Crise financeira e segurança dos investimentos

Será que a forma de contabilização poderá ter contribuído para a crise?21/10/2008

Os analistas têm procurado encontrar os factos responsáveis pela crise financeira actual: além da ganância dos especialistas financeiros, da incompetência das administrações, da falta de escrúpulos dos bancos e do excesso de tolerância das autoridades, é agora vez de se culpabilizar as normas contabilísticas.


A lembrar…
A explosão da bolha Internet no início deste século e as falências da Enron e WorldCom levaram à implementação de normas contabilísticas mais rígidas, sobretudo em matéria de contabilização dos activos financeiros (acções, obrigações) na posse das empresas.


Valor de mercado e custo histórico
A contabilidade ao valor de mercado ou fair value implica que os activos sejam contabilizados ao preço que valeriam no mercado em caso de venda imediata, se este for abaixo do custo de aquisição. Se uma empresa detém, por exemplo, acções da AXA compradas a 35 euros e que hoje valem 23 euros, não as pode contabilizar ao custo histórico. Ao invés, deve publicar uma redução de valor de 12 euros. Devido à crise, as instituições financeiras publicaram 600 mil milhões de euros em reduções de valor nos últimos meses.


Uma contabilização ao custo histórico não dá uma imagem correcta, devido às contas opacas e à depreciação dos valores bolsistas. Nos anos 1990, o Japão foi palco de grande desconfiança em relação ao sistema bancário, na medida em que as contas das instituições não permitiam identificar as relações mantidas com empresas em dificuldades.

Uma espiral perigosa
No entanto, embora o ajuste ao valor de mercado pareça ser mais adequado, não está isento de problemas. Com efeito, a sua filosofia assenta na adaptação permanente do valor dos activos (desde activos simples, como acções, a produtos complexos ligados ao crédito subprime). Num caso de queda do mercado bolsista, a banca, em especial, tem de reajustar o valor dos seus activos. Isto faz com que o valor do banco em Bolsa caia, provocando uma espiral perigosa que arrasta as cotações. Para restabelecer a solvabilidade, as instituições têm de aumentar o capital e/ou vender os activos ou suprimir os dividendos. Como resultado, perde-se a confiança, a liquidez e, em alguns casos, a falência ameaça.


Foi este tipo de espiral que fez a Fortis desmoronar-se como um baralho de cartas, dado que o grupo já sofria problemas por causa do preço elevado pago pela compra de parte do ABN Amro. Já o banco suíço UBS, que detinha activos muito arriscados, teve de publicar 42 mil milhões de dólares de reduções de valor e proceder a dois aumentos de capital para reforçar os fundos próprios.


Maior flexibilidade
Há uma polémica acesa entre, por um lado, defensores da contabilização ao valor de mercado e, por outro, ao custo histórico. O primeiro método é mais transparente mas, apesar de não ter desencadeado a crise, agravou-a. Tendo em conta as críticas e a desconfiança nas Bolsas, as autoridades de controlo afirmaram, nos últimos dias, que as normas contabilísticas devem ser interpretadas de forma mais flexível, o que deverá conduzir a menores reduções de valor.

Porém, o problema mantém-se no caso de bancos como o UBS, Barclays e Deutsche Bank, que detém elevados montantes de activos de risco. Para os bancos americanos, o plano Paulson permitirá fixar um preço para os activos que já não têm mercado que possibilitará conhecer melhor os balanços dos bancos. Mas também poderá obrigar a novas reduções de valor, se o preço que obtiverem para esses activos for inferior ao valor contabilizado.


Conclusão
Não estamos convencidos que as medidas tomadas sejam suficientes, a curto prazo, para restaurar a confiança no sector financeiro. Apesar das intervenções massivas dos bancos centrais, o mercado monetário interbancário deverá manter-se debilitado durante mais algum tempo. A flexibilidade das normas poderá ter um efeito positivo nos resultados do terceiro trimestre, a publicar nas próximas semanas. Contudo, por prudência, mantemos suspensos os conselhos de compra para o sector financeiro.


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