Mais crise?
Alguns analistas prevêem uma recaída da economia, o chamado double dip
Depois do forte crescimento de 2009, as Bolsas estagnaram no primeiro semestre de 2010 e um número considerável registou um retrocesso. Após a recuperação do segundo semestre do ano passado, as economias dos países industrializados atravessam um momento de incerteza. Alguns analistas antevêem uma recaída da economia, o chamado “double dip”.
Retoma continua frágil
Os argumentos dos que prevêem o double dip são numerosos. Apesar da retoma da economia, o nível de emprego não recuperou de forma sustentada, nem nos Estados Unidos nem na zona euro. Além disso, a situação financeira da maior parte dos países desenvolvidos continua delicada e a dívida pública muito elevada.
Consequentemente, as medidas de estímulo são rapidamente substituídas pelas de austeridade. O saneamento das contas públicas traduzir-se-á em despesas fiscais acrescidas. Em antecipação, a procura recorde de financiamento pelos Estados deverá traduzir-se em taxas de juro mais elevadas para todos.
A este cenário é necessário acrescentar o estado do sector bancário. Os resultados dos stress tests permitirão saber mais sobre a solvabilidade e eventuais necessidades de refinanciamento.
Entretanto, não se pode afastar a possibilidade de um novo choque no sector financeiro, tanto mais que está exposto a qualquer crise ao nível da dívida soberana. Além disso, os bancos centrais continuam a disponibilizar grandes quantidades de liquidez nos mercados a taxas próximas de zero.
Por último, parece difícil acreditar numa retoma pelo lado do consumo e do crédito, quando são precisamente os excessos do consumo e do crédito que provocaram a crise mundial.
Fontes de esperança
Mas outros argumentos apontam a favor do crescimento económico. Nos Estados Unidos foram criados cerca de 600 mil novos postos de trabalho no primeiro semestre, enquanto que na Alemanha, o número de desempregados é ainda de 3,15 milhões, ainda assim distante dos 5 milhões registados em 2006.
Se a crise forçar as empresas a adaptar os instrumentos de produção à força, tal poderá traduzir-se em lucros de produtividade importantes que as tornam mais competitivas, o que lhes permite apresentar um bom crescimento dos lucros.
Outros aspectos encorajadores: as medidas de austeridade anunciadas na Europa nestes últimos meses na realidade tiveram efeitos bem menores. Com efeito, na maioria dos casos, estes planos de representam apenas 1% do PIB anual. Em contrapartida, nos Estados Unidos, a austeridade ainda não está na ordem do dia.
Graças à abundância de liquidez, o financiamento da dívida soberana continua a fazer-se sem problemas. Mesmo as matérias-primas, cujos preços estão em alta, vêem agora os seus preços estabilizarem. O que permite aos bancos centrais manterem as taxas, aos níveis actuais, por muito mais tempo.
Bolsas baratas?
Perante estas boas notícias, alguns investidores anunciam que o momento é propício ao investimento. Com efeito, vistos sob o único ângulo do rácio cotação/lucro, os mercados bolsistas não parecem particularmente caros. Mas os lucros podem ter sido sobrestimados.
Apesar do forte aumento esperado para este ano, o consenso continua a apostar num aumento dos lucros das empresas que atingem 20% no próximo ano. O que fazer ao atingir-se tais recordes, num momento em que a economia continua com problemas? Se tal desenlace não é impossível, também não deve ser o mais provável.
Sem evocar um cenário de double dip, um cenário de retoma tímida provocará, provavelmente, revisões em baixa dos lucros que provocarão uma correcção dos mercados bolsistas.
Conclusões
Embora a possibilidade de uma nova crise não possa ser totalmente afastada, parece pouco plausível. Os aumentos de produtividade, os lucros das empresas e a política monetária deverão apoiar a economia.
Mas os riscos existem. No caso de uma nova crise financeira ou dívida soberana, os Estados estão mal posicionados para suportar, uma vez mais, o sistema bancário e a economia, dado que a maior parte destas economias já está fortemente endividada. Pressupondo tal cenário, o double dip poderá tornar-se uma realidade.
Seja como for, as expectativas dos mercados relativas à progressão dos lucros são optimistas, perante uma actividade económica sem perspectivas favoráveis. Uma revisão em baixa das previsões, acompanhada de uma correcção dos mercados não é de excluir. A selectividade deve permanecer.




