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Sacos de compras: qual a opção mais amiga do ambiente?

Analisámos 96 amostras de sacos de compras e a opção certa pode surpreender. Afinal, comprar um saco de plástico quando se esqueceu do reutilizável em casa pode ser uma boa alternativa.

  • Dossiê técnico
  • Fábio Aparício
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Nuno César
30 agosto 2021
  • Dossiê técnico
  • Fábio Aparício
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Nuno César
Mulher com sacos das compras

iStock

A Dona Arminda passa sempre um paninho no exterior do seu trolley, quando sai da mercearia com mais um recheio de compras para casa. O saco de rodinhas, fiel companheiro, não a abandona há mais de dez anos, sempre que sai para comprar fruta e legumes ao senhor Zacarias. Com a pandemia, a Dona Arminda deu-lhe ainda mais uso, se bem que não tenha sentido grande diferença no modo como faz compras. Há anos que vai àquele estabelecimento. 

Atrás de si, à distância sanitária segura de dois metros, pés decididamente fixados num círculo marcado no chão com os dizeres “Permaneça aqui. Respeite a distância de segurança”, António agita-se, com pressa de voltar a casa, ao posto de teletrabalho. E, aborrecido consigo próprio, lamenta ter-se esquecido, mais uma vez, do saco reutilizável. Lá vai ter de comprar um saco. Enquanto a Dona Arminda, ainda na caixa, põe a conversa em dia, como se não aparecesse na mercearia há semanas, lá fora, perfilam-se mais clientes habituais: Joana, jovem ativista ambiental, aparece com o seu inevitável saco de algodão biológico com a inscrição “Não há planeta B”. Também já desespera com a espera. 

Logo atrás, Maria tenta domar as traquinices dos dois filhos, ao mesmo tempo que segura o seu saco de poliéster com florinhas. Foi a mais nova que o pintou na escola, para a mãe respeitar o ambiente, reutilizando-o nas compras, disse a professora. 

Saiba como ser um consumidor mais sustentável

Deixemos por momentos esta mercearia de bairro e entremos, efetivamente, no objetivo do teste que realizámos, com as organizações de defesa do consumidor nossas congéneres na Bélgica, em Itália e em Espanha: qual é o impacto ambiental dos sacos de compras? Em função disso, qual é a melhor opção para o consumidor? Avaliámos:

  • os materiais usados na confeção dos sacos;
  • a incorporação de materiais reciclados;
  • o uso de tinta e corantes (para pintar logótipos, por exemplo, ou outros motivos que tornem o saco apelativo ou divulguem uma marca);
  • a forma como os componentes foram ligados (se foram colados ou cosidos, por exemplo);
  • se são biodegradáveis ou compostáveis;
  • as certificações (rótulo ecológico, por exemplo);
  • o país de origem do produtor;
  • o peso e o volume do saco, entre outros tópicos.

Como testámos os sacos de compras 

Submetemos 96 amostras de sacos à prova da capacidade e do número de usos para compensar o impacto ambiental. Avaliámos o ciclo de vida, conjugando-o com o volume máximo de cada saco. O objetivo era responder à pergunta “quantos sacos de cada categoria são necessários para transportar produtos de mercearia com um volume de 20 litros e um peso de 10 quilos, numa só ida às compras”? Foi necessário enchê-los com esferovite para medir o seu volume máximo. Consoante os tamanhos dos exemplares do nosso teste, a resposta oscilou entre um e dois sacos.

Já deve desconfiar: quanto mais impacto tiver sobre o ambiente, maior o número de vezes que teremos de reutilizar um saco para compensar o estrago.

Voltemos então às personagens que compõem a nossa história. Qual tem a melhor prática ambiental na relação com os sacos de compras? Leve o seu tempo. Pondere bem a resposta. Se escolheu a Dona Arminda e o trolley que é fiel depositário das suas compras há mais de dez anos, tem razão. A simpática senhora tem poupado ao ambiente consideráveis quilos de plástico e de papel.

Mas, se escolheu o distraído e ocupado António — o que estava mesmo atrás na fila —, que vai novamente comprar um saco de plástico porque se esqueceu de um reutilizável em casa, também acertou. Como assim? Se o cliente compra sacos de plástico a cada ida à mercearia, não estará a prejudicar o ambiente? A resposta é “sim”, com um “depende”: se o consumidor se esquece com frequência dos sacos reutilizáveis em casa, tem de considerar a melhor opção. É o caso de António: é melhor que compre sacos de plástico do que sacos de algodão, partindo do princípio de que se irá esquecer dos últimos em casa. E, se António voltar a usar esses mesmos sacos de plástico noutras compras ou para depositar o lixo, está a reutilizá-los, de alguma forma. Vamos supor que o faz.

Trolley exige 742 reutilizações para compensar

Agora, imaginemos que António usava de vez em quando o trolley. Umas vezes, levava-o à mercearia e, noutras, fatalmente, esquecia-se do carrinho em casa. Para compensar o que a produção daquele trolley custou em termos de impactos ambientais, teria de mantê-lo durante muito mais tempo do que a Dona Arminda. Em geral, um saco deste género precisa de 742 utilizações para compensar o que custou em recursos naturais e transporte, entre a produção, a distribuição e a utilização pelo consumidor.

