A Reserva Federal cortou a taxa diretora para 3,75%, mas o ciclo de descidas aproxima-se gradualmente do fim. Os membros da Fed veem as taxas diretoras terminarem 2026 apenas 0,25% abaixo do nível atual. Para os dois anos seguintes, a maioria antecipa uma estabilização acima de 3%.
Economia real está razoavelmente bem
No plano macroeconómico, as notícias são boas. O indicador GDPNow, publicado pela Fed de Atlanta e que procura captar o crescimento atual, aponta para 3,5% neste final de ano. No mercado de trabalho, a criação de postos de trabalho abranda, mas a taxa de desemprego situava-se em apenas 4,4% em setembro.
Ao mesmo tempo, os rendimentos das famílias registaram uma progressão anual de cerca de 3,8% ao longo de 2025, um nível superior à inflação, o que significa que não houve perda de poder de compra. A descida dos impostos decidida pela administração Trump também suportará o consumo e a rentabilidade das empresas.
Somem-se os pontos fortes norte-americanos em questões estruturais: fiscalidade e regulamentação ligeiras, mercado de trabalho flexível, reduzidos custos energéticos e uma vantagem tecnológica importante. Não é por acaso que os Estados Unidos representam atualmente 72% do índice MSCI World.
Naturalmente, nada disto invalida o facto de a economia norte-americana continuar a sofrer de graves problemas de endividamento. Em apenas uma década, a dívida passou de 100% do PIB para cerca de 124% (2024).
Dado o baixo nível de poupança dos norte-americanos, os EUA dependem cada vez mais dos investidores estrangeiros para assegurar o financiamento. Tal reflete-se nas taxas das obrigações. Apesar da descida das taxas diretoras da Fed, os juros a dez anos permanecem acima de 4%.
Perante a inflação ainda elevada e as dúvidas sobre a vontade em sanear as contas públicas, poderá não haver uma redução generalizada do custo do crédito. Ora, os investidores contam com essa descida para apoiar a procura e o investimento.
Duas incógnitas essenciais em 2026
Dois acontecimentos marcarão, sem dúvida, 2026 nos Estados Unidos. Em primeiro lugar, o fim do mandato de Jerome Powell à frente da Fed e a sua substituição por um aliado do Presidente Trump.
Se a Fed decidir abandonar o combate à inflação e enveredar por um ciclo agressivo de descidas das taxas diretoras, as yields das obrigações norte-americanas poderão aumentar. Em segundo lugar, as eleições intercalares poderão alterar as maiorias no Congresso (Senado e Câmara dos Representantes).
Agora, os Republicanos controlam ambas as câmaras, mas a perda de alguns lugares bastaria para alterar o cenário e obrigar a Casa Branca a negociar compromissos com os Democratas. Com Trump é ainda mais irrealista qualquer acordo bipartidário e os EUA podem ficar em paralisia legislativa.
Bolsa numa posição única
Impulsionada pelos gigantes tecnológicos e pelo entusiasmo gerado pela inteligência artificial, a bolsa norte-americana não está em níveis propriamente atrativos. E, tendo em conta o nível de investimento na IA, mostra-se pouco generosa em dividendos.
Alguns apontam o facto de a capitalização das bolsas norte-americanas atingir 225% do PIB dos EUA (um recorde) como prova de que as cotações estão inflacionadas. Mas não é evidente.
No passado, a General Electric, a Ford ou a Exxon enfrentavam concorrentes estrangeiros de peso. Atualmente, os gigantes tecnológicos norte-americanos dominam sem rival, pelo menos no Ocidente e, por isso, a sua dimensão é completamente diferente.
Valorizações já consideráveis
No entanto, para justificar um nível de cotações tão elevado, será necessário uma boa visibilidade para o futuro e que os investimentos realizados na inteligência artificial se revelem rentáveis. Para já, tal não acontece. Os avanços e recuos constantes da Casa Branca criam uma conjuntura particularmente incerta.
Em simultâneo, as tarifas contribuíram para manter a inflação acima dos objetivos. A economia teve, portanto, de lidar com uma visibilidade reduzida, associada a um custo do crédito ainda relativamente elevado.
E permanecem dúvidas quanto à possibilidade de os investidores virem a obter lucros com as quantias investidas em inteligência artificial. Fatores que alimentaram a desconfiança em 2025 e que poderão prolongar-se em 2026.
Conselho
Apesar de algumas incertezas, a economia norte-americana mostra-se dinâmica e conserva várias vantagens associadas à sua competitividade, tanto no plano tecnológico como no âmbito regulamentar.
Os EUA dispõem ainda de mercados muito líquidos e um apetite pelo risco que atrai empresas de todo o mundo. Com estas premissas, continua a justificar-se que dedique uma boa parte da carteira a ativos norte-americanos (ações e obrigações).
O conteúdo deste artigo pode ser reproduzido para fins não-comerciais com o consentimento expresso da DECO PROteste, com indicação da fonte e ligação para esta página. Ver Termos e Condições.