Primeiras impressões

FairPhone: o primeiro telemóvel com preocupações éticas

21 março 2014 Arquivado

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Anuncia-se justo em relação aos direitos laborais e ao meio ambiente. Ainda não preenche todos os requisitos éticos, mas compromete-se a melhorar.

Características éticas

Nos últimos anos, a indústria de smartphones foi chamada a responder a uma série de medidas impostas por organizações internacionais. Principais questões éticas: o uso de metais e minerais (como estanho, tântalo e tungstênio), na maioria originários do Congo, onde o controle sobre as minas é exercido por milícias, através de violência e exploração; subcontratação da produção em países de baixo rendimento, em especial na Ásia, onde é difícil controlar o respeito pelos direitos dos trabalhadores; e impacto ambiental das políticas da matéria-prima usada e políticas desadequadas para reciclar equipamento. Agora surge a FairPhone, que faz do respeito por estas questões a sua bandeira. Mas será realmente assim?

Não é 100% "justo", mas já mudou alguma coisa
Em teoria, a FairPhone garante as mesmas condições sociais e ambientais de outros grandes fabricantes, como a Apple e a Samsung. A principal diferença da FairPhone é concentrar-se sobretudo nesses valores e na sua razão de ser. Primeiro, ao valor do telemóvel é alocado um valor fixo para programas sociais e ambientais, com a promessa de melhoria contínua na cadeia de produção.

Nos custos fixos, o dinheiro é utilizado para melhorar essas condições, com o objetivo de empurrar toda a indústria na direção de uma mudança positiva. O objetivo original da FairPhone tem um valor fundamental: aumentar a consciencialização dos consumidores no que diz respeito a questões éticas, mesmo quando se trata de smartphones. Para lançar alguma luz sobre a complexidade da cadeia de produção destas joias da eletrónica e provar que é possível conseguir uma alternativa mais equitativa.

Começar a ser ético na... China?
O FairPhone é fabricado na China, na empresa A' Hong, em fábricas nas cidades de Shenzhen e Chongqing. A empresa contratou a produção em países de baixo custo, mas a seleção terá sido feita obedecendo a um conjunto de critérios rigorosos: compreensão e adesão aos valores FairPhone, compromisso com a melhoria contínua das práticas, diálogo com trabalhadores, transparência em todas as fases de produção, utilizando matérias-primas não proveniente das áreas de conflito e exploração e garantindo um excelente produto. A FairPhone avaliou todos estes aspetos antes de começar a produção, colaborando com uma organização local chinesa, a TAOS Network. Desta forma, foi possível realizar uma avaliação social e inserir algumas mudanças fundamentais: implementar políticas de proteção (contra o trabalho infantil e juvenil, por exemplo), melhorar as condições de segurança e de prevenção de incêndios, garantir a iluminação em áreas de trabalho ou a introdução de almoço grátis para os funcionários.

Dos € 325 finais do FairPhone, € 22 destinam-se a garantir e melhorar os padrões éticos de produção.

Matéria-prima "responsável"
O fornecimento de estanho e titânio só ocorre em zonas da República Democrática do Congo livres de conflitos. A FairPhone aderiu a programas como a Conflict Free Tin Initiative (CFTI) e a Solutions for Hope, e já está a trabalhar para, no futuro, integrar versões que irão garantir materiais mais “éticos”, tais como o cobre e o cobalto.

Feito com cuidado
A FairPhone está a realizar um estudo sobre os salários na sua área de produção, para se certificar de que os trabalhadores recebem um salário decente para viver, e não apenas o salário mínimo.

Fundo para os trabalhadores
A FairPhone criou um fundo para os trabalhadores, geridos pelos mesmos: por cada telefone vendido, € 1,93 são canalizados para este fundo para beneficiar os cerca de 1000 trabalhadores. Formação, atividades de lazer e desenvolvimento pessoal, entre outros, são iniciativas decididas por trabalhadores eleitos entre os seus pares.

Impacto ambiental
A empresa realiza programas de reciclagem de lixo eletrónico dos aparelhos para não prejudicar a saúde e o meio ambiente. As sobras são reencaminhadas para o Gana, uma forma de ajudar a economia local, em cooperação com a organização holandesa Closing the Lop (CTL). Estes resíduos são recuperados pela FairPhone e reciclados de acordo com padrões elevados de qualidade pela Umicore, uma organização europeia reconhecida. Parte do valor resultante da primeira fase de vendas do FairPhone é canalizado para a compra de telemóveis em fim de vida à CTL, o que permite reciclar e reutilizar minerais sem desperdiçar ou prejudicar o ambiente.

Transparência
Para o ser, o sítio divulga, não só o preço e a sua estrutura, mas também a lista de fornecedores e relatórios sobre as condições de trabalho na empresa de produção chinesa. O blog da FairPhone é atualizado constantemente com dados e fotos e qualquer utilizador pode fazer perguntas ou comentários.

Pontos fracos
Um pouco dececionante é a descrição pouco detalhada dos custos de produção. Em contrapartida, comunica, no sítio, as condições de princípio em relação aos salários e horas de trabalho. Os trabalhadores gozam, no mínimo, de um dia de descanso por semana e não trabalham mais do que 60 horas em 6 dias. É demasiado face ao limite legal de 49 horas, na China, mas inferior à média do setor e dentro dos limites definido pelo ETI (Ethical Trading Initiative), um código de conduta ética de aplicação internacional pelas empresas. O salário mínimo (€ 122 por mês) e as horas extras devem ser pagas. É ainda o ponto de partida mínimo, que a empresa afirma estar disposta a melhorar ao longo do tempo.