Quatro meses após atingir o pico máximo de 126 200 dólares, a 6 de outubro de 2025, a bitcoin (BTC) caiu mais de 52% até fevereiro, para 60 mil dólares. Desde esta correção, a bitcoin voltou a subir até aos 76 mil dólares, mas o movimento revelou-se insustentável, com o preço a manter-se nesse nível apenas durante algumas horas.
Este comportamento evidencia uma clara falta de força compradora e ausência de continuidade na tendência de subida. A criptomoeda mais famosa atravessa um dos períodos mais complexos do seu ciclo recente, combinando fatores macroeconómicos adversos, saídas de posições, tensões geopolíticas e pressões internas da própria rede.
O poder das narrativas
O conjunto de narrativas construídas – muitas vezes a posteriori e ajustadas ao desempenho da BTC – não constitui evidência suficiente para classificá-la como ativo de reserva em cenários de crise financeira.
Muito menos sustenta a ideia de safe haven (ativo de refúgio), sobretudo quando o seu comportamento reflete contextos de menor liquidez, incerteza regulatória e redução global do apetite por risco. Em teoria, um ativo de refúgio deve preservar valor em períodos de stresse financeiro, baixa liquidez e aumento da aversão ao risco.
No entanto, o comportamento histórico da bitcoin sugere o contrário: em fases de aperto monetário ou incerteza macroeconómica, tende a desvalorizar em linha com outros ativos de risco, nomeadamente ações do setor tecnológico.
O chamado "efeito Trump" no mercado das criptomoedas tem desempenhado um papel central na construção das narrativas em torno da BTC. Lopo após a sua eleição em novembro de 2024, a bitcoin valorizou mais de 25 mil dólares em cerca de um mês, refletindo o impacto direto da retórica política na especulação deste ativo.
Trump tem apoiado – através de políticas e iniciativas públicas – várias medidas que procuram legitimar o uso de criptomoedas nos EUA, incluindo propostas como reservas estratégicas de criptoativos. No entanto, mais do que simples defensores da inovação financeira, Trump e membros da sua família têm capitalizado de forma significativa o entusiasmo em torno do mercado cripto.
As suas operações, que incluem a venda de tokens, memecoins e projetos DeFi, já terão gerado receitas estimadas em mais de mil milhões de dólares. Estes números ilustram como o mercado das criptomoedas continua altamente exposto a movimentos especulativos, impulsionados não só por fatores macroeconómicos, mas também por intervenções de figuras públicas com interesses próprios.
Apesar dos avanços recentes na regulação das criptomoedas, como a implementação do MiCA, na Europa, e a adoção de novas estruturas regulatórias nos EUA, estas iniciativas ainda não alteraram de forma estrutural a natureza volátil e especulativa da bitcoin e dos restantes criptoativos.
Na prática, a crescente supervisão do mercado cripto contribui para maior transparência e enquadramento legal, mas não elimina os riscos inerentes a um setor altamente sensível à especulação e também a fatores macroeconómicos – como taxas de juro, liquidez e inflação – e narrativas de elevado impacto mediático.
Os grandes players institucionais
Com a entrada de fundos de investimento, bancos e empresas, como a coinbase, a bitcoin passou a integrar de forma mais direta o ecossistema financeiro global, reforçando a sua importância no conjunto dos ativos financeiros. Esta crescente adoção institucional da bitcoin trouxe maior profundidade ao mercado e aumento de liquidez, fatores que contribuem para uma maior maturidade do mercado de criptomoedas.
No entanto, esta integração também tornou a BTC mais exposta a variáveis macroeconómicas, incluindo taxas de juro, políticas monetárias dos bancos centrais e condições globais de liquidez. Como resultado, comporta-se cada vez mais como um ativo de risco, apresentando uma correlação mais evidente com outros mercados financeiros e reagindo de forma sensível a decisões de política económica e ao contexto macro global.
Num contexto de política monetária expansionista, caracterizada por juros baixos e abundância de liquidez, a bitcoin tende a ser beneficiada. Por sua vez, em ciclos de aperto monetário, verifica-se, à semelhança do que acontece com ações de crescimento e outros ativos mais especulativos, maior pressão vendedora.
