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Mais do que a alteração do rating, importa avaliar, nas obrigações, a relação entre a yield, o prazo e o risco.

Publicado em: 09 setembro 2026
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Autor: Adelino Gonçalves

Fitch sobe rating de Portugal para A+: o que muda para as obrigações?

A Fitch elevou o rating de Portugal para A+. Saiba o que muda para as Obrigações do Tesouro, yields e investidores.

A dívida pública portuguesa recebeu mais um sinal positivo de uma das principais agências internacionais de rating. A Fitch Ratings elevou a classificação de Portugal para A+, reforçando a confiança na capacidade do país para cumprir os seus compromissos financeiros.

O que significa a subida do rating de Portugal para A+?

A Fitch Ratings elevou o rating de Portugal de "A" para "A+", mantendo uma perspetiva estável. A decisão foi anunciada a 4 de setembro de 2026, menos de um ano depois da anterior subida, quando Portugal passou de "A-" para "A".

A melhoria reflete sobretudo a redução da dívida pública, a solidez das contas públicas e a capacidade da economia portuguesa para continuar a crescer.

A agência prevê que a dívida pública passe de 89,7% do PIB em 2025 para 87,0% em 2026 e 82,9% em 2028.

O rating A+ é positivo para as Obrigações do Tesouro?

A subida do rating de Portugal para A+ é positiva para as Obrigações do Tesouro (OT), mas não significa, por si só, que este seja o melhor momento para comprar.

Uma subida do rating significa que a Fitch considera menos provável que o Estado português tenha dificuldades em cumprir os seus compromissos financeiros. Em teoria:

Risco percebido ↓ → procura pela dívida ↑ → preço das obrigações ↑ → yield ↓

É precisamente aqui que surge o primeiro aspeto a ter em conta. Parte do impacto positivo da melhoria do rating pode já estar refletido nos preços das obrigações. Por isso, mais do que a alteração do rating, importa avaliar a relação entre a yield, o prazo e o risco.

Como pode o novo rating influenciar as yields?

A subida do rating é favorável à dívida portuguesa, mas não é o único fator que influencia as yields.

As OT são também afetadas pelas decisões do Banco Central Europeu (BCE), pela inflação, pelas expectativas para as taxas de juro, pelas yields alemãs e pelas condições dos mercados financeiros.

O BCE não indica antecipadamente qual será a evolução futura das taxas de juro. Por isso, qualquer previsão sobre a evolução das taxas de juro deve ser vista como uma estimativa, e não como um facto.

Assim, as yields portuguesas podem subir mesmo depois da melhoria do rating. E quando as yields sobem, os preços das obrigações tendem a cair, algo especialmente importante para quem pretende vender antes da maturidade.

Uma obrigação pode ter baixo risco e, ainda assim, não oferecer uma remuneração suficientemente atrativa

O facto de Portugal ter passado para A+ não transforma automaticamente todas as OT numa boa oportunidade de investimento.

Uma obrigação pode apresentar um risco reduzido e, ainda assim, oferecer uma remuneração inferior à de outras alternativas disponíveis. Por isso, convém comparar o potencial retorno com o prazo e o risco assumidos.

Por outro lado, uma yield mais elevada pode tornar a obrigação mais interessante para quem aceita o prazo e está preparado para manter o título até à maturidade.

O que muda para quem já tem Obrigações do Tesouro?

Para quem já possui OT, a subida do rating pode ser positiva. Se a melhoria da perceção sobre Portugal levar os investidores a aceitar yields mais baixas, o preço das obrigações já emitidas pode subir.

A relação fundamental mantém-se:

Yields ↓ → preços das obrigações ↑
E, inversamente:
Yields ↑ → preços das obrigações ↓

Isto acontece porque uma obrigação existente tem normalmente um cupão fixo. Se novas obrigações forem emitidas com yields inferiores, as antigas podem tornar-se mais atrativas.

Existe, contudo, uma ressalva: a mais-valia só é efetiva se a obrigação for vendida acima do preço de compra, tendo em conta também os custos e a fiscalidade.

O que deve saber antes de investir em obrigações

Quem mantém uma obrigação até à maturidade está sobretudo exposto ao risco de crédito do emitente. Já quem pretende vender antes do vencimento está também sujeito às oscilações do preço de mercado.

Por isso, além da yield, importa considerar o prazo do investimento e a possibilidade de precisar do dinheiro antes da maturidade.

Porque melhorou a Fitch a avaliação de Portugal?

A subida do rating não resulta de um único fator. A Fitch destaca vários aspetos da economia portuguesa que ajudam a explicar a melhoria da classificação.

