Futuro da economia
Há sinais de retoma em breve
mas a
sua sustentabilidade é incerta
2009 foi marcado pela crise económica. Há inúmeros sinais de que a retoma está para breve, mas a sua intensidade e sustentabilidade são incertas. Apesar da luz ao fundo do túnel, pairam muitos perigos sobre a economia mundial nos próximos anos.
- Retoma?
- Mercado de trabalho atingido
- Mais dívidas
- Finanças públicas fragilizadas
- Investimento e comércio mundiais
- Saída da crise
- Conclusão
Retoma?
Depois da saída da recessão da zona euro e dos Estados Unidos no terceiro trimestre de 2009, os mercados tentam apreender a dimensão da retoma para 2010 e 2011. Pela nossa parte, antecipamos uma lenta recuperação.
Quando acabar o impacto do estímulo da despesa pública, os consumidores norte-americanos e britânicos, ainda muito endividados, estão mal posicionados para retomar os velhos hábitos de consumo e dinamizar a economia mundial. Mas e a longo prazo? Uma vez digeridos os efeitos da crise financeira, a economia mundial poderá regressar aos níveis de crescimento a que nos habituou?
Não há muitas certezas. As sequelas deixadas pela crise
– deterioração do mercado de trabalho, elevado endividamento do sector privado e público, quebra na concessão de crédito, colapso do investimento, menos fluxos comerciais internacionais – podem pesar de forma duradoura na economia mundial.
Mercado de trabalho atingido
Desde Março que as Bolsas têm estado em alta. A catástrofe económica que se previa foi evitada e os mercados recuperaram bastante terreno. Desde os mínimos de Março, o índice S&P 500 da Bolsa norte-americana ganhou mais de 65%. Com efeito, as somas massivas injectadas pelos Estados e os bancos centrais permitiram que a maioria das economias voltasse a crescer a partir de meados do ano.
Mas, se os mercados acolheram com euforia esta retoma, as famílias não têm razões para festejar. Embora a economia tenha recuperado, o mercado de trabalho continua deprimido. Mês após mês, as notícias sobre novas perdas de postos de trabalho multiplicaram-se e taxa de desemprego voltou a aumentar. Tanto na zona euro, onde está ao nível mais elevado da última década, ou nos Estados Unidos, onde atinge valores que não eram vistos há mais de um quarto de século.
Alguns analistas não se mostram preocupados com esta deterioração do mercado de trabalho, pois permite às empresas melhorar a produtividade e reduzir os custos: dois elementos que contribuem para a recuperação dos lucros nos últimos trimestres. Consideram que o emprego é um “indicador atrasado” da economia, que só terá progressos reais depois que a retoma entre em velocidade de cruzeiro.
Contudo, a realidade é mais complexa:
- As perdas de emprego traduzem-se numa deterioração do orçamento das famílias e, consequentemente, da sua capacidade de conseguir assegurar o reembolso das dívidas;
- A estagnação dos salários e o endurecimento das condições de acesso ao crédito também tornam a retoma do consumo e do mercado imobiliário dificilmente atingível; sem elas, as hipóteses de uma retoma duradoura são poucas.
Este fenómeno de subida generalizada da taxa de desemprego é ainda mais grave porque tem implicações a longo prazo. De facto, a subida conjuntural do desemprego irá transformar-se, parcialmente, num aumento do desemprego estrutural, o qual não desaparecerá com a retoma. A deterioração duradoura do mercado de trabalho processa-se através de três vias.
- Elevadas taxas de desemprego traduzem-se muitas vezes no aumento do desemprego de longa duração, sobretudo na Europa. Este tipo de desemprego é particularmente nocivo para a economia pois, sem perspectivas, os desempregados tendem cada vez menos a retomar uma actividade normal, até porque o período de inactividade significa perda de hábitos de trabalho e da qualificação do trabalhador. A recessão provoca, assim, uma deterioração do capital humano.
- A recessão e a falência das empresas originam perda das capacidades de produção e diminuição dos postos de trabalho. E nada garante que a retoma inverta essa tendência nas economias desenvolvidas. A crise pode mesmo acentuar o fenómeno de deslocalização para países com custos mais baixos ou com maior crescimento. Muitas vezes, é uma transferência irreversível de emprego dos países desenvolvidos para as economias emergentes.
