Filipa Rendo, Team Leader da área de Produção de Conteúdo da DECO PROteste, reflete sobre a falta de investimento na gestão da rede de água em Portugal.
Um mal nunca vem só. A recente vaga de calor extremo voltou a expor o velho problema da escassez de água no País. E, com o aumento dos consumos, a pressão sobre o abastecimento expôs, por arrasto, outro velho problema – desta feita, estrutural –, o da falta de investimento na gestão da rede.
Pelas piores razões, o concelho de Almada foi disso amostra. Além da baixa pressão do caudal, repetidos cortes no abastecimento deixaram a população sem acesso a um bem de primeira necessidade, num contexto meteorológico particularmente difícil.
Não bastasse o País sofrer de escassez hídrica generalizada, há anos que uma parte da água captada e tratada é perdida ainda antes de chegar aos consumidores, por causa da rede envelhecida. Nalguns concelhos, as perdas ultrapassam os 60 por cento.
No caso de Almada, a água desperdiçada daria para abastecer 38% dos lares, pressupondo consumos médios anuais de 120 metros cúbicos. Um desperdício ambiental, económico e social que não pode ser encarado como uma inevitabilidade.
Com períodos de seca cada vez mais frequentes, ondas de calor mais intensas e uma disponibilidade hídrica incerta, a resposta não pode limitar-se à gestão da emergência. Em cada verão, multiplicam-se os apelos aos cidadãos para evitarem consumos desnecessários. Não obstante a importância de serem adotados comportamentos responsáveis, o busílis está a montante: na escassez de planeamento, de reabilitação das condutas e de financiamento para realizar os trabalhos (e evitar que a fatura recaia sobre o consumidor).
Não basta reparar avarias quando estas acontecem. É preciso atuar antes de a água deixar de correr nas torneiras. Quanta água se desperdiça em cada município? Quais os investimentos previstos para reduzir as perdas? É indispensável acelerar a renovação das infraestruturas mais degradadas e de reforçar a monitorização e a deteção precoce de fugas.
O calor deste verão vai passar. As manchetes sobre os cortes de água também. E o problema permanecerá silencioso, se nada for feito. Até que o verão seguinte lhe dê nova visibilidade.
Gostou deste artigo?
Partilhe com o mundo: