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Relacionamentos na internet: que cuidados deve ter

A internet e as redes sociais são terreno fértil para esquemas fraudulentos. Com cada vez mais pessoas a recorrer a sites e apps de encontros, é preciso estar alerta para evitar dissabores.

14 fevereiro 2022
apps de dating

iStock

Muitos utilizadores viraram-se para as redes sociais e para as apps ou sites de encontros para encontrar uma cara-metade. Mas conhecer pessoas através de um ecrã não está isento de riscos. Há cada vez mais criminosos que procuram estas plataformas com o objetivo de burlar utilizadores mais vulneráveis e que, através de perfis falsos, tentam estabelecer um vínculo emocional com as suas vítimas para lhes pedir dinheiro assim que conquistam a sua confiança.

Os números são preocupantes. Uma em cada quatro pessoas já foi enganada em sites de encontros online ou redes sociais e 25% já perderam dinheiro com esquemas fraudulentos nestas plataformas. Os dados são da Global Anti Scam Alliance (GASA), organização não-governamental que se dedica à proteção dos consumidores contra esquemas fraudulentos na internet, que acaba de divulgar os resultados de um inquérito internacional a 1829 pessoas, de 140 países.

A maioria das pessoas que respondeu ao inquérito é do sexo masculino (71%), solteira (61%), com formação universitária (55%) e com idades entre os 18 e os 35 anos, e relata que embora o contacto com os burlões se tenha iniciado numa plataforma de dating, continuou através de redes sociais ou apps de messaging, sobretudo no Facebook e no WhatsApp.

O perigo espreita em todas as plataformas

De acordo com o estudo, a quantia média perdida pelas vítimas é 200 dólares (cerca de 175 euros), mas há quem tenha perdido mais de 1,2 milhões de dólares (cerca de um milhão de euros) com estes esquemas, com os inquiridos do sexo masculino a reportarem ter perdido três vezes mais dinheiro que as mulheres. Enquanto as vítimas do sexo feminino perderam, em média, 5031 dólares (cerca de 4398 euros), os homens perderam, em média, 18 353 dólares (cerca de 16 044 euros).

Já entre os esquemas mais comuns estão os perfis falsos, com o interlocutor a fazer-se passar por alguém que não é, esquemas que envolvem o investimento em sites de trading, extorsão sob ameaça e pedidos de dinheiro inesperados para poder manter o contacto com o interlocutor, por exemplo, para poder aceder a determinadas mensagens. A maioria dos participantes no estudo revela ter usado, sobretudo, três sites ou apps de dating nos últimos 12 meses, mas ao todo são referidas mais de 300 plataformas diferentes onde as burlas terão ocorrido. As mais mencionadas pelas vítimas são as plataformas de encontros AdultFriendFinder, Badoo, Tinder, match.com e Tantan, mas também as redes sociais ou plataformas de messaging Facebook, Instagram, Telegram e TikTok.

37% das vítimas não reportam os esquemas

Os dados da Global Anti Scam Alliance mostram também que mais de um terço (37%) dos esquemas relacionados com relacionamentos em sites e apps de dating e redes sociais acabam por não ser reportados pelas vítimas, seja às próprias plataformas onde o esquema ocorreu, seja a outras organizações como instituições bancárias, polícia ou organizações de defesa dos consumidores. Entre as vítimas que acabaram por apresentar queixa, a maioria preferiu expor o caso às plataformas onde a fraude ocorreu.

Que esquemas estão por trás dos crimes online em Portugal?

Embora não existam números da criminalidade praticada na internet em Portugal, uma vez que as estatísticas da Justiça portuguesa aglomeram os crimes de acordo com o seu tipo legal e não pelo contexto em que ocorrem, têm vindo a ser reportados, com cada vez maior frequência, por exemplo, casos de extorsão sob ameaça de divulgação de imagens íntimas na internet – sextorsion ou revenge porn. Quem o diz é o Gabinete de Cibercrime da Procuradoria-Geral da República, que, em declarações à DECO PROTESTE em 2021, explicava que estas situações resultam frequentemente “de ruturas de relações interpessoais”.

