Quando a alavancagem destrói uma boa ideia
O fundo Situational Awareness, criado por Leopold Aschenbrenner, jovem de 25 anos, passou em pouco tempo de uma das histórias de maior sucesso da nova vaga de investimento em Inteligência Artificial para um caso clássico de destruição de capital causada pela alavancagem financeira. A situação culminou com a venda da maior parte da carteira pública do fundo à Citadel, de Ken Griffin.
Mais importante do que a história em si é aquilo que ela ensina sobre alguns dos conceitos mais importantes das finanças: alavancagem, chamadas de margem, liquidez e risco de sobrevivência.
O que aconteceu?
Leopold Aschenbrenner tornou-se conhecido após publicar análises muito otimistas sobre o desenvolvimento da Inteligência Artificial e sobre a necessidade crescente de semicondutores, centros de dados, memória avançada e infraestruturas computacionais. Com base nessa visão, criou o fundo Situational Awareness, concentrando investimentos em empresas consideradas beneficiárias da revolução da IA, incluindo fabricantes de memória, infraestruturas de dados e fornecedores de computação.
A estratégia produziu retornos extraordinários durante a subida do setor. O fundo chegou a registar ganhos superiores a 400% em 2026 e cresceu rapidamente para dezenas de milhares de milhões de dólares sob gestão.
O problema foi que além de não existir diversificação, grande parte dessas posições estava financiada com dívida.
O conceito fundamental: o que é a alavancagem?
A alavancagem consiste em utilizar dinheiro emprestado para aumentar a dimensão dos investimentos.
Exemplo simples de alavancagem
Imagine que um investidor possui:
- Capital próprio: 100 euros
- Empréstimo: 300 euros
Passa a controlar:
- Carteira total: 400 euros (1:4 alavancagem)
Neste caso está a utilizar 4x de alavancagem, ou seja, cada variação do mercado é amplificada em quatro vezes. Um movimento contrário de apenas 10%, com uma alavancagem de 4x são 40% de perda.
Um movimento de 30% alavancado a 3x são 90%. A alavancagem financeira sem gestão de risco é uma das piores inimigas do investidor. Mas um uso cuidado da alavancagem, pode permitir com que ela seja uma das melhores amigas do investidor.
Para melhor compreender estes conceitos e implicações, leia o nosso guia de trading.
Porque correu mal?
A grande lição deste episódio é que existe uma diferença enorme entre:
- ter razão no longo prazo
- conseguir sobreviver no curto prazo
O fundo apostava que a IA exigiria enormes investimentos em chips, memória, eletricidade e centros de dados durante muitos anos. Essa tese pode continuar válida. Mas os mercados não se movem em linha reta. Quando várias ações ligadas ao tema IA caíram simultaneamente, as perdas foram amplificadas pela alavancagem.
O que é uma chamada de margem (Margin Call)?
Aqui está o ponto crucial. Quando um fundo opera com dinheiro emprestado, os bancos exigem garantias. Se a carteira perder valor, o credor pode exigir:
1. Mais dinheiro
2. Mais colateral
3. Venda imediata de ativos
Essa exigência chama-se Margin Call. Os prime brokers que financiavam o fundo, incluindo grandes bancos de investimento, exigiram garantias adicionais à medida que as perdas aumentavam.
O maior inimigo do investidor: não é a perda, é a liquidação forçada
Este é talvez o conceito mais importante de todo o episódio. Muitos investidores pensam que o pior cenário é uma ação cair. Na realidade, para quem está alavancado, o maior risco é ser obrigado a vender. Suponhamos:
• Comprou uma ação a 100 euros
• Cai para 70 euros
• Meses depois recupera para 120 euros
O investidor sem dívida sobrevive. O investidor alavancado em x3 (em vez de perder 30% perdeu 90% e pode ser obrigado a vender a ação aos 70 €. Quando a recuperação chega, já não participa. Foi exatamente isso que aconteceu ao fundo de Aschenbrenner. A venda não aconteceu porque ele quis, aconteceu porque o financiamento desapareceu.
Onde entra a Citadel?
A Citadel apareceu como compradora dos ativos. Quando um grande investidor é forçado a vender rapidamente, surge uma oportunidade para quem possui:
• Liquidez
• Capital abundante
• Horizonte temporal longo
A Citadel adquiriu uma parte substancial das posições públicas do fundo numa situação de venda forçada.
A principal lição para investidores
O episódio recorda uma das frases mais famosas de Warren Buffett: "Para terminar em primeiro lugar, primeiro é preciso terminar." Nas finanças, a sobrevivência é uma variável tão importante como a rentabilidade.
Os melhores investidores do mundo não pensam apenas:
- quanto posso ganhar?
Pensam sobretudo:
- quanto posso perder?
- consigo sobreviver a esse cenário?
O que os investidores particulares podem aprender?
1. A alavancagem amplifica tudo
Ganhos e perdas.
2. Uma boa tese pode falhar temporariamente
Mesmo que a análise fundamental esteja correta.
3. Liquidez é poder
Quem tem liquidez durante crises consegue aproveitar oportunidades.
4. O risco não é apenas volatilidade
O verdadeiro risco é a perda permanente de capital.
5. Gestão de risco é mais importante que previsão
Muitos investidores procuram prever o futuro. Os profissionais procuram sobreviver a vários futuros possíveis.
Conclusão
O colapso parcial do fundo Situational Awareness não parece ser um caso clássico de fraude, nem necessariamente uma demonstração de que a tese de investimento em IA estava errada. O episódio mostra algo muito mais importante: a diferença entre estar certo e conseguir permanecer solvente.
A queda das ações ligadas à IA provocou perdas significativas. A utilização de dívida amplificou essas perdas. As chamadas de margem obrigaram à venda dos ativos. E a Citadel aproveitou a oportunidade para adquirir posições de um vendedor que já não tinha poder negocial.
A grande lição para qualquer investidor é simples:
Uma tese de investimento pode sobreviver a uma correção. Uma estrutura de financiamento demasiado agressiva pode não sobreviver sequer tempo suficiente para ver a tese confirmada.
Em finanças, muitas vezes não ganha quem faz a previsão mais brilhante. Ganha quem consegue permanecer no jogo durante mais tempo.