Estados Unidos
Retorno a uma economia sustentada pelo consumo está a revelar-se difícil
Como se esperava, o fim dos estímulos e a transição para uma economia de novo sustentada pelo consumo das famílias está a revelar-se difícil e poderá significar uma nova quebra para a economia americana.
Nos Estados Unidos, o fim das ajudas fiscais para aquisições imobiliárias causou um recuo de 27% das vendas em Julho. Em termos absolutos, as vendas de imóveis regressaram a níveis que não se verificavam desde 1995. A queda de preços poderá seguir-se, com graves consequências para a retoma.
Mercado de trabalho permanece frágil
O mau momento do mercado imobiliário americano pode, à primeira vista, surpreender. Numa altura em que as taxas de juros do crédito hipotecário se encontram próximas dos mínimos absolutos e os preços das habitações estão, em média, 25% abaixo dos máximos de 2006, poderia esperar-se grande procura no sector.
Mas o cenário é inverso, devido à morosidade do mercado de trabalho. As inscrições semanais nos centros de emprego aumentaram nas últimas semanas, atingindo os 500 mil desempregados. Trata-se de um valor que o país não registava desde 2009 e que deixa antever uma subida da taxa de desemprego (9,5% em Julho).
Resta saber porque as empresas não estão dispostas a contratar pessoas. Alguns, sobretudo em Wall Street e no sector da saúde, apontam para a regulamentação mais exigente com o plano Medicare, que pretende alargar a cobertura médica ao maior número das pessoas, e à reforma Volcker, que deverá enquadrar melhor o sistema financeiro. Acrescentam ainda a necessidade de sanear as despesas públicas, que poderá implicar um aumento da carga fiscal.
Esta conjuntura incerta é, por isso, pouco favorável à tomada de risco, ao investimento e à criação de emprego.
Produção encontra-se a meio-gás
Embora a incerteza a nível legislativo e fiscal possa influenciar bastante a atitude prudente das empresas, alguns indicadores apresentam uma realidade mais relevante: em Julho, a taxa de utilização das capacidades industriais americanas encontrava-se nos 74,9%, muito abaixo da média de 80,6% registada entre 1972 e 2009.
A indústria americana está claramente em subprodução e mesmo a continuação de uma retoma morosa permitiria, pelo menos, aumentar a utilização das capacidades instaladas.
Quanto a uma eventual necessidade de investimento para gerar novas capacidades, com o objectivo de responder a uma procura crescente, ainda não está no horizonte, porque o consumo mantém-se reduzido e o actual nível de procura não a justifica.
Economia num círculo vicioso
A economia americana parece estar presa num círculo vicioso. Conscientes das dificuldades no mercado de trabalho e do endividamento acumulado na última década, as famílias optam pela prudência. Perante a fraca progressão do rendimento disponível (+0,4% face há um ano no segundo trimestre) e o agravamento das condições de concessão de crédito, não têm outra escolha.
Porém, na ausência de um forte retorno da procura, as empresas não vão recrutar funcionários. Assim, quer seja num cenário de fraca retoma ou de ligeira contracção, a economia americana arrisca-se a voltar a desiludir.
A Bolsa americana não está cara, mas recomendamos grande selectividade nos seus investimentos do outro lado do Atlântico, porque os riscos da retoma nos Estados Unidos continuam presentes.




