A SpaceX prepara-se para se tornar muito mais do que uma simples entrada em bolsa. Trata-se de uma aposta num grupo que combina foguetões, telecomunicações por satélite e ambições na IA, com Elon Musk no centro de tudo.
A IPO é espetacular, mas também severamente exigente: o crescimento é real, a rentabilidade é desequilibrada e a valorização a 135 dólares por ação não deixa margem para erro.
IPO fora do comum
A introdução em bolsa da SpaceX reúne todas as características do evento bolsista do ano: dimensão inédita, narrativa grandiosa, promessa tecnológica e a presença de Musk como maestro da operação.
Segundo o preço divulgado do IPO, a valorização será 1,75 biliões de dólares, um nível que coloca a SpaceX no grupo restrito das maiores capitalizações bolsistas mundiais, ao lado da Alphabet, Nvidia, Microsoft, Apple e Amazon.
A SpaceX pretende captar entre 75 e 80 mil milhões de dólares, o que colocaria a operação muito acima do anterior recorde histórico da Saudi Aramco, que captou 29,4 mil milhões de dólares em 2019.
A narrativa de Musk atrai inevitavelmente capitais. Quando uma empresa se apresenta como uma ponte entre a Internet global, a IA e a conquista espacial, não vende apenas ações, vende uma visão.
O problema é que, ao nível esperado de valorização da SpaceX, o mercado já não compra uma história de crescimento, antecipa uma perfeição operacional duradoura.
Porque desperta tanto interesse?
A SpaceX fascina porque combina três temas que os investidores apreciam: a disrupção industrial, conectividade global e a IA.
Tudo isto é impulsionado por Musk, cuja capacidade para transformar uma empresa num fenómeno bolsista é, por si só, um trunfo, embora acompanhado por uma volatilidade extrema e por uma governação muito pouco convencional.
A promessa última continua a ser a conquista de Marte, mas a narrativa não assenta apenas numa visão distante ou filosófica, apoiando-se em atividades comerciais já rentáveis atualmente, sobretudo na Starlink.
Em bolsa, esta combinação é poderosa, porque permite apresentar simultaneamente crescimento atual, uma opção tecnológica futura e um mercado potencial gigantesco.
Três atividades, três leituras
A SpaceX não deve, por isso, ser analisada como uma empresa de atividade única. O seu perfil assenta em três pilares: o espaço, os satélites de órbita baixa e, agora, a infraestrutura de IA orbital.
- Foguetões Falcon e Starship: fundamental para a estratégia industrial, mas continua a ser o mais incerto do ponto de vista económico, uma vez que exige investimentos avultados e um aumento de capacidade complexo.
- Satélites da rede Starlink: constitui o núcleo rentável da SpaceX. No primeiro trimestre de 2026, esta atividade gerou 3,3 mil milhões de dólares de receitas e 1,2 mil milhões de dólares de resultado operacional, uma margem de 36%. Graças aos seus satélites, a Starlink promete Internet rápida em qualquer parte do mundo.
- IA: é o pilar que suscita mais preocupações, porque acrescenta um enorme centro de custos à SpaceX que não precisava da IA para vender a sua história.
Aposta na Starship
Depois do foguetão Falcon, que serviu de base industrial e permitiu à SpaceX construir a sua credibilidade técnica, o Starship está destinado a tornar-se o novo motor industrial e financeiro.
O objetivo é reduzir drasticamente o custo de acesso à órbita através da reutilização e de uma elevada cadência de lançamentos, tornando muito menos dispendiosas as missões pesadas e as colocações massivas de satélites em órbita.
No papel, a lógica é elegante. Quanto menor for o custo do lançamento, maior será a capacidade da SpaceX para internalizar as suas próprias missões orbitais, melhorando assim a economia global do grupo.
Na prática, o Starship continua sobretudo a ser um programa complexo, dispendioso e exposto a atrasos técnicos, falhas nos testes e riscos regulamentares. No primeiro trimestre, esta atividade gerou apenas 619 milhões de dólares de vendas e 660 milhões de dólares de perdas operacionais. Por outras palavras, trata-se de uma opção estratégica de enorme relevância, mas ainda não de uma atividade rentável.
Starlink, máquina de gerar liquidez
É a Starlink que confere verdadeira credibilidade à IPO. Com 10,3 milhões de subscritores distribuídos por 164 países e mais de 9 600 satélites em operação no final de março, a atividade de satélites tornou-se a principal fonte de lucros da SpaceX.
O modelo é atrativo: o custo marginal de cada novo subscritor é muito reduzido, enquanto a cobertura global e os casos de utilização, habitações rurais, setor marítimo, aviação, defesa e mobilidade, abrem um mercado amplo e recorrente.
É precisamente isso que distingue a Starlink dos foguetões ou da IA especulativa: as receitas são mais previsíveis e regulares no curto prazo.
IA, novo sorvedouro de capital
Desde a fusão, no início do ano, com a xAI, a SpaceX deixou de ser apenas uma empresa espacial e de satélites. Passou a ambicionar tornar-se um fornecedor de infraestruturas de IA a partir da órbita baixa, com projetos de centros de dados espaciais e sinergias assumidas com a xAI, que comercializa o chatbot Grok, e com a rede social X.
