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Como tornar o guarda-roupa mais sustentável?

Reduzir e reciclar

Especialistas

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Os consumidores precisam de viralizar um comportamento novo: vamos fazer durar a roupa que temos. Porque havemos de substituir o guarda‑roupa ao sabor de uma qualquer moda passageira? Os números não mentem e vestem‑se de grandes impactos ambientais: segundo dados da Agência Europeia do Ambiente, em 2020, foram extraídas 175 milhões de toneladas de matérias‑primas para produzir roupa, calçado e têxteis para a casa, mais do que para a saúde ou para a educação...

É evidente, com o que acabámos de demonstrar, que não lhe estamos a dizer para deixar de comprar roupa. A única intenção é avivar a consciência dos consumidores para esta realidade e apontar caminhos alternativos. Por isso, em conjunto com as organizações de consumidores congéneres de Espanha, Itália e Bélgica, a DECO PROTESTE levou a cabo um estudo sobre o impacto ambiental de vários materiais têxteis. O estudo teve por base duas peças do vestuário universal: camisolas e calças. Foi analisado o seu impacto ao longo de todo o ciclo de vida – produção, distribuição e utilização –, bem como o impacto das matérias-primas: de fabrico natural (algodão, ganga, couro e lã, por exemplo), celulósico ou sintético (o nylon e o poliéster são os mais conhecidos). Nesta avaliação, não foi ainda possível calcular o impacto das microfibras libertadas na lavagem.

Comparar o impacto ambiental dos diferentes materiais

Foram analisados 13 materiais e 18 categorias de impacto ambiental. Selecionaram-se as cinco mais relevantes, que representam mais de 70% do total de impactos ambientais: contributo para o aquecimento global, grau de toxicidade carcinogénica em seres humanos, uso do solo, dependência de recursos fósseis e consumo de água.

Os resultados da análise permitem comparar os diferentes materiais em função do seu impacto no ambiente, depois de sujeitos a uma utilização de quatro anos ou de 170 lavagens. Mas também determinam o tempo mínimo que cada um deve ser usado para compensar o impacto que gera face ao material mais sustentável.

A primeira conclusão é óbvia e previsível: todos os materiais têm algum tipo de impacto. Já a segunda conclusão não será tão evidente: os produtos de origem natural nem sempre se "vestem" melhor para respeitar o ambiente. O nylon, sobretudo 100% reciclado, é o eleito, por ser o que tem menos impacto em três das cinco categorias destacadas. Se estava a pensar no linho ou no algodão... não é que a escolha seja má, mas, como vamos ver, o impacto ambiental dependerá do tempo durante o qual a roupa for usada.

A partir daqui, apresentamos os resultados apenas para camisolas, já que os materiais têm um desempenho ambiental idêntico para as calças.

Produzir custa mais ao ambiente

O maior impacto do vestuário corresponde à fase de produção (64 por cento). Segue-se o uso, com 33%, e a distribuição, com 3 por cento... Daí que seja importante reduzir o ímpeto de comprar roupa com demasiada regularidade, seguindo a chamada fast fashion. E, sempre que possível, há que adotar o hábito de doar a que não se quer usar. A título de exemplo, vestir uma camisola durante um ano apenas (substituindo-a por peças novas) aumenta o seu impacto ambiental em 148%, em média.

Como dissemos, nada é óbvio no mundo da moda e, sim, é verdade que materiais sintéticos podem ter menos impacto. A pele natural, por exemplo, é seis vezes mais "prejudicial" para o ambiente do que a sintética. O cânhamo é a fibra natural com menor impacto. A lã e a seda também penalizam o ambiente, pelo que vale a pena usar peças de roupa com estes materiais durante vários anos...

Mais exemplos? A lã, a seda e a pele natural exigem que o seu portador os use e conserve por mais de dez, 14 e 23 anos, respetivamente, para compensarem o dano ambiental adicional em relação ao nylon. 

No extremo oposto, o nylon 100% reciclado é o material com menos impacto ambiental, podendo ser usado por menos seis meses do que a versão tradicional, que também apresenta impacto reduzido. Ainda assim, insistimos, não é por isso que deve passar a comprar, mês sim, mês não, roupa em nylon...

O que podemos fazer?

É simples: usar a roupa o máximo de tempo possível é o maior contributo que se pode dar ao ambiente. Ao estender a utilização de uma peça por seis anos, a performance ambiental melhora 16%, em média, considerando as categorias de impacto mais relevantes. Havendo necessidade de a reparar para chegar àquela duração, o desempenho ambiental pode melhorar 12%, em média.

Assim, se uma peça estiver em bom estado, mas já não a quiser usar, opte por doá-la ou vendê-la em lojas de segunda mão, em vez de a deixar fechada no roupeiro. Se já não estiver em bom estado, pode vir a depositá‑la nos sistemas de recolha seletiva, para posterior reciclagem, o que até melhora em 11% o desempenho ambiental. Mas, para que isso aconteça, é fundamental que se cumpra a meta de janeiro de 2025 para estabelecer a recolha seletiva destes produtos ao nível nacional.

Pode ainda fazer algo tão simples quanto baixar a temperatura das lavagens para 20º ou 30º: é quanto basta para melhorar o desempenho ambiental em 4%, em média. Com estes gestos simples, o impacto ambiental dos têxteis no ambiente é consideravelmente mais baixo.

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