Notícias

Reparar telemóveis e tablets é missão quase impossível

Fizemos um teste prático e concluímos que a grande maioria dos telemóveis e tablets envolve uma reparação difícil, o que força os consumidores à solução mais simples: comprar novo.

  • Dossiê técnico
  • Pedro Mendes e Sofia Costa
  • Texto
  • Inês Lourinho
09 dezembro 2020
  • Dossiê técnico
  • Pedro Mendes e Sofia Costa
  • Texto
  • Inês Lourinho
Telemóvel aberto, em bancada de trabalho, a ser reparado com chave de parafusos

iStock

O telemóvel caiu, e o vidro do ecrã estilhaçou-se? A bateria deixou de funcionar, impedindo a utilização do aparelho? Os dois cenários refletem as avarias mais frequentes em telemóveis e, já agora, em tablets. Em ambos os casos, a substituição das peças danificadas seria o caminho mais evidente, para evitar que equipamentos ainda funcionais fossem descartados e contribuíssem para adensar o volume de resíduos eletrónicos com que o planeta tem de lidar. Mas, como pudemos verificar com um teste prático, os fabricantes concebem os equipamentos de modo que o acesso às peças se converta numa missão quase impossível. 

Denuncie avarias prematuras com a nossa ferramenta

Pouca informação para reparar telemóveis e tablets

Disponibilidade de peças e informações com os passos a dar são de importância central para que a intervenção se revele bem-sucedida. Mas indicações sobre as peças, que permitam encontrá-las facilmente, seja numa loja especializada, seja na internet, nem sempre são fornecidas. Como contornar o obstáculo? Por exemplo, na net, pode pesquisar a bateria com base na voltagem, na capacidade, na potência ou no tipo de conexão. Já para o vidro do ecrã, pode incluir o nome do aparelho que sofreu o acidente. E, nos dois casos, não se esqueça de juntar à pesquisa palavras-chave como “peças de substituição” ou “spare parts”, no último caso para encontrar também lojas internacionais. Ao analisar os resultados devolvidos pela busca, procure saber se os componentes encontrados são de origem ou não, ainda que nem sempre seja fácil.

E, se pouca informação é disponibilizada sobre as peças, o mesmo se aplica às instruções para proceder à reparação. A Apple e a Samsung até têm alguns vídeos na net, mas não estão direcionados para o comum mortal. Mesmo assim, pode tentar a pesquisa de tutoriais no YouTube. Não foram produzidos pelas marcas, mas isso não lhes retira utilidade.

Trocar o vidro do ecrã ou a bateria pode levar mais de 20 minutos

Agora, que já tem a informação para remover o vidro do ecrã ou transplantar nova bateria para o aparelho inanimado, é hora de pôr mãos à obra. E, antes de começar, nada como ter uma ideia de quanto vão demorar estas delicadas cirurgias. O telemóvel Fairphone 3 é exemplar, provando que, se as marcas assim o desejarem, podem conceber produtos fáceis de reparar, contribuindo para uma menor pegada ecológica. Desmontar o vidro do ecrã – a operação mais delicada – levou-nos, neste caso, pouco menos de dois minutos. Já o telefone da Motorola exigiu quase 22 minutos de empenho. Mais uma prova? Remover a bateria do Fairphone gastou um ápice de 20 segundos. No Motorola, a tarefa envolveu quase 18 minutos e um par de mãos treinadas.

Mas, se pensa que os aparelhos topo de gama podem facilitar-lhe a vida, esqueça a ideia. O Samsung Galaxy Z Flip, modelo dobrável, com preço que começa encostado aos 1000 euros, levou à volta de 10 minutos em ambas as operações. Claro que estes tempos podem ser largamente ampliados nas mãos de alguém mais inexperiente.

Um conselho final: a bateria de um dispositivo móvel é, no geral, solidamente fixada, exigindo a aplicação de calor ou o recurso a objetos afiados para que seja removida. Se perfurada por acidente, pode inclusive explodir, sobretudo se for de lítio, como é o caso de todos os smartphones e tablets.

Por isso, alguns telemóveis trazem uma película fina, uma lingueta, entre a bateria e a superfície onde é colada. Basta puxá-la, para retirar a camada adesiva com facilidade. Trata-se de uma boa solução, mas esta película tem de ser substituída ao mesmo tempo que a bateria. Pena é que não seja prevista no caso dos tablets.

Consumidor obrigado a comprar novo

O índice de reparabilidade que construímos é eloquente. Bem destacado, à frente, com 93 pontos em 100 possíveis, posiciona-se o Fairphone 3. O tablet Huawei MediaPad M5 Lite ainda consegue uma classificação razoável, de 52 pontos, sobretudo devido à facilidade de abertura do aparelho e de troca do ecrã. Atrás, fica um extenso rol de lamentáveis pontuações.

E que pode fazer o consumidor? À partida, faz sentido escolher o equipamento consoante a facilidade de substituir o vidro do ecrã ou a bateria. Mas nem sempre uma maior facilidade vem associada a uma boa Qualidade Global. Ainda que excelente na reparabilidade, o Fairphone 3 tem apenas 49% nos nossos testes em laboratório, marca abaixo do limiar do razoável. E o preço, que começa próximo dos 340 euros, não é tão acessível quanto isso. A título de comparação, o Xiaomi Redmi Note 8 T, que é Escolha Acertada, tem Qualidade Global de 66% e custa desde 120 euros, se arredondarmos os valores. A reparabilidade é de apenas 42 pontos, mas, ao pôr as contas na ponta do lápis, não há grandes dúvidas de que é melhor negócio.

