Investir na bolsa de Tóquio em 2026: oportunidade ou risco acrescido?
O Japão pretende aumentar o investimento público
O Japão pretende aumentar o investimento público
Agora, o Partido liberal-democrata governa sozinho e, ao ultrapassar os dois terços dos lugares no Parlamento, pode até rever a Constituição sem recear um bloqueio da oposição. O programa de Sanae Takaichi irá assentar em três eixos:
– reforço do poder militar, com mais despesa em defesa, uma nova lei contra a espionagem, que poderá restringir liberdades individuais e a criminalização da profanação da bandeira nacional;
– endurecimento da política migratória, limitando o número de residentes estrangeiros;
– política orçamental expansionista, com o intuito de incentivar o investimento em setores estratégicos e de apoiar o consumo das famílias.
A primeira-ministra defende que o Japão deve abandonar uma política orçamental demasiado restritiva e aumentar o investimento público. Para apoiar as famílias afetadas pela inflação, o imposto de 8% sobre produtos alimentares será suspenso durante dois anos.
Estão igualmente previstas reduções de impostos e uma descida da tributação sobre a energia.
No plano empresarial, o Governo pretende criar incentivos ao investimento em setores estratégicos como semicondutores, inteligência artificial, construção naval, biotecnologia e cibersegurança.
Este programa levou a bolsa de Tóquio para novos máximos pois, a curto prazo, o aumento da despesa pública tenderá a estimular a atividade económica.
Ao mesmo tempo, o agravamento das finanças públicas tende a enfraquecer o iene, o que inflaciona os lucros obtidos no estrangeiro pelas multinacionais japonesas.
Porém, há um “pequeno” problema para esta agenda: a dívida pública já atinge cerca de 230% do PIB, após os sucessivos planos de estímulo nas últimas décadas.
Dadas as limitações, o entusiasmo poderá revelar-se temporário. E, paradoxalmente, a ampla vitória eleitoral poderá moderar o ímpeto orçamental. Agora, a primeira-ministra deixou de depender de pequenos partidos que exigiam contrapartidas orçamentais. Acresce que, dentro do Partido liberal-democrata, há quem defenda que novas despesas sejam compensadas por cortes noutras áreas.
Caso a resistência interna não seja suficiente, poderão ser os mercados a impor disciplina. Um aumento adicional da dívida reforçará as dúvidas sobre a sua sustentabilidade a longo prazo. As taxas de juro, já nos níveis mais elevados desde os anos 1990, poderão continuar a subir, criando sérias dificuldades para o financiamento do Japão.
Além das tensões no mercado de dívida do Japão, o nacionalismo assumido por Sanae Takaichi provoca fricções com a China.
Pequim pediu aos seus cidadãos (geram 30% das receitas turísticas nipónicas) que evitem viajar para o Japão. As exportações chinesas de bens com potencial uso militar foram igualmente restringidas, podendo afetar vários segmentos da indústria japonesa. Estas tensões constituem um risco real para a atividade económica nos próximos meses.
Em paralelo e a longo prazo, uma política migratória mais restritiva agravará a escassez de mão-de-obra num país confrontado com o envelhecimento demográfico acelerado.
O dinamismo atual da bolsa de Tóquio assenta em fatores conjunturais. Num horizonte mais longo, as políticas anunciadas não resolvem os desafios estruturais do Japão, como o elevado endividamento e o envelhecimento da população.
Tendo em conta o fraco potencial de crescimento económico, não recomendamos atualmente fundos e ETF dedicados às ações japonesas.