Burlas digitais
Nos últimos meses têm surgido cada vez mais casos de burlas digitais altamente sofisticadas, que exploram a falta de literacia financeira e a confiança das pessoas em “oportunidades de investimento” aparentemente legítimas. Portugal não fica de fora do radar destas burlas que operam à escala internacional.
O caso que aqui apresentamos ocorreu recentemente e envolve um senhor (chamemos-lhe Sr. Vítor) que investiu numa alegada corretora cuja plataforma apresentada, simplesmente, não existe — nem contactos, nem redes sociais, nem qualquer presença verificável nos mercados regulamentados.
Qual pode ter sido o primeiro ponto de contacto?
Uma das formas mais recorrentes de apropriação indevida de informações pessoais é o phishing.
O phishing é um tipo de cibercrime em que os malfeitores se fazem passar por entidades legítimas — como bancos, serviços públicos ou empresas conhecidas — para enganar as vítimas e levá las a revelar informação sensível. Normalmente, enviam emails, SMS ou mensagens com linguagem urgente e links que conduzem a sites falsos, onde recolhem palavras passe, dados financeiros ou outros dados pessoais.
Usar redes públicas e clicar em links desconhecidos torna qualquer pessoa um alvo muito fácil para ataques de phishing, porque estes ambientes facilitam a interceção de dados e a manipulação de páginas falsas. Em redes Wi Fi abertas, podem ser criados pontos de acesso falsos (evil twins) com nomes idênticos aos legítimos, capturar tráfego não encriptado e redirecionar o utilizador para sites maliciosos onde roubam credenciais, dados bancários ou instalam malware.
Além disso, basta um único clique num link perigoso para comprometer o dispositivo, instalar vírus ou expor informações pessoais, mesmo que a página seja fechada rapidamente.
O que aconteceu?
O Sr. Vítor foi vítima de uma burla sofisticada que já lhe causou prejuízos superiores a 60 000 euros.
A fraude foi possível porque o Sr. Vítor foi enganado por uma pessoa que se fez passar por um gestor de conta que trabalhava numa empresa que supostamente tinha parceria com o Banco Invest. Logo aí, o Sr. Vítor entrou na casa do burlão.
Após ter enviado dinheiro, a fraude continuou a desenvolver-se ao longo de várias semanas através de emails falsos, plataformas de investimento fictícias com promessas de retornos elevados, cuidadosamente construídas para criar confiança e manipular o investidor.
O burlão, que se apresentava sob o nome “Roberto Martinez”, convenceu o Sr. Vítor a transferir quantias cada vez maiores para uma plataforma que, na realidade, não existe e nunca esteve registada em qualquer entidade reguladora. Para sustentar a ilusão, eram enviados regularmente emails com “notícias”, gráficos e resultados totalmente fabricados, simulando lucros significativos na suposta conta de investimento.
À medida que a fraude avançava, o Sr. Vítor era pressionado a depositar mais dinheiro, sob o pretexto de que apenas assim poderia desbloquear os lucros acumulados. Pagar “taxas de levantamento”, “comissões de corretora” é uma tática típica de esquemas fraudulentos: criar a sensação de que a vítima está prestes a recuperar o investimento — desde que faça mais um pagamento.
No final, quando o Sr. Vítor tentou efetivamente levantar o dinheiro, surgiram novos obstáculos inventados, pedidos adicionais de pagamento e ausência total de respostas credíveis. Pediram que fizesse transferência para um "seguro" para assim receber o seu dinheiro... Só então se tornou evidente que toda a operação era uma burla estruturada, apoiada em identidades falsas, assinaturas inconsistentes, plataformas inexistentes e comunicações manipuladas.
Alerta: uma burla pode não vir só
Ser vítima de uma burla não significa que o perigo acabou. Na verdade, muitos burlões voltam a atacar algum tempo depois, aproveitando-se do facto de já terem acesso aos dados pessoais da vítima. Com essas informações, entram novamente em contacto, mas desta vez fingem ser uma empresa especializada em recuperar dinheiro perdido, um departamento antifraude, um advogado ou até uma entidade policial.
O objetivo é sempre o mesmo: convencer a pessoa de que é possível reaver o montante perdido, desde que pague uma taxa, um imposto, uma comissão ou qualquer outro valor inventado. Criam urgência, enviam documentos falsos e usam linguagem profissional para parecerem credíveis. Como a vítima está fragilizada, esperançosa e muitas vezes envergonhada, torna-se mais vulnerável a acreditar.
Os números de burlas digitais têm crescido
Desde 2024 até final de maio deste ano, no serviço de informação da DECO PROteste já foram registadas 312 reclamações, ao passo que em 2025 eram 146 reclamações. Em 2026, em menos de metade do ano, as reclamações já são 98.
