o valor que deixou de guardar. Não é preciso rigidez absoluta, mas o importante é perceber que a consistência é o que cria segurança financeira a longo prazo.
Começar cedo multiplica os resultados da poupança
Agora que percebeu os benefícios de pagar a si próprio primeiro e a importância de não abrir exceções, só falta começar. Comece este mês! Quanto mais cedo criar este hábito, mais rápido atingirá os seus objetivos e maior será a sua almofada financeira.
A batalha que tem de travar agora é contra a inércia. Para perceber a importância de agir com rapidez, imagine o seguinte: quer reformar-se aos 65 anos e tem agora 25 anos. Como ainda faltam 40 anos para a reforma, poderá pensar: “Vou começar a pagar a mim próprio apenas aos 45 anos; ainda terei 20 anos para acumular um bom montante para a reforma”. Suponhamos que, aos 45 anos, começa a poupar 200 euros por mês e investe esse dinheiro a uma taxa de 6% ao ano. Aos 65 anos, terá acumulado 91 129 euros. Um bom valor, certo? Mas se começasse aos 35 anos, acumulará 195 851 euros, mais do dobro. Se começasse aos 25 anos, terá 383 393, mais de quatro vezes mais.
Percebeu a diferença e a importância de começar já?
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