Deixou de ser um acontecimento inédito e passou a recorrente. As bolsas ocidentais são impactadas negativamente pelas notícias de novos desenvolvimentos tecnológicos na China.
A ofensiva tecnológica chinesa tem surpreendido os mercados
Mesmo que temporariamente, as certezas dos gigantes da Silicon Valley e da tecnologia europeia são abaladas pelos anúncios vindos de Pequim.
Até agora, os investidores avançavam com uma certeza: a liderança tecnológica dos Estados Unidos em matéria de inteligência artificial e semicondutores estava protegida por barreiras intransponíveis.
Um dos primeiros exemplos foi o modelo de IA Deepseek. Em janeiro de 2025, este lançamento surpreendeu a indústria pela sua eficiência em relação ao custo.
Durante várias sessões de bolsa em agosto deste ano, o cenário repetiu-se. É um sinal de alerta para os investidores pois as carteiras dependem cada vez mais de um setor tecnológico que se tornou ultra dominante.
CXMT, ASML e Moonshot AI: os três sinais de alerta para o Ocidente
Há poucos dias, a China levantou novas dúvidas sobre o domínio ocidental através de três avanços importantes.
- O campeão nacional chinês CXMT (ChangXin Memory Technologies), especialista em memórias, realizou uma IPO espetacular, valorizando-se 466% no primeiro dia. A entrada em força de um concorrente com uma capitalização próxima de 480 mil milhões de dólares ameaça os fabricantes de semicondutores indispensáveis aos servidores de IA, como a Micron e a Intel, bem como dos gigantes sul-coreanos Samsung Electronics e SK Hynix.
- O bastião da neerlandesa ASML apresenta fissuras. Um fabricante estatal chinês iniciou a produção em massa das suas próprias máquinas de litografia por imersão. Este pode constituir um golpe num dos poucos trunfos europeus na tecnologia.
- No software, a promissora Moonshot AI surpreendeu o setor ao revelar o seu modelo Kimi K3. Este modelo não só rivaliza com as melhores versões da OpenAI e da Anthropic, como apresenta um custo operacional duas vezes inferior. Esta ofensiva de baixo custo faz pairar o espectro de uma guerra de preços destrutiva para as margens dos gigantes americanos.
Porque é que as bolsas reagem tão fortemente às notícias da China
Se estes anúncios em Xangai fazem recuar as ações em Nova Iorque ou Amesterdão é porque o setor tecnológico assumiu um peso hegemónico, e potencialmente preocupante, nos mercados financeiros mundiais.
Atualmente, a tecnologia em sentido amplo representa cerca de 50% do índice S&P 500 e 40% do índice MSCI World.
Quando pilares como a Nvidia, Apple, Alphabet, Microsoft ou ASML perdem alguns pontos devido a uma ameaça na Ásia, é todo o conjunto índice mundial que oscila. A Nvidia e a Apple pesam cerca de 5% cada. A Alphabet e a Microsoft rondam 4% cada. A ASML tem pouca expressão nos índices globais, mas vale quase 10% nos índices europeus.
A forte concentração dos fundos e ETF nestes poucos títulos de crescimento (growth shares) faz de cada avanço chinês um fator de volatilidade imediata.
Deve vender os seus ETF, sobretudo os mais tecnológicos?
Se for apenas pelo fator China, a resposta é negativa. Não se deve entrar em pânico e vender as posições nos grandes índices americanos ricos em ações tecnológicas ou no subsetor dos semicondutores. A concorrência chinesa é inevitável, mas a reação dos mercados tem sido exagerada. A comprová-lo, as bolsas têm acabado por recuperar.
O mercado acionista norte-americano deve constituir o núcleo de uma carteira sólida. As multinacionais de Wall Street dispõem de reservas de liquidez únicas no mundo, ecossistemas (iOS, Windows, AWS) e de uma capacidade de adaptação que a China, condicionada por um forte controlo estatal, terá dificuldades em igualar.
No setor dos semicondutores, o aparecimento da CXMT ou de alternativas à ASML cria turbulência no curto prazo. No entanto, a tendência permanece inalterada: a transição para a inteligência artificial, a robotização e os centros de dados exigirá um volume astronómico de semicondutores. Os líderes ocidentais (Nvidia, ASML) e de Taiwan (TSMC) conservam vários anos de avanço nas tecnologias de ponta.
Como evitar uma exposição excessiva ao setor tecnológico
O setor tecnológico global apresenta um rácio cotação/lucros esperados de 19,1, um valor elevado face à média do mercado (16,5), mas inferior à média histórica do setor. No segmento dos semicondutores, o mesmo rácio está surpreendentemente em apenas 14,6, revelando as elevadas taxas de crescimento de lucros esperadas para esta atividade.
No entanto, não deve ser displicente. Há empresas tecnológicas cujas cotações antecipam apenas grandes sucessos e assentam em pressupostos pouco realistas.
Mesmo investindo através de fundos e ETF deve evitar uma sobreposição excessiva à tecnologia. Um ETF global ou de ações norte-americanas já incluem bastantes empresas deste setor nas respetivas carteiras.
Investir em ETF setoriais, como os semicondutores, pode aumentar o potencial de rendimento, mas aumenta a concentração setorial e a volatilidade da carteira. Outras temáticas como a computação quântica e a exploração espacial são ainda mais arriscadas sem trazer benefícios evidentes para uma carteira diversificada.
O que os investidores podem aprender com esta volatilidade
Embora a tecnologia chinesa tenha lembrado os mercados da sua presença, os gigantes ocidentais têm bases suficientemente sólidas para enfrentar este desafio.
Não há motivos para altera o rumo da estratégia, pois o investimento passivo de longo prazo também se alimenta destas oscilações regulares. Deve apenas verificar se a carteira não está demasiado centrada na tecnologia.
Por fim, recorde-se que a maioria dos ETF globais não investe na China ou fá-lo de forma muito marginal. Por isso, tem sentido manter uma exposição à China apostando em ETF dedicados às ações chinesas cotadas em Xangai, Shenzhen, Hong Kong e Nova Iorque. Dado tratar-se de um mercado emergente, um peso máximo de 10% para as ações chinesas será o mais indicado para a maioria dos perfis de investimento.