Notícias

Apps de saúde, bem-estar e atividade física são fiáveis?

Início

Há aplicações móveis gratuitas que medem com rigor a atividade física e garantem a segurança e a privacidade dos dados. Na usabilidade, revelam-se, pelo menos, satisfatórias, mas, nos parâmetros de saúde, não são de fiar.

16 fevereiro 2022
mãos seguram telemóvel com dados de saúde no ecrã

iStock

Número de passos, velocidade, distância, ritmo cardíaco, níveis de oxigénio no sangue, controlo do ciclo menstrual, monitorização do sono... Nos últimos anos, têm surgido dispositivos eletrónicos de uso pessoal que medem inúmeros parâmetros biológicos e comportamentais. Estamos na era da chamada mHealth (saúde móvel) e do quantified self (autoquantificado, numa tradução livre): aparelhos de uso diário, como smartphones, smartwatches e pulseiras de fitness, e as aplicações que integram, permitem a automonitorização constante de aspetos de saúde e hábitos de vida.

Medições de saúde não são para levar à letra

O objetivo destes apetrechos, dizem os fabricantes, é promover comportamentos saudáveis e reduzir o risco de doenças crónicas, como problemas cardiovasculares e diabetes. Será que conseguem? Uma revisão de estudos, realizada em 2019, indica que a contribuição de tais dispositivos para prevenir doenças crónicas é muito reduzida. No que se refere à promoção da atividade física, a evidência não é clara: os estudos que incluem wearables, como relógios inteligentes e pulseiras fitness, mostram que as apps têm pequeno a médio efeito no incremento do número de passos diários e da atividade física semanal, moderada a intensa. Nos utilizadores sedentários ou com atividade ligeira, parecem não ter qualquer impacto.

Conheça os melhores locais para treinar ao ar livre

Mas cada caso é um caso, pelo que, se vê vantagens nos referidos registos, não há mal em usar, desde que interprete as medições relativas à saúde como indicativas. Na Europa, estas apps não são dispositivos médicos, não estão certificadas por nenhuma autoridade de saúde, nem servem para fazer diagnósticos. As medições de saúde devolvidas pelas ferramentas, além de pouco fiáveis, exigem interpretação, porque os valores “normais” dos parâmetros podem variar de pessoa para pessoa, e consoante a situação. Por exemplo, num momento de maior ansiedade, o ritmo cardíaco pode aumentar, sem que haja problema algum. Quando muito, o utilizador pode ir registando as medições e, se tiver dúvidas ou curiosidade, falar com o médico, quando for à consulta.

Em relação à atividade física, o nosso teste a 21 aplicações gratuitas revela que algumas são bastante rigorosas, sobretudo a contabilizar passos e distâncias. 

21 apps com muitas funcionalidades, mas nem sempre fáceis de usar

Testámos as aplicações mais descarregadas pelos portugueses para Android e iOS. No geral, são bastante ricas em parâmetros de saúde e de fitness. Do ritmo cardíaco à saturação do oxigénio no sangue, passando pelo controlo do sono e pelo seguimento do ciclo menstrual, têm de tudo um pouco. Já em relação aos desportos, têm menos oferta, sendo que o mais comum é incluírem corrida/caminhada e bicicleta. As mais completas permitem medições enquanto se usa a passadeira, treino cardiovascular e de força, entre outros.

A facilidade de utilização não é o ponto forte de algumas apps. Apenas a Samsung Health, em ambas as plataformas, proporciona excelente experiência aos utilizadores. Em certos casos, os interfaces são complicados – por vezes, com demasiadas opções –, sobretudo para quem está a dar os primeiros passos nestas áreas.

No que respeita à medição das prestações físicas, a maioria das apps teve bom desempenho. Na contagem dos passos, tivemos desvios de 2%, em média. Para a distância, o erro médio foi de 4,4% e, para a velocidade ou o ritmo, revelou-se bem mais elevado: 9,4 por cento.

Como verificámos o rigor das medições

Um praticante fez um treino de cinco minutos, percorrendo cerca de um quilómetro. No trajeto, usou um telemóvel com a app em teste, um contador de passos calibrado e um cronómetro. Comparámos as medições registadas na app com as dos outros aparelhos. No caso do ritmo, fizemos os cálculos tendo em conta o número de passos, a distância percorrida e o tempo.

Os resultados agora obtidos no telemóvel são idênticos aos que registámos no teste a smartwatches e pulseiras de fitness, que apresentam erros da mesma grandeza. Face às últimas, o smartphone tem a vantagem da presença de GPS, que ajuda nas medições. O problema é ser pouco prático ou impossível de usar nalguns desportos, como a natação.

Privacidade e segurança sem problemas

O uso de equipamentos eletrónicos com ligação “ao mundo” gera sempre alguma preocupação quanto à privacidade dos dados, nomeadamente no que toca à sua transmissão a terceiros, com objetivos comerciais. No caso das apps analisadas, o problema é ainda mais sério, porque incluem dados muito sensíveis, como os associados à saúde. 

Fizemos o teste e concluímos que não há problemas graves: a maioria faz uma boa gestão da segurança, com destaque para a Google Fit e para a Garmin Connect, em ambas as plataformas, e para a Apple Health. Os programas que obtiveram três estrelas transmitem alguns dados, mas pouco sensíveis, como o nome da operadora de telecomunicações ou da rede a que o telemóvel está ligado.

 

O conteúdo deste artigo pode ser reproduzido para fins não-comerciais com o consentimento expresso da DECO PROTESTE, com indicação da fonte e ligação para esta página. Ver Termos e Condições.