Dívida pública continua a cair

A redução da dívida é um dos principais motivos apontados pela Fitch. De acordo com o comunicado da agência, a dívida das administrações públicas deverá passar de 89,7% do PIB em 2025 para 87,0% em 2026, continuando a cair até 82,9% em 2028.

Portugal continuará, no entanto, mais endividado do que a média dos países com rating "A", cuja dívida deverá situar-se em torno de 59,5% do PIB.

A estrutura da dívida portuguesa ajuda a limitar o risco de refinanciamento e a transmissão imediata de taxas de juro mais elevadas para a despesa com juros. Grande parte da dívida está em obrigações com taxa fixa, o que significa que uma subida das taxas de juro não aumenta imediatamente os custos de financiamento do Estado.

A Fitch destaca ainda que a diferença entre as taxas das obrigações portuguesas e alemãs permanece abaixo de 40 pontos base, sinal de uma perceção de risco relativamente baixa.

Portugal mantém contas públicas fortes

Além da redução da dívida, a agência valoriza a evolução das contas públicas. A Fitch prevê que Portugal registe um excedente orçamental de 0,1% do PIB em 2026, depois de 0,7% em 2025.

Mesmo com esta redução, o resultado continua muito melhor do que o esperado para os países com rating "A", que deverão apresentar, em média, um défice de 3,0% do PIB.

A diminuição do excedente em 2026 está relacionada com despesas de reconstrução após tempestades, medidas fiscais e de habitação, investimento associado ao Plano de Recuperação e Resiliência e aumento das despesas com salários e pensões.

Crescimento económico continua a ajudar

O desempenho da economia é outro dos fatores que sustentam a decisão da Fitch.

A agência prevê um crescimento real do PIB de 2,1% em 2026, depois de 1,9% em 2025. Para 2027 e 2028, espera um crescimento próximo de 1,9% ao ano.

Os fundos europeus deverão continuar a apoiar o investimento. O consumo das famílias também beneficia de um mercado de trabalho relativamente forte, do aumento dos salários reais e de níveis elevados de poupança.

A Fitch espera que Portugal continue a crescer acima da média da zona euro. Ainda assim, a agência alerta para algumas limitações e riscos, incluindo a baixa produtividade, tensões comerciais e geopolíticas, custos energéticos e eventuais choques externos.

A posição externa também melhorou

Portugal apresenta igualmente uma posição externa mais favorável.

A Fitch prevê um excedente da balança corrente de 0,2% do PIB em 2026, abaixo dos 1,2% registados em 2025.

Esta redução resulta principalmente do aumento dos custos das importações de energia e da procura interna. O crescimento das receitas do turismo ajuda a compensar parte desse impacto.

A agência destaca ainda a melhoria da posição internacional de investimento e a redução da dívida externa líquida.

Vale a pena comprar Obrigações do Tesouro após a subida do rating?

Não existe uma resposta universal.

Para quem pretende manter a OT até à maturidade, as oscilações diárias do preço são menos relevantes. O essencial é analisar a yield, o prazo e se a remuneração compensa o risco assumido.

Já para quem pretende vender antes do vencimento, existe também risco de mercado. Uma descida das yields pode valorizar a obrigação; uma subida pode traduzir-se em perdas.

Obrigações do Tesouro ou Certificados de Aforro: o que comparar?

O investidor português pode comparar OT, Certificados de Aforro, Certificados do Tesouro e outros produtos de poupança. Os Certificados de Aforro da série F têm atualmente uma taxa base limitada a 2,5% brutos.

Algumas OT podem oferecer uma yield superior, mas o seu preço varia diariamente. Por isso, comparar apenas a taxa de juro não é suficiente.

Antes de comparar Obrigações do Tesouro com Certificados de Aforro, avalie:

  • A yield efetiva;
  • O prazo até à maturidade;
  • O risco de mercado;
  • A liquidez;
  • A possibilidade de venda antecipada;
  • A fiscalidade;
  • As alternativas disponíveis.

 

 

Então, vale a pena comprar OT portuguesas por causa do A+?

A subida do rating de Portugal para A+ reforça a confiança dos investidores na dívida pública portuguesa. No entanto, a decisão de investir em Obrigações do Tesouro continua a depender da yield oferecida, do prazo do investimento e da existência de alternativas mais adequadas ao perfil de cada investidor.

Mais do que a mudança de rating, o importante é avaliar se a remuneração compensa o risco e se o investimento se enquadra nos seus objetivos financeiros.

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