O evento Money Talks apresenta-se como um dos encontros mais completos sobre literacia financeira em Portugal. Como nasceu esta ideia?
Depois de organizarmos um evento sobre investimento imobiliário, o IMOtalks. Foi uma espécie de teste para perceber se conseguíamos criar um formato diferente de evento. No final, lancei logo uma pré-inscrição para o Money Talks, porque sempre quis criar um encontro dedicado à literacia financeira.
Curiosamente, eu próprio não tive grande educação financeira em casa. Tive de aprender sozinho a ler, pesquisar e a fazer cursos. Quando comecei a falar destes temas com amigos, percebi que muitos também não dominavam o assunto. Ao investigar mais, confirmei aquilo que vários estudos mostram: Portugal tem níveis muito baixos de literacia financeira.
Já existiam eventos focados em investimento, mas literacia financeira é muito mais do que isso. A ideia foi criar um espaço onde se pudesse falar de dinheiro sem tabus nem vendas em palco. Um evento útil tanto para quem está a aprender a poupar ou a gerir o orçamento, como para quem já investe e quer diversificar ou otimizar as suas finanças.
Apesar de se falar cada vez mais em literacia financeira, Portugal continua na cauda da Europa. O problema é falta de informação ou falta de uma boa rotina para gerir o dinheiro?
Começa logo pelo mindset, pela forma como as pessoas olham para o dinheiro. Como não é um tema ensinado nas escolas e muitas vezes também não vem de casa, cria-se um vazio geracional. Se os pais não têm esse conhecimento, dificilmente o transmitem aos filhos.
Depois há também um estigma em torno do dinheiro e do sucesso financeiro. Muitas vezes ouvimos que o dinheiro não traz felicidade ou que quem tem dinheiro o conseguiu de forma ilícita. Existe uma narrativa negativa em torno do sucesso financeiro.
Ao mesmo tempo, promove-se muito a ideia de enriquecimento rápido, seja através de apostas ou jogos, como as raspadinhas. A realidade é diferente: construir estabilidade financeira exige tempo, conhecimento, disciplina e sacrifícios. Enquanto essa mentalidade não mudar, será difícil melhorar os níveis de literacia financeira.
Podemos, então, dizer que os portugueses ainda não sabem gerir o seu dinheiro?
Infelizmente, sim. As estatísticas mostram isso claramente. Estudos recentes indicam que mais de metade dos portugueses não conseguiria pagar uma despesa inesperada de 2 mil euros no mês seguinte. Isso é preocupante porque imprevistos acontecem.
Quando as pessoas não têm margem financeira acabam por recorrer a mais dívida para pagar dívida, criando uma bola de neve difícil de controlar. Se tivesse de escolher três decisões financeiras fundamentais para ajudar os portugueses a melhorar a literacia financeira, quais seriam?
A primeira é investir em conhecimento. Perceber como funciona o dinheiro e as finanças pessoais é essencial.
A segunda é ter um controlo claro das finanças pessoais, saber exatamente quanto entra e quanto sai todos os meses. Muitas pessoas não têm essa visão e acabam por gastar mais do que deviam sem se aperceberem.
A terceira é criar hábitos de poupança. Muitas pessoas dizem que não conseguem poupar, mas depois percebemos que continuam a gastar em coisas que não são essenciais.
Não se trata de deixar de viver, mas de fazer alguns sacrifícios no presente para ter mais liberdade financeira no futuro. A partir daí, torna-se possível criar um fundo de emergência e começar a investir.
O Money Talks junta especialistas de várias áreas do dinheiro e das finanças, desde poupança e investimento ao empreendedorismo. Que tipo de conversas quer provocar e que ferramentas práticas espera que as pessoas levem consigo?
O evento aborda nove grandes áreas. Queremos ajudar as pessoas a perceber como criar hábitos de poupança, como começar a investir mesmo com pouco dinheiro e como preparar melhor o futuro financeiro, incluindo a reforma.
No palco principal, falamos de diferentes tipos de investimento, explicando níveis de risco, capital necessário e retornos esperados, para que cada pessoa perceba o que faz sentido para o seu perfil.
Teremos também um palco premium, onde os assuntos são mais aprofundados, com conteúdos destinados a quem já tem algum conhecimento. Este espaço será especialmente direcionado a empreendedores e empresários, conseguindo-se assim chegar a diferentes públicos-alvo em diferentes estágios de conhecimento.
Também teremos conversas sobre como falar de dinheiro com os filhos, criar hábitos financeiros em família e gerir finanças em casal.
Investir tornou-se cada vez mais popular, sobretudo entre os mais jovens. Isso é positivo mas também acarreta riscos. Concorda?
É positivo e há dados que mostram que os portugueses estão a investir mais, sobretudo as gerações mais jovens. Estas gerações percebem que começar cedo faz muita diferença. Na verdade, no investimento, o valor inicial não é o mais importante. O mais importante é a consistência e o tempo. Quanto mais cedo se começa, maior pode ser o impacto no longo prazo. Mas é importante perceber que investimento implica risco. As pessoas precisam de conhecer esse risco e de investir de forma consciente, de acordo com o seu perfil.
As redes sociais trouxeram uma espécie de “ilusão de riqueza rápida”. Como distinguir educação financeira séria de promessas fáceis?
Uma regra simples é esta: quando algo parece demasiado bom para ser verdade, normalmente é porque é mesmo demasiado bom para ser verdade. Quando vemos conteúdos com carros de luxo, casas no Dubai ou promessas de ganhos rápidos, devemos desconfiar. Há um princípio básico no investimento: resultados passados não garantem resultados futuros. O ideal é procurar pessoas e entidades com credibilidade e percurso reconhecido. No Money Talks fizemos um trabalho rigoroso de curadoria para garantir que os oradores têm conhecimento e credibilidade.
O que espera que aconteça ao debate sobre literacia financeira, em Portugal, nos próximos anos?
Gostava muito de ver, daqui a uns anos, mais pessoas interessadas em aprender sobre dinheiro do que em apostar ou jogar online. Esse seria um sinal muito positivo. Eventos como o Money Talks tentam contribuir para essa mudança. Queremos criar um espaço onde as pessoas possam aprender, ganhar conhecimento e também conhecer outras pessoas com objetivos semelhantes. Os dois pilares do evento são precisamente esses: conhecimento e networking. A ideia é que quem participa saia de lá com ferramentas práticas e possa começar a aplicar o que aprendeu logo na segunda-feira seguinte. Se conseguirmos contribuir para melhorar o bem-estar financeiro dos portugueses, já estaremos a dar um passo importante.
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