Esta comparação é feita respondendo à pergunta do nosso cenário-base: quantas vezes tenho de utilizar cada alternativa, para que esta tenha menos impactos ambientais do que comprar sacos de plástico a cada ida às compras? O saco de algodão biológico de Joana, a imaginária ativista ambiental da nossa história, exige ser usado, pelo menos, 149 vezes para contrabalançar o seu impacto ambiental. Esse impacto, aliás, é maior no caso do algodão biológico, quando o comparamos ao “convencional”: para produzirmos um quilo de algodão orgânico, necessitamos de mais espaço, ou seja, 30% de solo adicional, porque a sua produção não é tão eficiente quanto o do seu congénere. É verdade que não se utilizam pesticidas nem fertilizantes, mas este ganho ambiental não é assim tão significativo quanto se poderia pensar — a utilização do solo tem mais impactos. 

Mesmo assim, as coisas não são tão simples, e o plástico não foi “absolvido” pelo nosso estudo. Afinal, a própria lei desencoraja o seu uso, taxando cada saco de plástico que compramos no supermercado. Se o consumidor tiver à escolha um saco de plástico com uma percentagem de material reciclado, por exemplo, estará a seguir uma opção melhor para o ambiente. É isso mesmo: dentro de cada categoria, há diferenças que vão ter efeito, se mudarmos o nosso comportamento no ato de transportar as compras.

Outro exemplo, de novo em categorias diferentes. Imagine que hesita entre o saco de plástico e o de papel, independentemente de terem componentes mais sustentáveis ou não. Deve ter em mente que precisa de usar o de papel nove vezes para igualar a performance do de plástico, caso este só vá uma vez às compras.

trolley

TROLLEY
Deve ser usado 742 vezes. Mas compensa, se o usar sempre para fazer as compras, deixando de lado outras embalagens.

 saco de algodão biológico 

SACO DE ALGODÃO BIOLÓGICO
Deve usá-lo 149 vezes para compensar o impacto ambiental do seu fabrico. Excluindo o trolley, esta é a alternativa com mais impactos ambientais em todas as categorias do teste.

saco de algodão regular

SACO DE ALGODÃO REGULAR
Para usar 101 vezes. Tem um desempenho ambiental melhor do que o dos materiais biológicos: precisa de menos 30% de área para produzir a mesma quantidade de algodão.

saco de juta

SACO DE JUTA
Deve usar-se 37 a 66 vezes. Também apresenta um custo elevado para o ambiente. O intervalo entre as 37 e as 66 vezes de uso deve-se a dois exemplares diferentes avaliados no teste (um compósito e outro não).
saco de papel
SACO DE PAPEL
Use sete a nove vezes, pelo menos. O papel envolve menos impactos ambientais do que o plástico em algumas categorias estudadas. Mas tem entre sete e oito vezes mais impacto no que toca à utilização do solo.

A cada consumidor, o seu saco de compras

E os sacos percebidos pelos consumidores como mais ecologicamente corretos? Como é possível, por exemplo, termos de usar um trolley mais de 700 vezes — uns sete anos, se o levarmos duas vezes por semana às compras — para compensar o que exigiu em recursos? Recorde-se dos exemplos da nossa mercearia imaginária. Não foi por acaso que escolhemos personagens-tipo para ilustrar a complexidade destas situações. Apesar de o trolley exigir mais ao nível de matérias-primas e de energia no fabrico — e transporte —, esta opção é mais robusta e resistente. É ainda ideal para quem tem limitações de mobilidade e escolhe estabelecimentos mais próximos de casa, como a nossa Dona Arminda, que não compra sacos há anos, porque é senhora de hábitos, já que nunca se separa do seu trolley quando vai às compras.

É altura de perguntar: “Então, em que ficamos?” Se usarmos sacos reutilizáveis, causamos estragos ao ambiente, a não ser que os utilizemos sempre; se preferirmos sacos com pouca reutilização, também... A resposta para isto é fácil: escolha o saco mais adequado ao seu perfil, desde que não lhe dê mesmo um só uso. E evite os de algodão e juta.

A propósito do algodão, voltemos atrás ao caso de Joana, a nossa ativista ambiental. Se der a utilização correta ao seu saco de algodão biológico — que, como já vimos, tem maior impacto do que o de algodão convencional, por exigir mais uso de solo —, vai ter de o levar às compras, no mínimo, 149 vezes. Se quiser, claro, ser coerente com os seus princípios de defesa do ambiente. E se a ativista ambiental se esquecer, com frequência, do saco em casa? Partimos do princípio de que não será assim. Se Joana se esquecer de levar o saco reutilizável para as compras, pode olhar para o exemplo de António. No caso de o esquecimento ser esporádico, poderá reparar na personagem que estava logo atrás de si na fila da mercearia: a mãe de família Maria. O seu saco de poliéster, o tal com as florinhas pintadas pela filha mais nova, é mais compensador, pois só vai necessitar de duas a três utilizações. Quando o saco de algodão deixar de servir, Joana poderá melhorar ainda mais o seu desempenho ambiental e declarar fidelidade à versão de poliéster ou de ráfia.