Portanto, ao consumidor, pouco mais resta do que sujeitar-se às regras do jogo definidas pelas marcas. Já a nós cabe continuar a denunciar estas práticas que dificultam ao máximo a reparação, acabando por obrigar à substituição prematura dos equipamentos. O planeta agradeceria um comportamento mais responsável.

Fairphone: um exemplo a seguir

Desenhado de forma a ser facilmente reparado, é o único aparelho que não suspende a garantia se o consumidor tentar a sua sorte. Pelo contrário, tem um manual de instruções acessível e permite a substituição do vidro do ecrã e da bateria num abrir e fechar de olhos. A primeira operação exige apenas uma chave Phillips PH00, que é fornecida de origem. Já a troca da bateria não envolve ferramentas.

Outro exemplo de sustentabilidade a aplaudir é a possibilidade de atualizar a câmara apenas com a compra de um módulo e de software especial, um pack que custa 70 euros. Assim, quem tem o Fairphone 3 não precisa de deitá-lo para o lixo e comprar o modelo 3+, mais sofisticado. Só tem de trocar o referido módulo. A Fairphone é a única marca que prevê uma tal atualização.

Ferramentas de reparação a comprar

Minúcia é o lema da operação. Os parafusos usados nestes equipamentos são minúsculos. Separar dois componentes também requer precisão e delicadeza. Por isso, a escolha das ferramentas é vital. Conte com uns 40 euros para constituir o kit necessário às reparações. Se lhe apanhar o jeito, pode até usá-lo noutras reparações, fazendo render o investimento. A lista de ferramentas exigidas é igual para os modelos de uma mesma marca.

 

 
Chave proprietária da Apple Com a extremidade cruciforme, tem a profundidade certa para segurar os parafusos do iPhone. Custa cerca de 5 euros.

 

 
Chave Philips PH00 Anda à volta dos 5 euros, mas, por vezes, ferramentas básicas deste tipo são fornecidas com uma peça de substituição, como uma bateria. Verifique se vale a pena comprar tudo ao mesmo tempo.

ferramentas 3

Pinça Ferramenta indispensável para segurar os parafusos mais pequenos.

ferramentas 4

Espátula para abrir No caso dos equipamentos Xiaomi e OnePlus, deve ser em metal. Muito fina, desliza entre o ecrã e a moldura do aparelho, para separá-los. Custa 6 a 7 euros.

ferramentas 5

Ventosa Algumas permitem fazer uma pressão mais intensa. Outras vêm no formato de pinça, para aplicar pressão nos dois lados do aparelho. Um par do modelo que apresentamos custa 10 euros.

ferramentas 6

Palhetas de guitarra Muito práticas, mas poderão ficar inutilizadas após a reparação, devido ao calor aplicado. Uma dúzia custa 5 euros.
 
Chave pentalobe Semelhante à chave de torx, com a extremidade em estrela de cinco pontas, destina-se aos aparelhos da Apple. Custa 5 euros.
 
Alavancas Em plástico ou metal, introduzem-se entre dois elementos, para separá-los. São fabricadas para se partirem antes que o componente onde vão ser usadas se quebre. Custam 3 euros.

ferramentas 9

Gel Leve-o a aquecer durante 30 segundos no micro-ondas. “Almofada” útil para aplicar calor ao substituir o vidro de um ecrã.

 

Faça login no site para obter mais informações sobre o teste prático de reparabilidade. 

Se ainda não tem conta no site, clique no botão abaixo para se registar e conhecer todas as vantagens.

Junte-se à maior organização de consumidores portuguesa

Num Mundo complexo e com informação por vezes contraditória, a DECO PROTESTE é o sítio certo para refletir e agir.

  • A nossa missão exige independência face aos poderes políticos e económicos. 
  • Testamos e analisamos uma grande variedade de produtos para garantir que a escolha dos consumidores se baseia em informação rigorosa. 
  • Tornamos o dia-a-dia dos consumidores mais fácil e seguro. Desde uma simples viagem de elevador ou um desconto que usamos todos os dias até decisões tão importantes como a compra de casa.
  • Lutamos por práticas de mercado mais justas. Muitas vezes, o País muda com o trabalho que fazemos junto das autoridades e das empresas. 
  • Queremos consumidores mais informados, participativos e exigentes, através da informação que publicamos ou de um contacto personalizado com o nosso serviço de apoio.

A independência da DECO PROTESTE é garantida pela sustentabilidade económica da sua atividade. Manter esta estrutura profissional a funcionar para levar até si um serviço de qualidade exige uma vasta equipa especializada.

Faça parte desta comunidade. Registe-se para conhecer todas as vantagens, sem compromisso. Subscreva em qualquer momento.

 

Junte-se a nós


 

 

O conteúdo deste artigo pode ser reproduzido para fins não-comerciais com o consentimento expresso da DECO PROTESTE, com indicação da fonte e ligação para esta página. Ver Termos e Condições.