Os medicamentos GLP-1 estão a impulsionar uma transformação estrutural nos hábitos alimentares e a criar oportunidades de investimento. Entre farmacêuticas, empresas de nutrição e grupos de consumo, alguns negócios podem beneficiar mais do que outros desta tendência.
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Os medicamentos contra a obesidade abrem um mercado considerável e começam a alterar a forma como nos alimentamos. Quais as oportunidades e riscos para os investidores?
Como os medicamentos GLP-1 estão a mudar o consumo
Os GLP-1 são tratamentos utilizados contra a diabetes tipo 2 e, em alguns casos, contra a obesidade. Imitam uma hormona natural que transmite a sensação de saciedade, reduzindo assim o apetite. Os utilizadores comem menos e fazem escolhas alimentares diferentes.
Os produtos ricos em proteínas ganham relevância porque ajudam a preservar a massa muscular durante a perda de peso. Em contrapartida, confeitaria, bolachas, snacks salgados e refrigerantes poderão ser menos consumidos.
Trata-se de uma tendência estrutural, mas que, por si só, não explica os resultados de cada empresa. O mercado também irá evoluir (novos medicamentos, concorrência mais intensa) e os riscos são reais: redução de preços, resultados dos ensaios clínicos e ações cuja cotação já subiu.
Farmacêuticas lideram o mercado, mas exigem prudência
Eli Lilly (Mounjaro, Zepbound) e Novo Nordisk (Ozempic, Wegovy) são os primeiros beneficiários da tendência, mas a respetiva cotação já incorpora amplamente o crescimento esperado.
A Eli Lilly lidera esta corrida, mas uma excelente empresa nem sempre é uma ação para comprar a qualquer preço. Já a Novo Nordisk tem de demonstrar que consegue recuperar terreno face à Eli Lilly. Contudo, após a forte queda da cotação, uma parte significativa dos riscos já foi incorporada.
Nutrição proteica surge como a oportunidade mais atrativa
Ao comerem menos, os utilizadores do GLP-1 prestam mais atenção à alimentação. Fabricantes de alimentos, bebidas e ingredientes podem beneficiar desta tendência, mas vender produtos proteicos não basta. É necessário que as vendas cresçam, que a empresa mantenha a rentabilidade e que a ação não esteja demasiado cara.
A Danone já está presente nos iogurtes proteicos, saúde digestiva e nutrição médica. A aquisição da Huel, em setembro de 2026, reforça a oferta de refeições e bebidas nutricionais.
A Nestlé lançou a Vital Pursuit nos EUA, uma gama de refeições congeladas destinada a pessoas que controlam o peso. Contudo, estas duas empresas são tão diversificadas que os GLP-1 não transformarão os resultados.
Glanbia: uma aposta para perfis de investimento mais agressivos
A empresa irlandesa Glanbia detém marcas de suplementos proteicos (Optimum Nutrition, Isopure) e vende igualmente ingredientes a outras empresas. Beneficia, assim, tanto da procura dos consumidores como da procura dos fabricantes. A Optimum Nutrition, conhecida entre os praticantes de desporto, alcança atualmente um público mais vasto.
Os resultados acompanham essa evolução: no primeiro semestre de 2026, registou um aumento de 7% das receitas e um aumento de 14,1% do lucro operacional. A Glanbia prevê agora um aumento de 17% a 20% do lucro por ação este ano (excluindo efeitos cambiais). O principal risco é a subida do preço do soro de leite, ingrediente base de muitos produtos proteicos. Caso não consiga transferir esse aumento para os preços de venda, as margens diminuirão.
Conselho: interessante para um investidor agressivo com um horizonte de vários anos.
BellRing Brands e Simply Good Foods enfrentam desafios
BellRing Brands (não comprar). As marcas Premier Protein e Dymatize (bebidas, pós e barras proteicas) fazem da empresa um interveniente puro. Os utilizadores de GLP-1 representam um mercado adicional, mas não a base de clientes. As vendas aumentaram ainda 4,2% no terceiro trimestre, mas as margens recuaram acentuadamente e o endividamento torna a BellRing Brands vulnerável. O risco é demasiado elevado.
Simply Good Foods (não comprar). As marcas Quest e OWYN (snacks e bebidas proteicas) continuam a crescer, mas não o suficiente para compensar o colapso da Atkins. No terceiro trimestre do exercício de 2026, as vendas da Atkins caíram 24,6%. A Simply Good Foods prevê uma redução das vendas e dos lucros ao longo do ano e terá de demonstrar que as marcas em crescimento conseguem relançar o conjunto da atividade.
Empresas de consumo sob pressão com a nova realidade alimentar
Os GLP-1 não condenam nem a McDonald's, nem a PepsiCo ou a Mondelez. Contudo, acrescentam uma dificuldade adicional para empresas já confrontadas com consumidores mais atentos aos gastos dos orçamentos familiares. O risco não é um desaparecimento da procura, mas antes uma erosão gradual das quantidades vendidas.
McDonald's (não comprar). No segundo trimestre de 2026, as vendas nos Estados Unidos, em base comparável, cresceram apenas 0,8%, contra 3,9% no trimestre anterior, enquanto a frequência dos restaurantes diminuiu. A principal causa é a quebra do poder de compra e uma execução insuficiente das ofertas de baixo preço, e não os GLP-1. Ainda assim, estes medicamentos poderão agravar a situação se alguns clientes passarem a visitar menos frequentemente os restaurantes ou a encomendar quantidades menores. A McDonald's está a testar porções mais adequadas, mas a prioridade continua a ser recuperar clientes.
PepsiCo (não comprar) e Mondelez (não comprar). Os snacks destas empresas são frequentemente compras por impulso, precisamente o tipo de consumo que os utilizadores de GLP-1 tendem a reduzir. Os preços elevados e a mudança dos hábitos alimentares também penalizam os volumes vendidos. A queda em Bolsa não é suficiente para transformar estas ações numa oportunidade: é necessário, antes de mais, observar uma recuperação dos volumes.
Coca-Cola adapta-se às novas tendências de consumo
Os GLP-1 poderão reduzir o consumo de refrigerantes açucarados. Contudo, a Coca-Cola dispõe de várias formas de se adaptar: bebidas sem açúcar, formatos mais pequenos e bebidas proteicas Fairlife, cuja produção está a aumentar.
Estes fatores poderão compensar parte da pressão sobre os refrigerantes tradicionais. A Coca-Cola beneficia ainda de marcas globais que permitem aumentar preços sem perder demasiados clientes. Comprar.
Como investir no tema da obesidade sem cair em excessos
Um tema de investimento sólido não transforma todas as ações relacionadas em boas oportunidades. Antes de comprar, coloque três questões:
- A empresa beneficia realmente da tendência, ou apenas de forma marginal?
- As vendas e a rentabilidade já estão a evoluir positivamente?
- E a cotação já reflete todo o potencial?
Não concentre todo o investimento num único tema, por mais promissor que pareça: os GLP-1 são apenas um fator entre muitos outros.