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Fake reviews no Facebook continuam sem controlo

Vendedores da Amazon oferecem produtos em troca de críticas positivas: o esquema descoberto há dois anos pela Which?, nossa congénere inglesa, continua. Saiba como detetar avaliações falsas.

  • Dossiê técnico
  • António Alves, Fátima Martins e Pedro Mendes
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Fátima Ramos
25 setembro 2020
  • Dossiê técnico
  • António Alves, Fátima Martins e Pedro Mendes
  • Texto
  • Ricardo Nabais e Fátima Ramos
ilustração a simbolizar gosto no facebook

iStock

A denúncia foi feita há quase dois anos pela Which?, publicação da associação de defesa dos consumidores do Reino Unido: o Facebook alojava um próspero negócio que distorcia as regras do mercado online. Havia grupos onde era oferecido o reembolso do valor dos produtos  em troca de opiniões (reviews) favoráveis  e de avaliações de cinco estrelas.

O esquema chegava a milhares de perfis, condicionando escolhas e compras e defraudando, forçosamente, os consumidores. Este negócio de avaliações falsas no Facebook estava ligado, entre outros, a grupos de revisão de produtos da Amazon, o gigante das compras online, e visava contornar os controlos desta plataforma. Passados dois anos, e depois de alertada a empresa fundada por Mark Zuckerberg sobre estes abusos e desta se ter comprometido a combater estas práticas, a verdade é que estas continuam. A par dos escândalos das fake news e dos perfis falsos que condicionam eleitores e que animam o Facebook há alguns anos, eis o tempo das fake reviews (opiniões falsas), que distorcem o mercado. 

Mercado distorcido por comentários falsos

Os técnicos da Which? descobriram, ao analisarem 16 grupos de Facebook ativos, a presença de milhares de membros expostos a esta prática, com trocas de 82 mil posts em apenas um mês, com impacto nas listas da Amazon e com táticas novas para “fintarem” a vigilância do site. Um exemplo destas técnicas para ludibriar o controlo sobre práticas abusivas é expressivo: os administradores de alguns desses grupos aconselhavam os membros a deixarem de usar expressões proibidas como “refund” (reembolso), “reviews” (análises, opiniões) ou “4 or 5 stars”(quatro ou cinco estrelas). Em vez disso, uma simples inclusão de asteriscos ou hífenes nessas palavras poderia servir para continuar as más práticas. Por exemplo, bastaria substituir “reviews” por “re-views” para se conseguir escapar à vigilância dos administradores do Facebook. 

Desde que começaram a investigar, os grupos descobertos pelos técnicos chegavam à soma de meio milhão de pessoas, o que significa potencialmente centenas de milhar de “reviews” incentivadas, destinadas a enganar os consumidores, podem ter chegado à Amazon. A diferença que o incentivo pode fazer para a visibilidade numa lista de produtos na Amazon é clara.

Pode ser simples detetar as opiniões mais obviamente suspeitas, como as que são demasiado efusivas, mas as avaliações e comentários também contribuem para recomendações confiáveis - potencialmente ajudando os vendedores a subir no ranking.

Coluna Bluetooth com dois mil "likes"

O exemplo de uma coluna Bluetooth é paradigmático: os técnicos descobriram-na num dos grupos, com a promessa de reembolso depois de uma boa opinião. Mais tarde, viram-na na Amazon com uma avaliação de 4,9 em 5 e com mais de duas mil opiniões positivas. Uma "inflação" suspeita... Além disso, o produto também apareceu como o principal resultado numa pesquisa por 'coluna Bluetooth', que retornou mais de 30.000 anúncios, e uma versão em azul apareceu como recomendação da Amazon (Amazon's Choice).
 
A Which? confrontou o regulador local, que respondeu com o compromisso do Facebook em apertar mais os critérios e os métodos de controlo de opiniões falsas. Os nossos congéneres dizem ainda que empresas como a eBay ou a Amazon já têm conseguido controlar melhor estas práticas. Falta um esforço suplementar da casa de Zuckerberg. Dizem que o Facebook deve ser mais responsabilizado por este tipo de conteúdos e aumentar o seu controlo. 

A pesquisa da Which? mostra que os grupos de negociação de avaliações continuam a prosperar no Facebook, deixando os compradores online em grande risco de serem enganados ao comprarem produtos na Amazon que foram impulsionados por avaliações falsas. Por isso, recomendamos aos consumidores portugueses cautela redobrada com as estrelas e as reviews de outros utilizadores. 

Como detetar avaliações falsas

Ainda que não seja possível afirmar com absoluta certeza que uma avaliação deixada numa plataforma de comércio online é falsa, há alguns indícios de fake reviews que podem torná-la suspeita. Por isso, esteja atento a quem vende. Quando se faz uma compra na internet, é importante verificar quem é o responsável pela transação. Repare, também, se as avaliações são extremadas. Quando um produto reúne muitas avaliações excelentes (cinco estrelas) e, em simultâneo, bastantes muito negativas (uma estrela), torna-se suspeito. Verifique as opiniões por ordem cronológica e compare as pontuações das mais antigas com as mais recentes: se as antigas tiverem pontuações elevadas e coincidirem em determinadas datas, é sinal de alerta. 

Por outro lado, prefira os comentários verificados, feitos por quem realmente comprou o produto. E consulte outros comentários do mesmo autor. Verifique se adquiriu mais do que um produto de marcas diferentes e os classificou a todos com cinco estrelas, ou se comprou vários produtos do mesmo tipo; nunca deu uma opinião sobre um artigo de uma marca reconhecida. Todas estas situações são suspeitas.

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