Dívida pública

Data da publicação: 08/02/2010

Grécia foi a primeira vítima, mas o problema poderá contagiar países como Portugal e Espanha

O problema da dívida pública atingiu a zona euro. A Grécia foi a primeira vítima, tendo de pagar muito mais pelas obrigações emitidas. Contudo, o problema poderá contagiar outros países, tal como Portugal e a Espanha. Os governos desses países já vieram anunciar medidas que visam reduzir os elevados défices nos próximos anos.

Crescimento do crédito
Na Grécia, tal como em Portugal, o crescimento dos últimos anos baseou-se na procura interna. Nos Estados Unidos, o consumo predomina e representa 71% do produto interno bruto (PIB). Na Grécia equivale a a 74% do PIB, em Portugal 66% do PIB, face a uma média europeia de 56 por cento. Para atingi-lo, as famílias destes dois países diminuíram a poupança e não hesitaram em se endividar.

Graças à entrada na zona euro, a Grécia e Portugal conseguiram taxas de juro muito baixas, incentivando as famílias a investir massivamente no imobiliário e a multiplicar as compras a crédito. Com a falta de poupança, os bancos locais procuraram no estrangeiro financiamento para obter os créditos a nível nacional. E tendo em conta a competitividade dos produtos locais, o dinheiro emprestado deve-se sobretudo aos produtos importados.

A Grécia e Portugal atingiram défices orçamentais altos, perto de 10% do PIB – em Portugal estima-se 9,3%, em 2009, e uma baixa para 8,3%, em 2010, que ainda assim são valores insustentáveis.

O segundo motor de crescimento: o imobiliário. Beneficiando dos apoios da União Europeia, os países do sul optaram pela aposta na construção e nas obras públicas. O crescimento através destes projectos impulsionou o imobiliário desde 2004.

Estes dois países investiram massivamente em infra-estruturas para organizar os Jogos Olímpicos de Atenas de 2004 ou o campeonato da Europa de futebol em Portugal no mesmo ano. Investimentos cujo retorno foi bastante duvidoso.

Economias pouco competitivas
Embora o crescimento dos últimos anos se deva à procura interna, a competitividade recuou nos últimos anos. Nos anos 1980, ambos os países eram competitivos face aos parceiros europeus graças aos baixos salários. Contudo, o alargamento a Leste trouxe uma nova realidade.

Dada a baixa competitividade face aos recém-chegados, como os países asiáticos, as regras do jogo mudaram no comércio mundial e também foram prejudicados pela “força” do euro. Focalizados nos produtos de baixo valor acrescentado, o seu tecido industrial deteriorou-se rapidamente e mesmo sectores como o turismo sofrem da concorrência acrescida da Turquia e do Norte de África.

Dentro da zona euro, a competitividade foi igualmente afectada. Tendo em conta os ganhos de produtividade, os custos subiram mais do que na Alemanha na última década. Não sendo possível desvalorizar a moeda, como faziam no passado, para compensar as perdas face à indústria alemã, Grécia e Portugal não se conseguem manter competitivos no mercado único e estão à beira da estagnação económica.

As soluções são, no mínimo, penosas. Ou os ganhos de produtividade aumentam e superam a média europeia – pouco provável, pois a aposta na inovação é muito maior nos países do Norte –, ou a resposta terá de passar por salários mais baixos para aumentar a competitividade.

Trata-se de um caminho difícil porque implica uma perda do poder de compra durante vários anos e provavelmente irá lançar a economia numa depressão. O ajustamento será complexo e, sobretudo, impopular. Tal como no passado, poderão voltar a ser países de emigração.

A reter
É irrealista pensar que a Grécia ou Portugal deixem a zona euro, o que salvou ambas as economias de uma crise financeira de grande amplitude. Tal decisão implicaria uma hecatombe económica e financeira com efeitos muito duradouros.

Assim, irão continuar na zona euro e serão sustentados pelas instituições europeias, embora isso implique alguma perda de autonomia nas questões de soberania relativamente às políticas orçamental e fiscal, que passarão ser ditadas a partir de Bruxelas. Outros países, como a Espanha, onde o endividamento é menor, partilham alguns problemas com Portugal e a Grécia, embora o peso da sua economia seja bastante superior.

Não acreditamos que a Grécia não cumpra com os seus compromissos financeiros. Contudo, as dificuldades implicarão taxas de juro mais elevadas e a credibilidade da zona euro será afectada. Se bem que as taxas possam vir a subir a médio/longo prazo, pode investir como forma de diversificação.

No entanto, preferimos o investimento em títulos de países pouco endividados tais como a Austrália.

-->