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Casas passivas: o futuro da habitação

Temperatura entre os 20 e os 25ºC, ótima qualidade do ar e níveis elevados de conforto acústico são pressupostos da casa passiva. Gasta menos energia e tem uma pegada ecológica reduzida. A renovação pode rondar os mil euros por metro quadrado, um custo semelhante ao de uma construção clássica.

  • Dossiê técnico
  • Ricardo Pereira
  • Texto
  • Deonilde Lourenço
29 abril 2021
  • Dossiê técnico
  • Ricardo Pereira
  • Texto
  • Deonilde Lourenço
casa reabilitada segundo requisitos de casa passiva ao lado de casa velha

José Pedro Tomaz

Duas moradias geminadas na cidade de Ílhavo, na região de Aveiro, servem de mote para um exercício de retrospetiva. Os preceitos de uma construção focada no desempenho energético instalam a diferença, testemunhada no bem-estar entre as quatro paredes. Tiago Gomes, a viver desde janeiro na habitação renovada, reforça o “conforto excecional”, mesmo nos dias mais rigorosos de inverno. O agente de navegação marítima, de 44 anos, afirma: “Não é comparável o nível de conforto e de eficiência térmica e energética desta casa com a anterior onde vivi, de construção antiga”. O investimento na renovação do imóvel de duas assoalhadas e de 52 m2 traduziu-se em 55 mil euros. Para avançar com uma intervenção idêntica, o custo ronda os mil euros por metro quadrado. O preço pode não fugir muito do orçamentado para uma habitação tradicional, e cabe aos intervenientes adequar o projeto, os materiais, as soluções e as técnicas ao orçamento previsto. Saiba os cuidados a ter na compra ou na construção de um edifício com a certificação Passive House.

Pouco vulgarizadas no nosso país, as casas passivas limitam-se a quatro já certificadas, nas zonas de Aveiro e do Porto. Mas as potencialidades são enormes. Em Portugal, a rede Passive House existe desde 2012, com a construção dos primeiros edifícios certificados e a criação da Associação Passivhaus Portugal. A rede conta com centenas de profissionais certificados, dezenas de empresas associadas, componentes certificados e protocolos de cooperação com universidades e institutos portugueses. 

Descida ativa das despesas de energia

Classificada como low energy building (ou “edifício de baixo consumo energético”), a casa arrendada por Tiago Gomes é um exemplo de como a eficiência reduz o consumo de energia e, consequentemente, de eletricidade, gás, biomassa ou energia solar e geotérmica. Tendo-se mudado em plena estação fria, não pode queixar-se de temperaturas baixas. O imóvel mantém, de forma natural, uma temperatura ambiente a rondar os 20ºC. Muito pontualmente, o aparelho de ar condicionado ajuda a controlar eventuais desvios ou necessidades pontuais de climatização. “Pode registar-se uma oscilação de meio grau, mas bastam 15 minutos para restabelecer a temperatura”, assegura Tiago Gomes. A filtragem e a purificação do ar também cooperam para esta estabilidade. O sistema de ventilação mecânica controlada contribui para manter a qualidade do ar interior, desejável devido ao elevado nível de estanquidade ao ar da habitação. E fá-lo reaproveitando o calor do interior, o que incrementa a eficiência energética do edifício. O aquecimento das águas sanitárias (utilizadas nos banhos e na lavagem da loiça e da roupa) através de uma bomba de calor também dá uma mão à eficiência. Instalou-se uma bomba de calor, com 300 litros de capacidade, para a produção de águas quentes sanitárias, de modo a aproveitar a elevada eficiência desta solução e a energia grátis e renovável do ar.

A casa de Ílhavo atingiu o patamar de desempenho PHI Low Energy Building, que representa um desempenho energético muito elevado. Mesmo não tendo sido possível atingir os requisitos para a certificação Passive House ou EnerPHit, as medições e as contas conduzem à conclusão de que, quando comparada com a condição original, os gastos descem vertiginosamente com o aquecimento interior, mas também com a produção de água quente sanitária. Com base nos dados do certificado energético, calculámos os gastos, antes e depois da renovação. Antes desta, as despesas anuais de energia poderiam ascender a mais de 2500 euros, considerando o recurso exclusivo à eletricidade. Após a intervenção, ficam aquém dos 150 euros. Somando as parcelas do arrefecimento e da água quente sanitária, a poupança anual é de 2592 euros.

