Imagine que, desde 2017, aplicava o valor de cada novo iPhone da Apple em ações da empresa em vez de comprar o telemóvel.
Este exercício compara duas utilizações possíveis do mesmo dinheiro: comprar um iPhone ou investir o mesmo montante em ações da Apple.
Como foi feita a simulação?
O exercício começa com o iPhone 8, lançado em Portugal em setembro de 2017. O modelo base tinha um preço de lançamento de 829 euros. O iPhone X, que chegou às lojas portuguesas em novembro do mesmo ano, começava nos 1179 euros.
Para comparar estes valores com um eventual investimento em ações da Apple, é necessário ter em conta que as ações são negociadas em dólares. Assim, o montante que seria gasto em cada iPhone é convertido para dólares à taxa de referência do euro face ao dólar publicada pelo Banco Central Europeu na respetiva data.
No dia em que o iPhone 8 chegou às lojas, 22 de setembro de 2017, a ação da Apple fechou nos 37,97 dólares, considerando a cotação ajustada aos desdobramentos posteriores. Nessa data, um euro valia 1,1952 dólares. Os 829 euros destinados ao telefone equivaleriam, portanto, a 990,82 dólares, suficientes para comprar aproximadamente 26,09 ações da Apple.
No caso do iPhone X, lançado a 3 de novembro de 2017, a ação fechou nos 43,13 dólares e um euro valia 1,1607 dólares. Os 1179 euros permitiriam investir cerca de 1368,47 dólares e comprar aproximadamente 31,73 ações.
O mesmo método foi aplicado aos restantes modelos incluídos na análise: em cada lançamento, o preço do iPhone em Portugal é convertido para dólares à taxa de referência do BCE e esse montante é dividido pela cotação de fecho da Apple na respetiva data.
A tabela apresenta, para cada modelo, o preço de lançamento em Portugal, o montante correspondente ao investimento, a taxa de câmbio utilizada, a cotação da Apple na data de lançamento e o número de ações que teria sido possível comprar.
| Modelo | Datas de lançamento | Preço de lançamento em Portugal | Nº ações compradas | Cotadas a 333 $ (11/09) | USD/EUR 11/09 |
|---|---|---|---|---|---|
| iPhone 8 | 22/09/2017 | 829,00 € | 26,09 | $8 689,57 | 0,86222 |
| iPhone X | 03/11/2017 | 1 179,00 € | 31,73 | $10 565,74 | 0,86222 |
| iPhone SE | 24/04/2020 | 499,00 € | 7,63 | $2 541,60 | 0,86222 |
| iPhone 11 | 20/09/2019 | 829,00 € | 16,78 | $5 587,58 | 0,86222 |
| STOCK SPLIT 4:1 | 31/08/2020 | 829,00 € | 328,92 | $5 587,58 | 0,86222 |
| iPhone 12 | 23/10/2020 | 929,00 € | 9,58 | $3 189,03 | 0,86222 |
| iPhone 13 | 24/09/2021 | 929,00 € | 7,41 | $2 466,52 | 0,86222 |
| iPhone 14 | 16/09/2022 | 1 039,00 € | 6,90 | $2 299,31 | 0,86222 |
| iPhone 15 | 22/09/2023 | 989,00 € | 6,03 | $2 007,04 | 0,86222 |
| iPhone 16 | 20/09/2024 | 989,00 € | 4,84 | $1 610,89 | 0,86222 |
| iPhone 17 | 19/09/2025 | 989,00 € | 4,73 | $1 575,45 | 0,86222 |
| iPhone 18 DUO | 12/09/2026 | 2 399,00 € | 8,43 | $2 807,65 | 0,86222 |
| Total | 11 599,00 € | 376,84 | $125 486,26 | 108 196,76 € | |
| Retorno Bruto | 832,81% |
Assim, por exemplo, se um investidor tivesse acumulado 82,24 ações antes do desdobramento, passaria a deter 328,96 ações depois do split. O desdobramento não altera, por si só, o valor económico da posição: reduz o preço unitário da ação e aumenta proporcionalmente o número de ações detidas.
Quanto teria rendido o investimento?
Considerando todas as compras previstas no exercício, entre o iPhone 8 e o modelo mais recente incluído na simulação, o investidor teria destinado 11 599 euros à compra de ações da Apple. Essas aplicações sucessivas teriam permitido acumular 376,84 ações após o stock split.
Considerando uma cotação de 333 dólares por ação, a carteira valeria cerca de 125 486 dólares. Convertido à taxa de câmbio de 11 de setembro de 2026, de 1 dólar = 0,86222 euros, o valor corresponderia a aproximadamente 108 197 euros.