“Noutros casos, estão em causa imagens produzidas e originariamente partilhadas pelas próprias vítimas – esta situação é sobretudo frequente quanto a crianças e adolescentes (...). Por outro lado, têm recentemente vindo a ganhar dimensão as queixas de burlas associadas a relacionamentos pessoais online. Têm vindo a ser noticiadas diversas situações em que vítimas, geralmente do sexo feminino, se queixam de terem sido abordadas, online, por homens que não conheciam – o exemplo mais frequente é o de supostos militares americanos no Médio Oriente. Normalmente, o contacto inicial é feito através de redes sociais, evoluindo para um relacionamento mais próximo, via e-mail ou WhatsApp”, referia o Gabinete de Cibercrime da Procuradoria-Geral da República.

De acordo com a Procuradoria-Geral da República, esta sedução acaba por culminar com pedidos para que as vítimas entreguem quantias em dinheiro: “Invariavelmente, as vítimas acabam por efetivamente fazer transferências de quantias para bancos estrangeiros, por vezes na ordem das dezenas de milhares de euros. Estes pedidos vão sendo crescentes, até ao ponto em que as vítimas acabam por estranhar e fazem queixa. Nessa altura, em regra, os ‘amigos’ das vítimas desaparecem da internet, e não é mais possível contactá-los, vindo a verificar-se que os dados da sua identificação, e eventuais fotografias, eram falsos”.

Burlas online aumentam

Segundo a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), em 2021, a Linha Internet Segura, que presta apoio ao cidadão para uma utilização mais segura da internet, contabilizou um total de 1626 processos de atendimento e apoio a vítimas de cibercrime nas duas vertentes: atendimento e denúncia. A maioria dos contactos (134) estiveram relacionados com situações de sextortionSeguem-se os contactos por burla (54), furto de identidade (37), difamação e injúrias (34), gravação de fotografias ilícitas (33) e ameaça (21).

Em 2021, Ricardo Estrela, gestor da Linha Internet Segura, da APAV, referia em declarações à DECO PROTESTE, que as burlas relacionadas com sites ou apps de encontros online têm vindo a aumentar. Os burlões que se movem em apps de encontros e redes sociais utilizam esquemas habilidosos e criam perfis falsos convincentes para atrair as vítimas: “Depois de obterem a confiança da vítima, solicitam sempre alguma quantia em dinheiro, e aqui os pretextos podem ser vários. Os mais comuns são o pedido de ajuda médica a uma familiar próximo ou ajuda na regularização da documentação para viajarem para Portugal”. 

Ricardo Estrela, gestor da Linha Internet Segura da APAV 
Ricardo Estrela é gestor operacional da Linha Internet Segura da APAV e alerta para o crescimento da cibercriminalidade (Fotografia: 4See/Ricardo Lopes)
“Também já aconteceu casos em que o burlão falsifica documentos simulando a compra de habitação em Portugal, solicitando empréstimos sucessivos à vítima para a celebração desta suposta compra. Em termos genéricos, o objetivo do burlão é sempre obter o máximo de informação sobre a vítima, com essa informação criar uma narrativa de forma a captar o seu interesse, ganhar a confiança da vítima e depois pedir quantias em dinheiro”, explicou o gestor da Linha Internet Segura da APAV.

Que cuidados ter para namorar online

Embora os esquemas fraudulentos na internet sejam cada vez mais criativos, há elementos em comum, independentemente da vítima e da plataforma ou site utilizado. Estes são os cuidados que deve ter se recorrer a apps ou sites de encontros online:

