Se aumentar a despesa pública para estimular a economia, os mercados obrigacionistas poderão rapidamente recordar as restrições orçamentais fazendo os juros da dívida britânica subir ainda mais. Se Burnham optar pela prudência, abrirá mais espaço político, nas próximas eleições, a Nigel Farage, líder do partido Reform UK e figura histórica do Brexit.
Em ambos os cenários, a incerteza permanece elevada, o que não favorece a exposição aos ativos britânicos.
Mudança esperada nunca se materializou
Quando Keir Starmer chegou ao poder, após mais de uma década de governos conservadores, esperava-se reformas ambiciosas e uma rutura mais clara com o passado. Contudo, em vários temas, o governo trabalhista privilegiou a continuidade em detrimento de uma transformação profunda do país.
Como resultado, os problemas estruturais que travam a economia britânica mantêm-se inalterados. A produtividade cresce pouco, as infraestruturas estão envelhecidas, a atratividade económica continua aquém do desejável e o crescimento tem dificuldade em ganhar um verdadeiro impulso.
Grandes empresas, poucos motores de crescimento
A ausência de renovação reflete-se também no mercado acionista. A praça londrina continua dominada pelo setor financeiro (HSBC, Barclays) que representa cerca de um quarto da capitalização. Além disso, a City de Londres enfrenta agora a concorrência dos grandes bancos norte-americanos e a ascensão de centros financeiros como Hong Kong, Singapura ou Dubai.
As maiores capitalizações britânicas incluem ainda empresas consolidadas como a AstraZeneca, GSK, Shell e a BP. Trata-se de empresas de qualidade. Contudo, atuam em setores que não captam o atual entusiasmo dos investidores. Já, o setor tecnológico representa apenas de 1% do mercado londrino. Por outras palavras, o mercado britânico continua mais orientado para os seus campeões históricos do que para os líderes do futuro.
Tal não implica excluir todas as ações britânicas, mas indica que uma exposição ampla ao mercado britânico não é atrativa. A abordagem do investidor deve ser mais seletiva favorecendo empresas específicas.
Obrigações britânicas com risco não negligenciável
A situação do mercado obrigacionista levanta igualmente questões. As gilts a 10 anos oferecem mais de 4,8% ao ano, uma rentabilidade atrativa, mas que reflete também as preocupações quanto às finanças públicas britânicas.
Desde 2021, o défice orçamental médio situou-se em cerca de 4,8%. Andy Burnham procura tranquilizar os mercados, destacando a sua intenção de gerir as finanças públicas de forma responsável.
No entanto, o ceticismo mantém-se, dado que é difícil conciliar relançamento económico, maior investimento e responder às expectativas sociais sem pressionar adicionalmente as contas públicas. Não recomendamos ETF de dívida em libras (GBP).
Conselho: permanecer seletivo
A demissão de Keir Starmer assinala apenas o fim de um ciclo político. Entre uma economia com dificuldades em recuperar dinamismo, uma bolsa dominada por setores tradicionais e finanças públicas sob pressão, o Reino Unido enfrenta múltiplos desafios.
As valorizações de algumas empresas britânicas permanecem atrativas, oferecendo oportunidades pontuais. Em contrapartida, não se identifica, neste momento, uma justificação suficiente para reforçar significativamente a exposição aos ativos britânicos. Não aconselhamos a compra de ETF dedicados às ações do Reino Unido.