- A forte deterioração das finanças públicas, que se verifica nos Estados Unidos e na Europa, acabará mais tarde ou mais cedo num aumento da carga fiscal. Quer incida sobre as empresas, os trabalhadores ou o consumo, terá um impacto negativo e permanente no mercado de trabalho.
Para a OCDE e outros organismos internacionais, a solução passa inevitavelmente por reformas das economias, nomeadamente ao nível do sector da saúde e das prestações sociais, além do aumento da idade da reforma. Embora imprescindíveis, estas reformas são difíceis de implementar dada a sua impopularidade.
A solução alternativa será o aumento das receitas fiscais, que implica uma subida da carga fiscal, o que pesa sobre a economia:
- Uma maior pressão fiscal sobre os trabalhadores reduz a oferta de trabalho, diminui os rendimentos disponíveis e o consumo.
- Um incremento de impostos sobre as empresas significa mais deslocalizações, reduzindo a produção e o emprego. Implementar impostos directamente sobre o capital desincentiva os investimentos e, consequentemente, a produção e o emprego.
- Uma subida do IVA penaliza igualmente o consumo e, a menos que atinja principalmente os produtos importados, prejudica a actividade económica. Ainda assim, o IVA ou os impostos sobre o imobiliário têm um impacto mais limitado.
O saneamento das finanças públicas passa por limitar as despesas governamentais e aumentar as receitas fiscais. Mas seja qual for o método escolhido, um aumento da carga fiscal penalizará a actividade económica. E caso se adie o ajustamento orçamental, a dívida pública vai disparar ainda mais e pode retirar a disponibilidade de capital do mercado obrigacionista ao sector privado.
– Tanto na Europa como nos Estados Unidos, os défices públicos atingem montantes colossais e não se prevê um retorno ao equilíbrio nos próximos anos. As autoridades terão, cada vez mais, de fazer apelo aos mercados obrigacionistas para se financiar. Os efeitos secundários são nefastos, tais como uma deslocação de capitais da dívida privada para a pública.
– Assegurada actualmente pela monetarização da dívida e graças a políticas monetárias extremamente acomodatícias, este financiamento a prazo só se poderá fazer se aumentar a poupança das famílias ou diminuir o endividamento das empresas. Não se pode excluir que os enormes défices orçamentais acabem por absorver a maior parte da poupança das famílias em detrimento do financiamento das empresas.
Com a crescente necessidade de auto-financiamento, as empresas terão de aumentar, a todo o custo, a sua rentabilidade, nomeadamente através de deslocalizações, reduzindo o emprego e os salários. Num clima de elevado desemprego e de deflação salarial, as famílias irão aumentar mais a poupança, permitindo o financiamento dos défices públicos e reduzindo o seu próprio endividamento.
– Este fenómeno ainda é mais provável porque, apesar dos problemas dos défices públicos, as famílias limitarão o seu endividamento. A nova situação económica não permite a contracção de mais dívidas e muito menos um novo disparo do crédito aos particulares.
– Por um lado, os bancos limitam os empréstimos exigindo mais garantias. Por outro, a situação das famílias não permite aumentar o seu endividamento que, numa perspectiva de médio/longo prazo, não pode progredir mais depressa que o valor dos activos detidos e da evolução dos rendimentos.
– Com o colapso do mercado imobiliário, o património das famílias diminuiu bastante a capacidade de endividamento de forma automática. Além disso, os salários e as perspectivas de rendimento são mais baixos, limitando ainda mais o nível de crédito suportável para ser reembolsado. Se não é uma má notícia que os agentes privados reduzam o endividamento excessivo, a substituição da dívida privada por pública penaliza o dinamismo económico.
O endividamento público é muito menos produtivo que o privado e não implica um aumento do efeito riqueza junto das famílias. Segundo algumas estimativas, o boom do imobiliário e do crédito representou praticamente 1% do crescimento nos últimos anos, o que não se deverá repetir no futuro.
– Face a uma procura incerta, o crédito mais caro e mais difícil de obter, e uma maior pressão fiscal, as empresas adiam os projectos de investimento. Se tal permite resguardar a rentabilidade a curto prazo, esta política pode hipotecar as receitas futuras e colocará um travão na retoma económica. Quando as famílias e os governos tiverem de gerir o endividamento, o investimento das empresas será essencial para que a economia saia do marasmo actual e de forma sustentada.
