Os resultados mais recentes de Bell Food, Berkshire Hathaway, bpost e Coca-Cola revelam dinâmicas muito distintas entre setores defensivos, logística e consumo. Avaliamos os números, as perspetivas e o impacto na recomendação de investimento para cada ação.
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BELL FOOD
Vender
A Bell Food registou, no primeiro semestre de 2026, receitas de 2,41 mil milhões de francos suíços, o que representa um aumento de 0,4%, enquanto o resultado operacional aumentou 15% para 76 milhões de francos suíços. O lucro líquido ascendeu a 55 milhões de francos, um aumento de 21% face ao período homólogo.
Estes números demonstram uma melhoria operacional, mas devem ser enquadrados. O crescimento permanece, de facto, modesto tendo em conta os investimentos realizados pela empresa suíça.
A Bell Food tem de lidar com uma concorrência intensa nos segmentos da carne, refeições prontas a consumir e carne de aves, enquanto os consumidores continuam sensíveis aos preços. A inflação das matérias-primas, da energia, mão-de-obra e logística continua a pressionar as margens. Mesmo quando os aumentos de preços são repercutidos, podem travar os volumes e favorecer produtos mais baratos.
A estratégia de transformação industrial acrescenta um grau de complexidade. A modernização das unidades de produção, as transferências de produção e o aumento da capacidade de novas instalações exigem muito capital, sem garantirem uma melhoria rápida e duradoura da rentabilidade.
Para 2026, a Bell Food prevê um resultado operacional entre 180 e 195 milhões de francos suíços. Esta perspetiva é encorajadora, mas ainda não representa uma verdadeira alteração de perfil. O dividendo de 7 francos mantém-se inalterado há vários anos, enquanto os investimentos absorvem uma parte importante da liquidez.
Apesar da recuperação da cotação após a divulgação dos resultados semestrais, o desempenho da ação nos últimos anos continua a ser dececionante.
A fraca performance explica-se, nomeadamente, por um crescimento demasiado lento dos lucros, um dividendo estagnado e uma rentabilidade modesta. Recomendamos a venda da Bell Food e deixaremos de acompanhar a ação.
BERKSHIRE HATHAWAY
Manter
Durante mais de três anos, a Berkshire Hathaway acumulou liquidez sem investir de forma significativa, deixando os mercados a questionar a estratégia de Greg Abel, o novo CEO da empresa desde janeiro.
Agora, a Berkshire Hathaway passou da espera à ação e o facto mais marcante dos resultados do segundo trimestre é o fim do longo período de acumulação de liquidez. Após 14 trimestres consecutivos de vendas líquidas de ações, a Berkshire Hathaway voltou a ser compradora líquida, num montante próximo de 20 mil milhões de dólares, reduzindo a tesouraria de cerca de 397 para 365 mil milhões.
Trata-se de um sinal forte enviado pela nova administração: a empresa está pronta para colocar a sua “pólvora seca” novamente a trabalhar, mas com grande disciplina.
Entre os movimentos mais observados destaca-se o reforço expressivo da participação na Alphabet, que é agora a quinta maior posição cotada da Berkshire Hathaway, com cerca de 31 mil milhões de dólares investidos, representando aproximadamente 10% da carteira de ações.
Esta posição, iniciada sob a liderança de Warren Buffett, mas ampliada por Greg Abel, ilustra a intenção da Berkshire Hathaway de aumentar a exposição aos gigantes tecnológicos capazes de gerar fluxos de caixa recorrentes e substanciais.
A Berkshire Hathaway também acelerou as compras de ações próprias, no valor de 4,5 mil milhões de dólares durante o trimestre, aproveitando a solidez do balanço para reduzir o número de ações em circulação e apoiar o lucro por ação.
A nível operacional, o lucro aumentou 16%, para 13 mil milhões de dólares, impulsionado pelas atividades industriais (+24%), energia (+27%) e pela ferrovia BNSF (+6%). O único ponto fraco foi o negócio de seguros, penalizado por uma sinistralidade mais elevada na GEICO.
A Berkshire Hathaway transmite uma mensagem tranquilizadora ao começar a mobilizar a enorme tesouraria disponível. E fá-lo com prudência, privilegiando ativos de qualidade e compras de ações próprias disciplinadas.
Ainda assim, a ação negoceia com um pequeno prémio face à nossa estimativa de valor intrínseco, o que limita o potencial de valorização no curto prazo. A robustez do modelo de negócio e a diversificação da Berkshire Hathaway fazem dela uma boa ação para integrar uma carteira de longo prazo, mas aos níveis atuais de valorização não vemos uma oportunidade de compra. Nestas condições, não alteramos o conselho: manter.
BPOST
Manter
Após resultados trimestrais dececionantes, a bpost reduziu as perspetivas para o conjunto do ano.
No segundo trimestre, as receitas da bpost diminuíram 4,2%, para 1,05 mil milhões de euros, e o lucro operacional caiu quase para metade (29,4 milhões de euros, face a 58,3 milhões de euros no mesmo período do ano anterior). Estima-se que o impacto da greve de abril na bpost seja de 25 milhões de euros, um valor significativamente superior aos 15 milhões de euros referidos aquando da publicação dos resultados do primeiro trimestre.
Para o conjunto do ano, a bpost prevê agora um lucro operacional de “cerca de 140 milhões de euros”, face ao intervalo anterior de “165 a 195 milhões de euros2. Esta revisão resulta de um impacto da greve superior ao previsto, mas também de resultados dececionantes na Paxon (divisão que presta serviços logísticos, nomeadamente a operadores de comércio eletrónico). A Paxon continua lucrativa, mas o crescimento não se concretiza ao ritmo esperado.
Tendo em conta a deterioração da trajetória operacional e a lentidão da recuperação das margens de lucro, reduzimos as nossas previsões de lucros para 2026 e 2027.
Ainda assim a bpost mantém pontos fortes como diversificação das atividades e perspetivas de transformação a médio prazo. Não alteramos o conselho para a ação.
COCA-COLA
Comprar
A Coca-Cola reviu em alta as previsões para 2026: +5% de receitas (antes 4% a 5%), e sobretudo um crescimento do lucro por ação até 8%, mais 1% do que antes.
O grupo confirma a capacidade de transformar a boa dinâmica comercial numa melhoria tangível dos resultados. No segundo trimestre, a Coca-Cola apresentou números sólidos: aumento orgânico de 6% das receitas e lucro por ação de 0,97 dólares, acima das expectativas.
A administração destacou três motores:
- o efeito Campeonato do Mundo, que continua a favorecer os volumes e a visibilidade da marca;
- a procura sustentada por bebidas sem açúcar, que ganham quota junto dos consumidores;
- e o bom desempenho da Fairlife, marca de leite premium nos EUA.
Esta combinação ilustra um modelo capaz de crescer sem sacrificar a rentabilidade. O trimestre também evidenciou uma melhoria da qualidade das receitas. Os aumentos de preços, impulsionados por produtos de maior valor acrescentado, contribuíram para a progressão.
Elevamos as nossas previsões de lucro por ação: 3,20 dólares em 2026 (antes 2,15) e 3,40 dólares em 2027 (antes 3,30).
Numa conjuntura de consumo heterogénea, a Coca-Cola preserva um crescimento rentável, apoiando-se em marcas fortes, execução comercial disciplinada e procura mais defensiva.