Despesas anuais: antes e depois

 

 
A moradia de Ílhavo, por conservar uma temperatura estável, exige pouco investimento na climatização do ar. Uma bomba de calor produz água quente sanitária. A análise aos certificados energéticos, antes e depois da intervenção, indica que o potencial de poupança anual pode superar os 2500 euros.
 
Comparámos os valores da temperatura e da humidade, antes e depois da remodelação da casa de Ílhavo. As diferenças são significativas e têm implicações no conforto. Na habitação renovada, a temperatura é estável ao longo do dia e em todo o ano, enquanto os níveis de humidade são consideravelmente mais baixos.

Casas passivas: pegada ecológica mais pequena

A renovação da vivenda de Ílhavo permitiu reduzir o impacto ambiental deste edifício durante a sua vida útil. A diferença pesa, por ano, 2897 quilos de CO2, o que equivale à plantação de 132 árvores. A lógica inerente à construção das casas passivas envolve uma redução do impacto ambiental, devido às menores necessidades de energia. Este fator condiciona a quantidade de emissões de CO2, naturalmente menores. E as emissões de dióxido de carbono serão tanto menores quanto maior for o nível de eficiência energética do edifício, o que demonstra o impacto positivo que o conceito de casa passiva pode ter no processo de descarbonização. 

 

E os apartamentos, podem ser certificados?

Sim, podem. Mas é preciso tomar o todo pela parte. Por outras palavras: para certificar um apartamento como casa passiva, é necessário que todo o edifício o seja. Logo, o apartamento, ao integrar o edifício, será certificado como casa passiva. Este conceito pode ser aplicado a construções novas e a obras de renovação. Nas reabilitações, podem surgir constrangimentos que dificultem o cumprimento integral dos requisitos da certificação como casa passiva. Atendendo a esta situação, a EnerPHit estabelece uma espécie de paralelismo entre as exigências de uma casa passiva numa construção de raiz e numa renovação. Recorrendo a soluções e técnicas construtivas e a profissionais validados pelo Passivhaus Institut, uma renovação pode ter a certificação EnerPHit se o edificio cumprir determinadas condições. Não é obrigatória a utilização exclusiva de soluções técnicas certificadas. Todas as soluções são válidas, desde que perfaçam os requisitos e sejam instaladas corretamente, adaptando-se ao desempenho pretendido. Apesar de se recorrer a materiais e soluções específicas nalgumas zonas, a maioria são de uso corrente na construção tradicional.

Quais as ajudas económicas para a construção ou renovação de um edifício?

O investimento na construção, renovação ou aquisição é relevante e pode significar uma dívida a longo prazo. Invista bem. Para obter apoios, é preciso consultar os serviços das câmaras municipais e a autoridade fiscal. Existem, por exemplo, quadros de apoio para renovações e edifícios situados em áreas de reabilitação urbana (ARU), cuja delimitação deve ser consultada ao nível camarário. O mesmo se aplica aos auxílios para intervenções em edifícios nesses mesmos locais. Ainda há muito caminho a desbravar, mas as casas passivas, ou, no mínimo, com muito baixas necessidades reais de energia, são o futuro. E podem vir a estar ao virar da esquina.

Casa passiva e as certificações intermédias

A certificação Passive House é o patamar desejável, no qual se reúnem os requisitos mais restritos a cumprir numa construção de origem ou numa renovação. Baixando um pouco a fasquia, segue-se a certificação EnerPHit, ainda sem edifícios em Portugal. Acata os requisitos intermédios, utilizando técnicas e soluções certificadas para uma casa passiva, mas adaptada à renovação de habitações, bem como às limitações que, por vezes, surgem. Outros países europeus, como Espanha, encontram-se mais avançados. Os nuestros hermanos contam já com 14 certificações emitidas no âmbito da EnerPHit. Surge, por fim, o PHI Low Energy Building, que deveria ser o símbolo das exigências mínimas de qualquer edifício. Em Portugal, existem dois daquela natureza. Os PHI Low Energy Buildings, à semelhança do que serve de residência a Tiago Gomes, requerem pouca energia. Apesar de não respeitarem os requisitos e os critérios das normas EnerPHit e Passive House, apresentam um desempenho energético, mesmo assim, muito elevado.

O Passivhaus Institut, sediado em Darmstadt, na Alemanha, é responsável pela emissão do certificado dos edifícios e dos componentes individuais e pela qualificação e avaliação dos profissionais, como projetistas e designers.

 

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