É neste ponto que a natureza da IPO muda e a narrativa se torna mais ambígua, porque a IA aumenta significativamente a dimensão do mercado potencial da SpaceX, mas deteriora acentuadamente o perfil de risco financeiro.
A divisão de IA registou perdas operacionais de 2,5 mil milhões de dólares apenas no primeiro trimestre de 2026, para receitas comerciais de 818 milhões de dólares, e as perdas associadas a esta atividade em 2025 ultrapassaram 6,3 mil milhões de dólares.
A mensagem é clara: a Starlink financia o futuro da SpaceX, mas esse futuro já consome muito capital.
Contas sob pressão
Os números divulgados antes da operação apresentam uma imagem contrastante. No primeiro trimestre de 2026, a SpaceX registou 4,7 mil milhões de dólares de volume de negócios, mas também uma perda operacional de 1,9 mil milhões de dólares e um prejuízo líquido de 4,3 mil milhões de dólares.
No exercício de 2025, o grupo gerou 18,7 mil milhões de dólares de receitas, mas terminou o ano com uma perda operacional de 2,6 mil milhões de dólares e perdas acumuladas de 37 mil milhões de dólares.
O problema central não é o crescimento, que existe, mas a intensidade de capital necessária para continuar a financiar o Starship, expandir a Starlink e absorver os custos da IA. Para uma empresa não cotada, esta pressão pode ser tolerada. Para uma empresa cotada, tornar-se-á imediatamente visível em cada trimestre.
Porque avançar para a bolsa?
A IPO responde a várias necessidades muito concretas. Em primeiro lugar, deverá financiar as infraestruturas de IA e o aumento da capacidade computacional, numa lógica de investimento que a SpaceX já não quer ou não pode suportar apenas através de capitais privados e da tesouraria interna.
Em seguida, deverá apoiar o Starship, que continua a ser um projeto industrial de grande dimensão e elevado custo. Por fim, a operação poderá alargar a base de investidores, atribuir uma valorização de mercado imediata à Starlink e fornecer recursos financeiros para as etapas seguintes.
Mas uma introdução em bolsa não é apenas uma solução de financiamento, é também uma entrada sob escrutínio permanente, com uma exigência de transparência trimestral que pode desencadear forte volatilidade.
Valorização excessiva
O ponto mais delicado continua a ser a valorização. Em 1,75 biliões de dólares, a SpaceX é avaliada em 73 vezes as receitas estimadas para 2026 (24 mil milhões de dólares) um múltiplo que ultrapassa os já elevados padrões de muitas mega-cap tecnológicas.
Se a SpaceX fosse valorizada com um múltiplo de vendas próximo do da Nvidia, situado em torno de 20 a 25 vezes as vendas para uma mega-cap de IA, a sua capitalização bolsista seria mais próxima de 500 a 600 mil milhões de dólares.
Mesmo admitindo o argumento de um crescimento excecional, de uma Starlink dominante e de um prémio de escassez, este nível de cotação da IPO pressupõe uma execução perfeita durante muito tempo.
O mercado gosta de pagar caro por narrativas que combinam IA, espaço e Musk, mas também penaliza severamente as deceções quando uma empresa não transforma rapidamente as suas promessas em lucros. A questão já não é “a empresa é fascinante?”, mas sim “quanto se deve pagar por este nível de fascínio?”.
Riscos a acompanhar
O primeiro risco é o da governação. Musk controla a empresa com um poder de voto muito significativo. São 85% dos direitos de voto apesar de deter menos de metade do capital, o que reduz mecanicamente a possibilidade de substituir o CEO caso seja necessário.
O segundo risco é operacional: o foguetão Starship tem de ser bem-sucedido para justificar as etapas seguintes do plano e cada atraso técnico adia igualmente a rentabilidade futura.
O terceiro risco é financeiro. A combinação entre uma valorização muito elevada, as perdas associadas à IA e investimentos muito avultados deixa pouca margem para erro. Se a SpaceX dececionar, mesmo que ligeiramente, a cotação poderá sofrer uma queda significativa.
Conselho
A SpaceX possui qualidade industrial real, uma rentabilidade já visível através da Starlink e um potencial tecnológico fora do comum, mas a valorização parece-nos demasiado excessiva face aos riscos do setor espacial, às perdas associadas à IA e à concentração de poder em torno de Musk.
Em suma, a narrativa é excelente, mas o preço do IPO parece já incorporar em excesso uma grande parte desse potencial. Para um investidor que não quer assumir demasiado risco, trata-se do tipo de IPO que não deve perseguir. Mantenha-se afastado do título.
Contudo, não se deve subestimar o provável sucesso bolsista da operação. A combinação entre a aura de Musk, atrativo especulativo da SpaceX e a rápida inclusão da ação no Nasdaq 100, poderá desencadear um forte fluxo de compras automáticas por parte de muitos ETF.
Neste contexto, a ação poderá até valorizar-se nas primeiras semanas, mas à custa de uma volatilidade extrema. Apenas nesta perspetiva, a ação poderá ser adequada para operações de trading por parte de investidores especuladores experientes e tolerantes ao risco.
É provável que apenas consiga comprar esta ação depois da entrada em bolsa e a um nível ainda mais elevado do que o preço do IPO. Limite o montante destinado a esta especulação. Depois de cotada, a SpaceX irá passar a fazer parte da nossa seleção de ações.