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Sustentabilidade têxtil: o País está preparado? A opinião de Ana Luísa Braga

João Ribeiro

Ana Luísa Braga, especialista da DECO PROteste em sustentabilidade, analisa as debilidades das medidas legislativas e da realidade nacional para combater o desperdício e a pegada ambiental do vestuário que usamos e descartamos.

Desde julho de 2026, as grandes empresas na União Europeia estão proibidas de destruir vestuário e calçado não vendidos, ao abrigo do Regulamento do Ecodesign para Produtos Sustentáveis. Embora meritória para combater o desperdício e a pegada ambiental do setor, a medida falha por ser isolada: faltam infraestruturas de reciclagem à escala industrial, um mercado consolidado para matérias recicladas e a efetiva Responsabilidade Alargada ao Produtor (RAP) para a gestão dos têxteis e dos seus resíduos. Há um claro desfasamento temporal: a proibição já vigora em 2026, mas a operacionalização do regime da RAP só está prevista para o início de 2028 (e pela nossa experiência, tem tendência a atrasar).

Sem o financiamento dos produtores assegurado pela RAP, o ónus financeiro da recolha seletiva recai inteiramente sobre os municípios (que já têm esta obrigatoriedade desde 2025). Como não têm capacidade para suportar sozinhos todos os custos operacionais, a recolha de têxteis não se verifica em todo o território nacional, resultando numa taxa de recolha seletiva de apenas 15% em 2025.

Ao mesmo tempo, as organizações sociais sofrem com a saturação dos canais de doação e o aumento dos custos logísticos — a Humana, por exemplo, que em 2025 conseguiu recolher quase 4000 toneladas de vestuário usado, referiu certas dificuldades e a necessidade de retirar centenas de contentores da via pública para manter a viabilidade financeira do seu processo. Até à implementação da RAP no setor têxtil, o que acontece a todas as peças de roupa que sobram?

Para além de outras iniciativas nacionais já existentes para tentar dar resposta a este problema, destacam-se duas mais recentes. A Unidade Piloto de Triagem de Têxteis (UPTT) da LIPOR, apresentada em setembro de 2025 no âmbito do projeto Be@T (Bioeconomia para o Têxtil e Vestuário), é a primeira infraestrutura piloto de triagem automatizada no país, capaz de separar 14 categorias de materiais por composição e cor (capacidade inicial para processar 50 toneladas/ano). E o projeto Gestão Têxtil Circular, promovido pela APED e assente num acordo voluntário com a APA e o Ministério do Ambiente e Energia (março de 2026), para testar a recolha de têxteis pós-consumo em lojas, assim como avaliar soluções para a triagem e reciclagem de resíduos têxteis em Portugal.

No entanto, continua a faltar um dos pilares fundamentais para se fechar o ciclo das peças de vestuário: uma infraestrutura industrial de reciclagem ‘fibra-a-fibra’ em larga escala. Atualmente, menos de 1% dos têxteis usados na UE são de facto reciclados em novas peças de roupa. As razões para que esta taxa de reciclagem seja tão baixa prendem-se com a falta de aplicação de conceitos de ecodesign, a complexidade e mistura dos materiais usados, as limitações tecnológicas para a separação destas misturas de fibras (por exemplo, por reciclagem química, que tem custos mais elevados) e o facto de as fibras recicladas serem mais caras do que a matéria-prima virgem. O ganho de escala dependerá de um forte investimento, necessário para que as fibras recicladas sejam mais competitivas e preferíveis no mercado.

Por fim, a ecomodulação das taxas da RAP será determinante: deve bonificar as marcas que apostam em peças com qualidade, duráveis, reparáveis e facilmente recicláveis ou com material reciclado. E penalizar as que têm um modelo de negócio de fast fashion, tendo em conta indicadores como a sobreprodução, volatilidade, volume e frequência de coleções lançadas no mercado, e o fabrico de peças de baixa durabilidade. É claro que os hábitos de consumo dependem muito dos consumidores, mas se tiverem acesso a escolhas mais sustentáveis e forem incentivados a isso, a mudança acaba por acontecer.