Para Lurdes Balancho, reparar um aparelho avariado é sempre a primeira opção, diz, enquanto observa, atenta, o eletricista que procura resolver o problema do seu alisador de cabelo. Em casa, vale-lhe o engenho do marido que, “apesar de não ser eletricista, ajeita-se” a devolver vida a produtos que, de outra forma, teriam de ser descartados e substituídos por novos. Na sociedade de consumo atual, porém, recuperar eletrodomésticos ainda é a exceção.
Lurdes foi uma das participantes da open repair, aberta à comunidade e desenvolvida no Festival da Reparação celebrado na Biblioteca Municipal de Cuba, Alentejo, a 25 de novembro, no âmbito da Semana Europeia da Prevenção de Resíduos.
O intuito da iniciativa, promovida pela DECO PROteste em parceria com a Associação de Municípios do Alentejo Central (AMCAL), ao abrigo do projeto europeu REPper – Repair Perspective, é, precisamente, universalizar o hábito da família de Lurdes: preferir recuperar eletrodomésticos, avariados depois de terminar o prazo legal de garantia, em vez de comprar novos.
A educação é, em grande medida, parte da resposta, defendeu o responsável da Associação Buinho, Carlos Alcobia, no debate em que, durante a manhã, os vários agentes da economia circular procuraram responder aos “Desafios da Reparação”. Educar e envolver a comunidade, explicou o responsável da Buinho, tem sido o ponto de partida desta associação local, através da promoção de “repair cafés”, nos quais técnicos especializados procuram capacitar os cidadãos na recuperação dos seus próprios aparelhos eletrónicos, como faz o marido de Lurdes. Uma forma de ajudar o planeta, reduzindo os resíduos, e também, os custos implicados na compra de novos produtos.
É fundamental capacitar profissionais
“Quem vai fazer a reparação destes aparelhos?”, questionou o presidente da Câmara de Cuba, João Duarte Palma, na abertura do debate.
Numa sociedade com um “modelo consumista”, que precisa de ser questionado, mudar mentalidades e aumentar o número de profissionais especializados na recuperação de aparelhos é um dos desafios estruturais da economia circular. Por isso, alertou João Duarte Palma, “enquanto não questionarmos este modelo de sociedade, nada mudará”.
“O melhor resíduo é aquele que não existe”, sublinhou também a coordenadora da licenciatura em Engenharia do Ambiente, do Politécnico de Beja, Ana Cristina Pardal. Para conseguir tal redução, considera a especialista, é essencial dignificar carreiras que começaram a desaparecer com a globalização, dando como exemplos os eletricistas e os canalizadores. Por outro lado, “a educação ambiental e a sustentabilidade devem ser transversais a todas as áreas e níveis de ensino”, defendeu.
Na opinião de Ana Cristina Espanhol, da Agência Portuguesa do Ambiente, a transição para uma economia circular e mais sustentável começa, precisamente, por “substituir a gestão de resíduos pela gestão de recursos, a começar pela reparação”. A legislação europeia e nacional vai precisamente nesse sentido, como é o exemplo da Diretiva do Direito à Reparação.
Um objetivo partilhado pelo Electrão: “Prolongar a vida útil dos equipamentos leva a uma redução dos resíduos”, o que implica desde logo economia de recursos energéticos relacionados com a produção, fabrico e transporte, sustentou Susana Ferreira, desta entidade gestora de resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos. Promover a reparação e profissionalizar este setor, acrescentou, é também fundamental e vantajoso para a economia local, além de transmitir confiança aos cidadãos na qualidade dos produtos reparados e recondicionados.
Consumidores ainda desconfiam dos produtos recondicionados
Parte da solução está em “consumir menos”, como já faz Lurdes, como salientou a representante da CCDR Alentejo. Maria Joana Sabino sublinhou a importância de deixar de tratar estes equipamentos como resíduos como parte do processo de mudança de mentalidade e vulgarização da reparação. Porém, completou, também é necessário haver rentabilidade e poupança, para produtores e para os cidadãos.
Um outro problema identificado é muitas vezes a ausência de peças para fazer as reparações. Neste sentido, é importante aliar a reparação com a inovação, que permite por exemplo a impressão de peças especificas para determinados equipamentos, como salientou António Martins, representante do PACT – Parque do Alentejo de Ciência e Tecnologia.
Segundo um estudo recente promovido pelas entidades gestoras de resíduos elétricos e eletrónicos, os consumidores ainda revelam desconfiança nos produtos recondicionados. Silvia de Oliveira, diretora comercial da ERP Portugal, salientou que é fundamental aumentar a confiança dos consumidores através da valorização do sector de reparação.
Contribuir para esta mudança de comportamentos, valorizando a durabilidade dos produtos, é o principal objetivo deste festival, que continua com ações de open repair nos cinco concelhos da AMCAL, com participação gratuita, mas sujeita a inscrição prévia. Depois de Cuba, Alvito, Viana do Alentejo, a iniciativa chega a Portel e Vidigueira no dia 29 de novembro.
A DECO PROteste lançou a plataforma digital Reparar, concebida para melhorar os conhecimentos dos consumidores sobre a reparação de eletrodomésticos e equipamentos eletrónicos. Esta plataforma disponibiliza gratuitamente conteúdos práticos sobre reparação, orientações simples e acessíveis e ferramentas que ajudam a tomar decisões informadas na escolha entre “reparar ou substituir”, bem como informação sobre o que fazer aos equipamentos quando já não são reparáveis.
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