Passemos a António. Não foi por acaso que o deixámos para o fim. O senso comum mais básico recomendaria que não se esquecesse dos sacos reutilizáveis em casa. Evitava comprar constantemente. Mas, se conseguir usar aquele saco mais do que duas vezes, mesmo para outras funções (guardar coisas em casa ou transformá-lo num saco do lixo, por exemplo), poderá apaziguar a sua consciência ambiental.

Por vezes, um mero detalhe pode fazer disparar o número de utilizações. Já falámos da diferença entre escolher sacos de algodão biológico e convencional e do resultado pouco convencional que tiveram no nosso teste... o simples facto de um saco estar pintado, ou usar material reciclado na composição, pode fazer a diferença. Os sacos de juta também devem ser usados muitas vezes, até 66, se forem compósitos. Neste caso, a amostra a que recorremos incluía sacos de juta compósitos mais pequenos, pelo que era necessário juntar dois para perfazer a quantidade suficiente para a nossa ida às compras. Os de ráfia exigem três a quatro usos. São, por isso, uma boa opção para quem leva sempre o saco quando vai às compras.

Já podemos chegar a algumas conclusões. E agora, sim, já tudo deve estar mais claro na cabeça do consumidor. Deve reutilizar o mais possível, de acordo com as suas conveniências. Ninguém é um vilão sobre o qual deverão cair todos os anátemas da sociedade, se usar um saco de plástico. Desde que não o faça apenas uma vez. Ao dar-lhe muita serventia e depois depositá-lo no ecoponto amarelo, para reciclar, cumpre o seu papel. Por outro lado, ninguém é um herói que vai salvar o mundo, caso adquira um saco de compras reutilizável, de ráfia, juta ou algodão, ou ainda um trolley, se não fizer um uso conveniente. Basta esquecer-se deles permanentemente em casa e ter de comprar sacos de plástico, dos quais faça um uso único, para se perder a bondade do gesto. Aqueles sacos têm mais impacto ambiental, quando analisamos o seu fabrico e o circuito que atravessam até nos chegarem às mãos, mas esse custo pode (e deve) revelar-se um benefício se seguirmos a máxima “use e abuse”. Não os deve lavar à mão ou na máquina, para que não libertem microplásticos. Um paninho húmido é suficiente para uma higiene sustentável.

saco de rafia

 

SACO DE RÁFIA (PP)
No mínimo, para usar três a quatro vezes. Uma boa solução para quem nunca se esquece dos sacos em casa. Mais resistentes do que as versões de plástico, os sacos de ráfia podem ser utilizados mais vezes.
saco de poliester
SACO DE POLIÉSTER
Usado duas a três vezes, já compensou o seu fabrico. Também é uma alternativa para quem nunca se esquece do saco em casa. Tem a vantagem de se poder guardar facilmente.

saco de plástico compostável

SACO DE PLÁSTICO COMPOSTÁVEL
Não pode ser usado muitas vezes, apenas duas, no máximo. No entanto, caso se esqueça do saco reutilizável em casa, é uma boa opção.
 saco de plástico
SACO DE PLÁSTICO
Podem ser usados uma a duas vezes. Caso deixe os reutilizáveis em casa, são a melhor opção. Prefira versões que tenham a incorporação de material reciclado.

Sacos para fruta, legumes e pão: qual usar?

Também avaliámos no nosso teste as chamadas embalagens de serviço, ou seja, os sacos que estão à nossa disposição nos estabelecimentos, para transportarmos fruta e legumes. E os resultados são coerentes com os dos seus “primos” que trazemos de casa. O algodão volta a enganar: os sacos de rede comprados em grupo nas grandes superfícies, também para reutilização, exigem que os voltemos a usar para embalar os nossos frescos 952 vezes, para compensar o impacto do cenário-base que descrevemos atrás. Leu bem. Esta quantidade exorbitante reflete o valor máximo de impacto ambiental das variáveis que analisámos, para a sua produção. Os de poliéster, pelo simples facto de terem uma fita vermelha para os fechar, traduzem-se em 98 utilizações... ou, sem a fita pintada, em dez. O que faz um traço de tinta...

Se formos comprar pão, em muitas grandes superfícies, a solução é uma embalagem que mistura plástico e papel. Aí, já vemos a frequência de uso necessária para compensarmos os males ambientais subirem para 16 vezes. Tendo em conta que, à partida, não estaremos muito voltados para reutilizar este tipo de embalagens, o preço ambiental a pagar é considerável. Neste caso, o nosso conselho é mais singelo e talvez um pouco fora da caixa, se nos lembrarmos da condenação pública há muito feita ao plástico: o melhor é limitarmo-nos a usar embalagens reutilizáveis de poliéster, sem tinta. Faremos menos dano ao ambiente. A regra, por isso, continua a ser o uso repetido do bom senso e um equilíbrio entre as nossas necessidades e o planeta. Não podemos levar para as compras um saco cheio de dogmas. Que nada resolvem.

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