Como funcionou a burla
1. Falso “gestor de conta”
Nomes estrangeiros são frequentemente usados com o intuito de transmitir credibilidade internacional, ou para servir de forma de distanciamento artificial, contudo, permanecem fictícios. Desta forma cria uma identidade ou empresa fictícia que aparenta operar no estrangeiro, contudo pode operar localmente.
Com o uso crescente de tradutores automáticos e ferramentas de IA, torna-se cada vez mais fácil moldar a linguagem e identidade digital aumentando a eficácia do engano.
Neste caso cremos que não tenha sido coincidência o gestor de conta ter o mesmo nome que o atual treinador da seleção portuguesa. Detalhes que podem por vezes escapar quando se aceitam emails ou termos e condições à pressa.
2. Plataforma falsa com uma vinculação inexistente a um banco
O primeiro cuidado a ter é não entrar na casa (site) do burlão. Na internet é preciso ter cuidados redobrados…
Apesar de no caso em questão não terem sido criados emails semelhantes aos de um determinado banco ou corretora legítima para melhor conseguir enganar potenciais vítimas, tal poderia ter sido feito facilmente em vários casos e de várias maneiras.
O domínio bancoinvest.pt é o site oficial do Banco Invest. No entanto, é relativamente simples adquirir domínios semelhantes através de diversas plataformas online. O domínio bancoinvest.com, por exemplo, encontra se à venda por 9 888 dólares, ou por um pagamento mensal de 824 dólares.
A existência de um domínio (.com) pode transmitir maior legitimidade a utilizadores menos atentos, já que este é um dos tipos de domínio mais utilizados e reconhecidos na internet. Por esse motivo, muitos podem ser facilmente induzidos em erro.
Além disso, existem inúmeras alternativas de domínios disponíveis a preços muito mais baixos, como .org, .website, .pt, entre muitos outros. Esta variedade facilita ainda mais a criação de páginas falsas que, à primeira vista, podem parecer legítimas.
Por isso, é fundamental verificar sempre qual é o domínio oficial da empresa ou instituição com que se pretende comunicar. Em caso de dúvida, deve-se confirmar diretamente no site oficial e contactar apenas os números e emails que lá estejam publicados, nunca aqueles fornecidos por mensagens suspeitas ou por remetentes desconhecidos. Esta simples verificação pode evitar que uma vítima seja conduzida para páginas fraudulentas criadas com o objetivo de recolher dados pessoais, credenciais de acesso ou informações financeiras.
Estas técnicas são comuns: criar uma marca quase igual à de uma instituição legítima para enganar quem não verifica detalhes. Por vezes também tentam trocar um i maiúsculo (I) por um L.
Outros truques já usados:
- Substituição do (m) por (rn) Ex.: premium → prernium
- Adição ou remoção de uma letra: bancoinvest.pt → bancoinveste.pt
- Adição de hífen: bancoinvest.pt → banco-invest.pt
- Inversão de letras: investbank.com → invetsbank.com
- Adição de palavras que parecem legítimas: bancoinvest.pt → bancoinvest online.com bancoinvest.pt → bancoinvest support.com
- Poderão até mesmo tentar outras versões como BancoInveste, BankInveste, InvestBank.
Qualquer que seja o caso, os burlões mais astutos utilizam os contactos e logótipos reais do banco em questão, Banco Invest, e assinam abaixo no email como se fosse uma resposta corporativa.
Contudo deixamos já o alerta que não é muito comum grandes corporações, como bancos e corretoras, mudarem a formatação e tipo de letra ao longo de vários emails.
Outro perigo – cuidado com links
Importa ainda alertar para um risco adicional: ao clicar inadvertidamente num link malicioso durante uma troca de emails, pode ser instalado um mecanismo que permite aos burlões monitorizar ou redirecionar comunicações futuras. Assim, sempre que a vítima receber emails legítimos de um banco ou empresa, os criminosos podem também ter acesso a essa informação e, em poucas horas, fabricar páginas e mensagens falsas altamente convincentes, aproveitando o contexto real para reforçar o engano e conduzir a vítima a ações perigosas, como fornecer códigos, palavras passe, enviar dinheiro, ou autorizar transações.
3. Emails inconsistentes e mal escritos
A presença de assinaturas diferentes dentro da mesma suposta entidade — e até dentro da mesma cadeia de comunicação — é um dos indicadores mais evidentes de que estamos perante uma operação fraudulenta. No exemplo apresentado, observam se várias inconsistências:
Variação no nome e na forma como é escrito
- Num email surge “ROB… MARTINEZ” em maiúsculas.
- Noutro surge “Rob… Martinez” em formato normal.
- Num aparece apenas o nome; noutro já existe um cargo (“Gestor de contas”).
- Mudança repentina de estrutura da assinatura.
- Num email aparece apenas o nome, noutro aparece o nome, cargo, e email corporativo.
4. Uso abusivo de entidades reguladoras
Num dos emails trocados, foram usados os logótipos da FCA (Financial Conduct Authority), e ESMA (European Securities and Markets Authority).