  • use apenas sites de dating  fidedignos e reconhecidos, mas esteja alerta porque o cibercriminoso também os usa;
  • faça perguntas e não acredite em histórias destinadas a manter o interesse;
  • desconfie sempre de situações em que o interlocutor, rapidamente, comece a declarar um interesse desproporcionado (tenha presente que estes são bastante experientes, conseguindo dissimular um interesse genuíno) ou a pedir uma forma de comunicação direta, fora destas plataformas;
  • deve ficar alerta se existirem várias desculpas para evitar um encontro presencial;
  • tenha cuidado com o que partilha, de forma pública, nas redes sociais. Estes cibercriminosos podem usar essa informação para simular interesses comuns consigo;
  • não partilhe dados pessoais como a morada ou o número de telemóvel;
  • não acredite em tudo à primeira. Pesquise os perfis e as fotografias em várias fontes de informação, como o motor de pesquisa de imagens TinEye ou o Google, que também permite pesquisar por imagens. Desconfie de perfis com apenas uma ou duas fotografias, que tenham fotografias com baixa resolução, apenas da silhueta ou com enquadramentos que não revelam a face;
  • faça uma pesquisa no Google usando alguns parágrafos das mensagens que lhe são enviadas pelo seu interlocutor via chat ou e-mail. Assim, conseguirá perceber se lhe foi enviada alguma mensagem que já tenha sido identificada como burla;
  • verifique erros ortográficos que indiciem que a língua em que a pessoa está a comunicar não é a sua língua nativa. Se a pessoa apenas comunicar por escrito e evitar chamadas de voz, deve ficar alerta;
  • se conheceu o seu interlocutor através de uma app ou plataforma de encontros online, fique alerta se este lhe fizer vários pedidos para que passem a comunicar noutras plataformas de chat como Facebook Messenger, WhatsApp, Telegram, SMS, Yahoo Messenger ou Skype;
  • guarde como meio de prova todos os registos das comunicações feitas com o seu interlocutor. A Polícia Judiciária recomenda que tire screenshots. Em dispositivos Android, basta carregar simultaneamente nos botões de reduzir o volume e de ligar. No iPhone, deve carregar nos botões home e de ligar ao mesmo tempo (nas gerações mais recentes, que não têm botão home, use os botões de ligar e aumentar o volume em simultâneo);
  • reporte o perfil do seu interlocutor à plataforma de encontros online onde o conheceu se desconfiar que está a ser burlado. Assim, estas plataformas conseguem mais facilmente identificar os perfis falsos e bloqueá-los;
  • se tiver facultado dados bancários ao burlão, contacte o banco onde a conta está domiciliada logo que possível. Dessa forma, o seu banco poderá cancelar os acessos e bloquear a conta, evitando danos futuros.

Se for enganado, deve apresentar queixa-crime

Se alguma vez cair na teia destes criminosos em plataformas de dating ou nas redes sociais, deve apresentar queixa. A burla, em qualquer das suas vertentes — simples e qualificada — , é provavelmente o tipo de crime mais frequente no âmbito destes esquemas online, mas podem estar em causa outros tipos de crime, como furto, extorsão, ofensa à integridade física (quando acaba por haver contacto pessoal) ou devassa da vida privada, entre outros.

A primeira coisa que deve fazer é entrar em contacto com uma autoridade policial. As queixas-crime podem ser apresentadas em qualquer autoridade policial, como PSP, GNR, Polícia Judiciária ou junto dos serviços do Ministério Público. Estas entidades têm o dever de receber as queixas que lhes sejam apresentadas. Se a competência para investigar os factos não for do órgão ao qual apresentou a queixa, a mesma será reencaminhada para a entidade competente.

Além disso, quando apresentar a queixa, ser-lhe-ão pedidos todos os elementos que possam ajudar na investigação, tais como: dia, hora, local, circunstâncias em que o crime terá sido cometido, identificação do suspeito, se for conhecida, e eventual indicação de testemunhas.

A apresentação de queixa é maioritariamente gratuita — com exceção das queixas de crimes particulares, para as quais é necessário pagar a taxa de justiça (não é o caso da burla simples, nem da qualificada) — e não requer a constituição de advogado (embora o interessado possa decidir constituir). Depois de apresentar a queixa, receberá um certificado do registo da denúncia que deverá conter todos os elementos essenciais sobre a mesma. Se este documento não lhe for entregue, deve exigi-lo.

Como apresentar queixa através da internet

Pode ainda apresentar queixa-crime através da internet. As queixas eletrónicas podem ser apresentadas através do Sistema Queixa Eletrónica. Para isso, deve escolher o tipo de crime que pretende denunciar e, se não souber, o site apresenta uma breve descrição dos factos que podem configurar cada tipo de crime para que saiba enquadrar o comportamento de que foi alvo.

Depois, ser-lhe-ão pedidos vários dados, nomeadamente a janela temporal em que os factos terão ocorrido, a descrição da queixa, a identidade do suspeito, se for conhecida, entre outros. Mas atenção: a queixa eletrónica só é admissível em determinados tipos de crime, entre os quais a burla, a extorsão e o furto, deixando de fora, por exemplo, a devassa da vida privada.

A Polícia Judiciária já permite, contudo, apresentar queixa online no seu próprio site. Para isso, deve entrar na página desse órgão policial, autenticar-se com o cartão de cidadão e os respetivos códigos, e preencher o formulário da queixa.

Se não quiser proceder à queixa por via eletrónica, quer na plataforma acima mencionada, quer no site da Polícia Judiciária, ou se o tipo de crime não couber nas competências da respetiva plataforma eletrónica, deve sempre contactar a autoridade policial mais próxima, a Polícia Judiciária ou os serviços do Ministério Público.

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