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Colunas inteligentes falham no reconhecimento de voz

Não entendem (o nosso) português, embora registem e ouçam o que dizemos em privado. Algumas custam cerca de € 60, outras beiram os 450 euros.

  • Dossiê técnico
  • José Almeida e Pedro Mendes
  • Texto
  • Inês Lourinho
05 setembro 2019
  • Dossiê técnico
  • José Almeida e Pedro Mendes
  • Texto
  • Inês Lourinho
colunas inteligentes

iStock

As colunas mais não são do que caixas-de-ressonância das vozes do mestre (o utilizador) e do seu servo (o assistente). Para usá-las, é necessário emparelhá-las com o smartphone ou com o tablet. O processo é simples, uma vez que as colunas e os telemóveis estão dotados de ligação bluetooth, e que as primeiras se conectam à rede wi-fi do local onde são instaladas, mas pode exigir a introdução de uma palavra-passe. Depois de selecionar o idioma e configurar a voz do utilizador, é só dar gás à relação entre mestre e servo.

Alexa, da Amazon, Google Assistant, claro, da Google, e Siri, da Apple, são os três assistentes utilizados por todas as colunas inteligentes que testámos. A Samsung tem o Bixby e a Microsoft o Cortana, mas apenas adaptado a computadores.

Pesquisas na internet, referenciação de localidades no mapa, leitura da meteorologia, captura de fotografia ou vídeo, reprodução de música ou de vídeos, por exemplo, no YouTube, são algumas das possibilidades destes equipamentos. Tudo a um comando de voz. Alguns vão mais longe e permitem operações como controlar o aparelho de ar condicionado ou a iluminação da divisão onde estão instaladas.

Aquilo que as colunas podem fazer por nós já surpreende. Mas ainda não fazem tostas mistas, longe disso. Como notaram os técnicos que conduziram o teste em laboratório, pode ser enervante repetir comandos diversas vezes e receber respostas disparatadas até a coluna acertar... ou não. O reconhecimento de voz tem grande margem para melhorar. Todos os algoritmos têm dificuldade em compreender palavras estrangeiras, e alguns mesmo aquelas que compõem a sua língua de trabalho. Sendo o reconhecimento de voz um conceito central neste tipo de tecnologia, estamos bem longe da perfeição.

Colunas sempre ligadas e a gravar conversas

Conectadas à rede wi-fi doméstica 24 horas por dia, sete dias por semana, as colunas estão sempre a ouvir aquilo que dizemos. Se é um rigorista da privacidade, trata-se de um argumento definitivo para rejeitar este tipo de equipamentos. Até porque o escândalo tem vindo a rebentar em episódios, como numa grande novela. A imprensa belga noticiou no princípio de julho que colaboradores da Google ouvem excertos de gravações operadas com as colunas dotadas do seu assistente de voz. Caçada na contracurva, a gigante tecnológica desculpou-se com a necessidade de melhorar o reconhecimento de voz e, assim, a execução das ordens dadas às colunas.

Muitos desconhecem que todas as ordens são gravadas. Para ativar o Google Assistant, é preciso dizer “OK, Google” (ou “Hey Siri”, na Apple). Mas, por vezes, se for proferida uma palavra idêntica a “Google”, o equipamento começa a gravar. Conversas íntimas, discussões entre pais e filhos ou detalhes sobre negócios podem, assim, ficar registados.
Embora a Google não ouça em direto, fá-lo a posteriori. É certo que diz eliminar todos os elementos que possam identificar os “donos” das vozes: por exemplo, o nome de utilizador é substituído por um número de série. Mas esta medida nem sempre basta para manter o anonimato dos utilizadores. Os colaboradores da Google que ouvem os excertos têm de pesquisar cada palavra, cada morada ou cada empresa para encontrarem a ortografia correta. Portanto, podem descobrir quem emitiu as ordens.

E, se depararem com situações de violência, como devem agir? Não há regras. Mas, segundo a norte-americana Bloomberg, que em abril já tinha entrevistado colaboradores da Amazon a operarem a partir da Roménia, a empresa instrui quem para ela trabalha a nada fazer, por não ser assunto seu. Sim, a Google não está sozinha nesta invasão de privacidade: foi a segunda empresa a ser descoberta a prevaricar. Em janeiro, surgiram as primeiras acusações, dirigidas ao assistente Alexa, que equipa os dispositivos da Amazon. A empresa contrata indivíduos em países como EUA, Costa Rica, Índia ou Roménia para estarem à escuta.

Sem surpresa, também o Siri foi exposto. O jornal britânico The Guardian noticiou em finais de julho que os colaboradores contratados pela Apple acedem a informação médica confidencial, negócios associados a droga e gravações de indivíduos a manterem relações sexuais. De novo, a desculpa é melhorar o reconhecimento de voz...

O reconhecimento de voz está longe da perfeição, é um facto. Mas deverá melhorar com o sacrifício da privacidade dos utilizadores? Mais: será este o único propósito da recolha? Tudo o que as empresas fazem realmente com as gravações permanece um mistério. Perguntámos-lhes se eliminavam as gravações de voz associadas às pesquisas. A Apple enviou-nos um grande ficheiro contendo vários ficheiros Excel, o qual incluía as ordens que demos no âmbito do teste, garantindo que iria eliminar o material. A Google também nos enviou um ficheiro, mas onde não pudemos localizar as nossas ordens. A Amazon nem se deu ao trabalho de responder.

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