O mais evidente é não só a utilização de logótipos desformatados da FCA e da ESMA para tentar parecer legítimos, mas também a falta de cuidado. Os logótipos aparecem desalinhados e com um aspeto amador, algo pouco compatível com uma entidade que supostamente estaria regulada por organismos financeiros de topo.
E depois há a pérola do inglês: afirmam estar registados na FCA (Financial Conduct Authority), mas escrevem "Financial Conducer Authority". Trocar conduct por conducer num texto que pretende provar regulação financeira é um erro que acaba por denunciar a fraude.
Entre logótipos desalinhados, erros ortográficos e referências falsas a reguladores, parece mais um trabalho feito à pressa do que uma comunicação de uma instituição financeira séria.
5. Pressão psicológica e manipulação emocional
Após conquistar a confiança do investidor através da apresentação de lucros fictícios, os responsáveis pelo esquema recusaram autorizar o levantamento dos fundos. Em vez disso, condicionam qualquer levantamento à realização de novos depósitos. Esta prática constitui uma técnica típica de fraude e extorsão financeira, na qual a vítima é induzida a entregar quantias adicionais sob falsos pretextos.
6. Promessas irreais de “risco baixo e médio” com operações de alto risco
A plataforma dizia operar com CFD e volumes de 5 a 8 lotes, mas classificava o risco como “médio”. Na realidade, este nível de exposição é altíssimo risco, totalmente incompatível com qualquer classificação séria.
Foi possível ver que o investimento inicial de 50 000 € que tinha mais de 6 operações abertas, apenas 1 delas já tinha um risco que ultrapassava no mínimo os 20% do investimento. Logo, seria impossível este investimento ter a classificação de baixo-médio risco, como foi apresentado.
7. Lucros certos sem risco
Se alguém promete retornos garantidos e sem qualquer tipo de risco… Não acredite. Já diz o ditado que quando a esmola é muita, o pobre desconfia.
Como se proteger?
A decisão de investir (ou não) é sempre do próprio investidor, contudo, aconselhamos vivamente a ponderar certos elementos.
Na DECO PROteste Investe temos chamado a atenção para algumas características que, sobretudo quando surgem em conjunto, devem levantar dúvidas, nomeadamente:
- promessas de ganhos muito elevados, em pouco tempo e sem risco;
- pressão para decidir e investir rapidamente (“a oportunidade é limitada”, “tem de decidir hoje”);
- pedidos para instalar programas que permitam o acesso remoto ao seu computador ou telemóvel;
- dificuldades em levantar o dinheiro: sucessivos entraves, exigência de novos pagamentos ou depósitos “para desbloquear” levantamentos;
- ausência de supervisão por entidades como a CMVM ou o Banco de Portugal;
- reclamações online, em fóruns, redes sociais e plataformas de queixa, com relatos semelhantes (por exemplo, problemas em recuperar o dinheiro).
Estes pontos são alertas e não significam, por si só, que a empresa pratique uma eventual burla, mas indicam um risco acrescido que deve ser avaliado com cuidado.
Quando uma plataforma não está registada ou autorizada em Portugal junto das entidades competentes (como a CMVM ou o Banco de Portugal), isso tem várias implicações:
- não está sujeita à supervisão regulatória nacional;
- não existem garantias quanto à proteção do capital investido, à segregação de ativos, nem mecanismos nacionais de reclamação ou compensação ao investidor;
- em muitos casos, não pode, em termos legais, prestar determinados serviços de investimento a residentes em Portugal;
- em caso de diferendo, o mesmo terá de ser tratado na respetiva jurisdição.
Informação é proteção
Este caso é mais um exemplo de como a falta de literacia financeira, aliada à astúcia de oportunistas, pode levar pessoas a perder as suas poupanças. A melhor defesa é a informação: quanto mais conhecermos estes esquemas, menos vítimas existirão. Saber é poder.
De forma prática, sugerimos que considere, entre outros, os seguintes passos:
- Pesquisar online para ver se existem muitas reclamações, em diversas plataformas e redes sociais, com padrões semelhantes (dificuldade em levantar fundos, pedidos de mais dinheiro, alterações unilaterais das condições, etc.).
- Confirmar se a entidade está registada junto das autoridades de supervisão do país onde diz estar sediada e, se for o caso, junto da CMVM/Banco de Portugal.
- Se, apesar dos eventuais riscos, decidir avançar, começar apenas com um montante reduzido e testar se, na prática, é possível levantar o dinheiro sem entraves.
Antes de investir, colocar a hipótese de correr mal:
- Se perder o dinheiro, a que tribunal teria de recorrer?
- O processo teria de ser nas Seicheles ou noutro país?
Depois desta reflexão, estará em melhores condições para decidir se aceita ou não o risco. Mas a decisão é sempre sua. Contudo, recomendamos: nunca invista em produtos que não conhece! Confirme sempre que a entidade é autorizada e regulada pelas autoridades e se tiver dúvidas não lhes confie o seu dinheiro.
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