Obrigações
Analistas antecipam um crash obrigacionista para 2010
No início do ano, os analistas tentam antecipar as evoluções que se avizinham e identificar os perigos a evitar. A causa de maior preocupação é uma subida rápida das taxas de juro. Depois de terem anunciado há 12 meses uma grande depressão que afinal não chegou, estimam agora um crash obrigacionista para 2010.
Potencialmente devastador
Longe de ser uma novidade, o receio de uma subida do preço do dinheiro é comum a todos os momentos de pós-crise. Hoje em dia, vários elementos específicos fazem com que essa questão se coloque com maior insistência.
- A flexibilização monetária foi de grande amplitude, com uma baixa histórica das taxas de juro em vários países, e a implementação de medidas não convencionais que inundaram os mercados em liquidez. Dependente dessa superabundância, a economia arrisca-se a enfraquecer, se a injecção monetária for retirada.
- A crise também foi financeira e muitos bancos sobreviveram justamente à custa desse relaxamento em grande escala. Assim, o regresso dos lucros dos últimos trimestres deve muito a esse dinheiro barato. Um novo aumento do financiamento fará cair no vermelho as contas das instituições mais fracas.
- Para contrariar a crise, os governos recorreram massivamente aos orçamentos deficitários e o endividamento dos Estados explodiram. Financiado a um preço atractivo, o endividamento tornar-se-á problemático, se as taxas de juro voltarem a subir.
Erro de 1994 ou exemplo de 2004?
As autoridades monetárias estão conscientes do risco e qualquer subida prematura das taxas directoras irá penalizar a economia e os mercados financeiros.
Mas, como sublinham os pessimistas, também o estavam em 1994, quando a Reserva Federal procedeu a uma primeira subida inesperada da sua taxa directora. Destinado a contrariar as pressões inflacionistas, este endurecimento monetário fez passar a taxa directora americana de 3 para 6%. Então, o crash obrigacionista fragilizou a actividade económica.
Em 2004, as autoridades monetárias americanas agiram com mais tacto. Prepararam atempadamente os mercados para o futuro endurecimento monetário e fizeram-no de forma gradual.
Embora a recuperação seja ainda hesitante, as pressões inflacionistas sejam limitadas e a situação do mercado de trabalho continue a ser difícil, não há razão para pensar que as autoridades monetárias voltarão a repetir o erro de 1994 e apressar-se a subir as taxas directoras.
Monetarização
Não há dúvida de que a subida das dívidas públicas ultrapassa aquilo que os investidores privados estão dispostos a comprar. Por isso, as autoridades monetárias financiaram os défices directamente, através da compra de títulos de dívida, ou indirectamente, dando aos bancos meios para comprarem esses mesmos títulos.
Esta monetarização aprisionou as autoridades monetárias numa política dificilmente reversível. Como a absorção dos défices será muito lenta, as emissões de títulos do estado continuarão a ser elevados nos próximos anos.
Uma paragem da monetarização criaria, por isso, fortes tensões no mercado obrigacionista. Estes mercados acomodam-se mais facilmente a esse inconveniente do que à progressão dos preços, já que as antecipações inflacionistas estão contidas.
Esta situação não é diferente do caso japonês, em que o Banco do Japão não consegue sair da política de taxa zero.
Crash ‘lento’
Em nossa opinião, não há razões para temer um crash obrigacionista este ano. A situação não é, contudo, favorável àqueles que pretendem constituir uma carteira de obrigações.
Com efeito, globalmente, as remunerações oferecidas são fracas e nem sempre reflectem o risco real do emissor. Corre-se o risco de que esta situação se mantenha por muito tempo.
É preciso admitir um crash lento que penalizará pouco a pouco o valor dos títulos da dívida. Neste momento, preferimos os títulos de dívida de países menos endividados, como a Austrália.




