A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) acaba de lançar o Observatório da Poupança para a Reforma, que monitoriza os níveis de poupança, a evolução do mercado e os comportamentos dos consumidores, reunindo indicadores económicos, demográficos e financeiros, bem como resultados de inquéritos à população.
O que é o Observatório da Poupança para a Reforma?
O Observatório da Poupança de Longo Prazo para a Reforma reúne informação sobre os níveis de poupança, a evolução do mercado e os comportamentos dos consumidores em Portugal.
O objetivo é acompanhar a preparação financeira da população para a reforma, combinando indicadores económicos, demográficos e financeiros com resultados de inquéritos à população.
Quantos portugueses estão a poupar para a reforma?
Alguns dos dados interessantes deste Observatório resultam do inquérito à população, promovido pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF). Este inquérito foi efetuado a 801 residentes em Portugal, com 18 ou mais anos, através de entrevistas telefónicas realizadas entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026. E apresenta os seguintes resultados:
55% dos inquiridos não poupam ativamente para a reforma. Quanto aos 45% que disseram estar a poupar para a reforma, 28% têm produtos específicos (PPR, fundos de pensões, Certificados de Reforma ou planos mutualistas) e 17% poupam sem produto específico.
Quando se deve começar a poupar para a reforma?
49% consideram que a preparação financeira para a reforma deve começar antes dos 30 anos. Mas, entre os jovens adultos, apenas 17% possuem produtos específicos de poupança de longo prazo para a reforma.
Porque é que 55% dos portugueses não poupam para a reforma?
55% dos que referem não poupar, apontam a insuficiência de recursos financeiros como o principal motivo; 27% ainda não pensou no assunto ou considera prematuro; 4% prefere outros investimentos; 3% considera ter rendimentos suficientes na reforma; 2% opta por produtos complexos e 2% consideram suficiente a pensão futura. Ou seja, a principal conclusão é que a falta de capacidade financeira constitui o maior obstáculo, mas o adiamento da decisão também tem um peso significativo.
Quanto às principais motivações para poupar para a reforma: 38% refere a importância de constituir uma reserva financeira para despesas imprevistas ou emergências; 35% para complementar a pensão da Segurança Social e compensar a quebra de rendimento; e para 12% apontam beneficiar de vantagens fiscais.
Que produtos utilizam os portugueses para preparar a reforma?
Os produtos financeiros mais frequentemente detidos pelos inquiridos são: depósitos a prazo (42%), PPR (31%), Certificados de Aforro ou do Tesouro (27%), ETF (24%), ações (18%).
Há também uma diferença significativa entre conhecer e utilizar produtos financeiros: ETF e produtos mutualistas são dos instrumentos menos conhecidos, com 32% e 39%, respetivamente.
Quanto aos produtos escolhidos para aplicar as poupanças para a reforma, 35% valorizam sobretudo a garantia de capital, 17% privilegiam a confiança na entidade financeira. Apenas 11% colocam a rendibilidade como critério principal.
Um dado especialmente relevante: 34% dos titulares de PPR não sabem identificar o tipo de produto que possuem.
25% não acompanham regularmente as suas poupanças de longo prazo.
O que revelam os atuais reformados?
Relativamente aos que já estão reformados, os resultados do inquérito revelam dificuldades na preparação financeira e na manutenção do nível de vida após a reforma: 61% dos reformados referem uma diminuição do nível de vida depois da reforma; 53% consideram que teria sido importante poupar mais, mas não tiveram possibilidade de o fazer; 24% reconhecem que poderiam ter poupado mais; 89% identificam a pensão da Segurança Social como a principal fonte de rendimento na reforma.
Quanto à intenção futura de poupança, apesar das dificuldades identificadas, existem sinais de potencial crescimento da poupança: 17% dos que atualmente não poupam manifestam intenção de contratar um produto de poupança para a reforma; 24% admitem essa possibilidade, embora com incerteza. Entre os que manifestam intenção de contratar, 58% apontam para os próximos dois anos e 28% para os próximos cinco anos.
Quais são as principais conclusões do estudo?
Da análise dos resultados, destacam-se cinco conclusões fundamentais:
- Insuficiente preparação financeira para a reforma: mais de metade da população não poupa ativamente para esta finalidade e apenas 28% possui produtos específicos de poupança de longo prazo.
- Condicionamento pelo rendimento disponível: a insuficiência de recursos financeiros é o principal obstáculo à constituição de poupanças para a reforma.
- Preferência pela segurança em detrimento da rendibilidade: os portugueses privilegiam produtos que garantam o capital, mesmo quando isso pode limitar o potencial de valorização das poupanças no longo prazo.
- Défice de literacia e acompanhamento financeiro: existe desconhecimento sobre os produtos contratados e falta de acompanhamento da evolução das poupanças.
- Elevada dependência do sistema público de pensões: a maioria dos portugueses continua a confiar essencialmente na Segurança Social para assegurar o seu rendimento durante a reforma.
A principal mensagem do Inquérito à População 2026 é que existe uma diferença significativa entre o reconhecimento da importância de preparar financeiramente a reforma e a efetiva adoção de comportamentos de poupança.
Os portugueses reconhecem a necessidade de começar a poupar cedo, mas enfrentam limitações financeiras, adiam decisões e revelam alguma dificuldade em compreender e selecionar os produtos financeiros disponíveis. Por outro lado, a experiência dos atuais reformados demonstra que a pensão pública nem sempre permite manter o nível de vida anterior à reforma.
Há poucos anos, também a DECO PROteste e a Euroconsumers fizeram um inquérito em vários países sobre a preparação da reforma e o modo como viviam os reformados. E foram identificados 3 erros nos portugueses, relativamente ao planeamento da reforma: começam a poupança tarde, já depois dos 40 anos; poupam pouco; e, os que poupam, fazem-no com produtos muito conservadores (como depósitos, Certificados de Aforro ou do Tesouro e PPR sob a forma de seguro), precisamente os que menos rendem e são menos adequados para uma poupança de longo prazo.
O que pode ser feito para melhorar a preparação financeira para a reforma?
Em termos estratégicos, os resultados destes inquéritos apontam para a necessidade de reforçar três aspetos: a literacia financeira e a informação sobre o funcionamento do sistema de pensões; o acesso e os incentivos à poupança complementar de longo prazo; a transparência, compreensão e adequação dos produtos financeiros destinados à reforma.
E a DECO PROteste tem insistido nas reivindicações no sentido de incentivar a poupança de longo prazo para a reforma, sobretudo nas gerações mais novas, que serão mais impactadas com os cortes previstos nas próximas décadas.