– Após um período prolongado de fraco investimento, os meios de produção e o aparelho produtivo tornam-se obsoletos. Além disso, uma crise desta envergadura traz modificações importantes ao nível do posicionamento estratégico das empresas. Sem uma retoma do investimento nos meios de produção e na formação profissional, a produtividade poderá decair, o que pesa no potencial de crescimento. Muitas vezes, uma retoma duradoura implica um “salto” tecnológico”.
– Alguns países vislumbraram bem esta necessidade de inovação e não hesitam em apostar na pesquisa e desenvolvimento (I&D), sobretudo nas tecnologias “verdes”.
– Contudo, em média, a situação delicada das finanças públicas poderá fazer abrandar o investimento e a inovação, sobretudo na Europa, que está muito dependente de fundos públicos. Uma má notícia para o Velho Continente que, mesmo antes da crise, investia menos em I&D do que os Estados Unidos e o Japão. Por outro lado, o investimento e os ganhos de produtividade são agora essenciais, porque a crise alterou o comércio internacional em favor dos países mais competitivos.
Antes da crise, as trocas comerciais progrediram a largos passos e organizavam-se em torno do eixo americano-chinês, com o consumidor americano como motor da procura mundial e a China como “fábrica do mundo”. Entre os dois blocos, a Europa vendia bens de produção à China e conseguia conservar as quotas de mercado em termos dos bens de mercado. Actualmente, o consumidor norte-americano está “moribundo” e são as famílias dos países emergentes, particularmente na China, que assumem o “comando”.
Contudo, as implicações para o comércio internacional são diferentes:
- A procura dos consumidores chineses será feita essencialmente com recurso à produção interna e não estimulará o comércio internacional tal como fazia a procura norte-americana.
- E até a procura chinesa de bens de produção poderá diminuir. Sozinhos, os consumidores chineses não podem compensar a quebra da procura americana, até porque as exigências de qualidade são menores, a procura de instrumentos de alta-tecnologia fará sentir-se menos. É de esperar que o comércio mundial se torne menos dinâmico e menos favorável para os países ocidentais.
Assim, a 12 de Dezembro, os bancos tiveram a última oportunidade para se financiar a 12 meses junto do BCE. Em Março de 2010, poderão pedir emprestado a seis meses pela última vez. De seguida, os bancos poderão continuar a financiar-se junto do BCE à taxa de juro directora vigente e de acordo com as modalidades clássicas que existiam antes da crise: prazos curtos e montantes reduzidos.
Estas medidas visam limitar os fluxos excedentários de dinheiro nos mercados, que são usados, muitas vezes, pelos investidores nas várias Bolsas e que no limite poderá conduzir à formação de novas bolhas especulativas.
Se o BCE foi criticado pela sua reacção tardia à crise financeira em 2008, esta tomada de posição foi saudada pelos mercados e parece ser prudente e razoável. Com efeito, os governos e os restantes bancos centrais devem, o mais cedo possível, preparar estratégias para evitar que surja uma nova crise.
A esperada retoma está à vista, mas poderá decepcionar dadas as fraquezas do sector privado. Mais do que propiciar uma recuperação estável, a economia mundial poderá continuar a vacilar nos próximos anos. Depois de dois trimestres de euforia generalizada nos mercados bolsistas, é preciso manter a prudência em 2010.
- Face ao crescente endividamento público e à inevitável subida das taxas de juro, preferimos as economias que têm uma situação financeira mais sólida e que estão menos dependentes dos mercados obrigacionistas, como a Austrália e o Canadá.
- Do lado das acções, numa altura em que a maioria dos mercados estão entre o correcto e o caro, as Bolsas norte-americana e britânica estão mais atractivas e permanecem incontornáveis. Não pelo desempenho esperado para essas duas economias, mas pelo facto de que as grandes multinacionais, capazes de beneficiar do crescimento em qualquer parte do mundo, estão lá cotadas.
A Austrália e o Canadá, ricos em matérias-primas, onde as perspectivas são mais interessantes, também devem estar presentes numa carteira de investimentos.