A crescente presença institucional trouxe também estratégias de gestão de risco mais sofisticadas, incluindo rebalanceamentos de portfólio, utilização de derivados e maior sensibilidade a indicadores macro. Isso faz com que a bitcoin reaja não apenas a dinâmicas internas do ecossistema cripto, mas também a choques externos, como decisões de bancos centrais, dados de inflação ou mudanças no sentimento global dos mercados.
Consequentemente, a narrativa inicial de que a bitcoin funcionaria como um ativo totalmente independente do sistema financeiro tradicional tem vindo a perder credibilidade.
Em vez disso, a principal criptomoeda evidencia um comportamento cada vez mais híbrido. Embora mantenha algumas características próprias, como a descentralização e a oferta limitada, a BTC está progressivamente mais integrada no sistema financeiro global.
Perfis de investidores
O mercado atual caracteriza-se por diferentes perfis de investidores: long-term holders (LTH), que continuam a acumular BTC, reduzindo a oferta líquida no mercado; investidores alavancados, que dominam a volatilidade de curto prazo; e institucionais, que adotam um comportamento mais cauteloso.
Um exemplo relevante é o da Strategy Inc., a maior detentora de BTC, que, após uma sequência de 13 semanas consecutivas de acumulação, interrompeu temporariamente as compras na semana de 23 a 29 de março.
Os custos de mineração de bitcoin, devido ao aumento do preço da energia derivado das tensões geopolíticas, também afetam o seu valor de mercado, resultando numa queda da hashrate (medida da velocidade e do poder computacional total utilizado para minerar e processar transações numa blockchain) e aumento do tempo de validação.
Em resumo, a bitcoin não é um ativo de refúgio. Continua a ser altamente volátil e especulativa, cuja valorização depende fortemente do ciclo de liquidez global. Apesar do seu potencial e crescente adoção, não tem qualquer valor intrínseco e não reúne condições para ser considerada um ativo defensivo ou de reserva no sentido tradicional.
Deve, portanto, encará-la com cautela, compreendendo que o risco é elevado e o seu preço está longe de ser estável ou previsível em contextos adversos. Consoante a altura em que comprou bitcoin, pode ter sofrido fortes perdas em 2025, tendo perdido uma oportunidade de beneficiar das elevadas valorizações dos principais mercados de ações e empresas cotadas.
A DECO PROteste Investe continua a não aconselhar o investimento em criptomoedas, mas se, ainda assim, quiser especular e aceitar correr riscos elevados, não invista mais do que 5% da sua carteira. Acompanhe as notícias mais relevantes sobre bitcoin, ethereum e ripple.
A técnica de investimento gradual (dollar-cost averaging) pode ser uma ferramenta útil para os investidores construírem posições de longo prazo de forma progressiva, reduzindo o risco de comprarem em momentos de alta, ou reagir de forma impulsiva às quedas.
| Categoria | Riscos Associados | Como Proteger as Chaves | Como Defender-se de Fraudes |
|---|---|---|---|
| Segurança Digital | Roubo de chaves privadas, phishing, malware, ataques a exchanges ou carteiras online. | Usar carteiras hardware (cold wallets); armazenar chaves offline; usar autenticação 2FA; usar redes de wi-fi seguras. | Nunca clicar em links suspeitos; verificar URLs; usar software antivírus e atualizações regulares. |
| Engenharia Social | Golpes de suporte técnico falso, esquemas Ponzi, ofertas de investimento fraudulentas. | Nunca partilhar chaves ou frases de recuperação; confirmar identidade de contactos; faça perguntas complexas, se não o querem ajudar, irão ficar impacientes. | Desconfiar de promessas de retorno garantido; pesquisar projetos antes de investir. |
| Regulatório | Mudanças repentinas na legislação, restrições bancárias, congelamento de ativos. | Manter-se informado sobre regulamentações locais; diversificar jurisdições de custódia. | Usar plataformas regulamentadas no MiCA; evitar operações em mercados não regulados. |
| Tecnológico | Falhas em smart contracts, bugs em carteiras. | Usar carteiras com código aberto e auditado; evitar redes com baixa hash rate. | Monitorizar transações; usar serviços de seguro para grandes quantidades. |
| Operacional | Perda de chaves, falha humana, herança não planeada. | Guardar backups físicos em locais seguros; usar ferramentas de herança cripto. | Criar planos de recuperação; partilhar informações de acesso com pessoas de confiança. |