Face aos 11 599 euros inicialmente investidos, a valorização seria de cerca de 96 598 euros, equivalente a um ganho acumulado de aproximadamente 832,81%. O capital teria, assim, multiplicado o seu valor por cerca de 9,33.
Em termos anualizados, uma valorização acumulada de 832,81% ao longo de nove anos corresponde a uma taxa de crescimento anual composta de aproximadamente 28,2%. Este cálculo não significa que a Apple tenha apresentado esse retorno todos os anos: trata-se apenas da taxa anual constante que produziria o mesmo resultado final.
Mais do que o valor final alcançado, importa perceber como o fator tempo influenciou cada investimento. Os primeiros investimentos tiveram muito mais tempo para beneficiar da valorização da Apple. Nos modelos mais recentes, o efeito é naturalmente menor, porque o dinheiro esteve investido durante menos tempo.
Isto não significa que os primeiros investimentos tenham ocorrido no melhor momento possível. Significa apenas que tiveram mais anos para beneficiar da evolução da cotação da empresa.
Há ainda um aspeto relevante: a estratégia não exige que o investidor tente escolher o melhor momento para comprar ações. A regra é mecânica: sempre que é lançado um novo iPhone, investe-se o montante que seria gasto no telefone. Na prática, trata-se de uma forma de investimento periódico, embora concentrado numa única empresa.
É precisamente aqui que aparece um dos princípios fundamentais do investimento a longo prazo: o tempo disponível para o capital crescer pode ser tão importante como o montante inicialmente investido. Saiba mais sobre o custo de não investir.
Uma quantia relativamente pequena investida muitos anos antes pode acabar por representar uma parcela significativa de uma carteira.
O que não está incluído nesta simulação?
Este exercício não significa que comprar ações da Apple seja necessariamente melhor do que comprar um iPhone. Um telemóvel é um produto de consumo. Dá acesso a funcionalidades, aplicações, comunicação e entretenimento. Uma ação é um ativo financeiro cujo valor pode subir ou descer ao longo do tempo.
Além disso, esta simulação não considera impostos, comissões de negociação, custos de conversão cambial ou dividendos recebidos.
A exclusão dos dividendos é particularmente importante. A Apple distribui dividendos aos acionistas, pelo que o resultado apresentado representa apenas a valorização das ações e não o retorno total que um investidor teria obtido caso tivesse recebido e eventualmente reinvestido esses dividendos.
Também não são considerados eventuais custos associados à conversão de euros para dólares. A utilização da taxa de referência do BCE permite uniformizar o exercício, mas não representa necessariamente a taxa efetivamente obtida por um investidor numa corretora. A conversão cambial é igualmente relevante porque um investidor português que compre ações da Apple está exposto não apenas à evolução da cotação da empresa, mas também à evolução do dólar face ao euro.
Neste caso, os 125 486,26 dólares correspondentes ao valor da carteira são convertidos à taxa de 11 de setembro de 2026, de 1 dólar = 0,86222 euros, resultando em cerca de 108 197 euros.
A simulação deve, por isso, ser interpretada como um exercício histórico ilustrativo e não como uma recomendação de investimento. Os retornos passados não garantem retornos futuros.
O que nos ensina este exercício?
A pergunta mais interessante não é se devemos deixar de comprar iPhones para comprar ações da Apple. O exercício mostra outra coisa: o que poderia ter acontecido se, em cada lançamento, o dinheiro destinado à compra de um iPhone tivesse sido aplicado em ações da empresa em vez de ser gasto no produto.
Entre o primeiro investimento, associado ao iPhone 8 em 2017, e o último considerado na simulação, os montantes aplicados em diferentes momentos teriam acumulado uma posição de 376,84 ações após o stock split. Com uma cotação de referência de 333 dólares, essa carteira valeria aproximadamente 125 486 dólares, ou cerca de 108 197 euros à taxa de câmbio considerada.
O resultado não significa que fosse possível prever, em 2017, a valorização que a Apple viria a alcançar. Significa apenas que, olhando para trás, a diferença entre consumir e investir o mesmo dinheiro foi muito significativa.
Também mostra por que razão o momento de cada investimento importa. O montante aplicado no iPhone 8 teve quase nove anos para crescer, enquanto os investimentos associados aos modelos mais recentes tiveram muito menos tempo. É essa a principal lição do exercício: o consumo termina quando o produto é comprado; um investimento pode continuar a trabalhar depois da compra.
E lembre-se, mesmo se comprasse todos estes modelos do iPhone, e cada vez que o fizesse, despendesse de 50% desse custo, também para ações da Apple, já teria ultrapassado um retorno de 400%.
O exercício mostra que consumo e investimento não precisam necessariamente de ser escolhas mutuamente exclusivas. Cada consumidor deverá avaliar o equilíbrio mais adequado à sua situação financeira, objetivos e tolerância ao risco