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"Só a pedagogia ajuda a evitar fraudes online"

O gosto pela tecnologia levou o jornalista Lourenço Medeiros a querer explicar ao público tudo sobre este assunto de uma forma simples e clara. Daí ter aceitado participar no projeto Net&Siga.

  • Texto
  • Isabel Vasconcelos
15 julho 2021
  • Texto
  • Isabel Vasconcelos
Lourenço Medeiros em pé no exterior

Victor Machado

O Net&Siga é o projeto criado pela DECO PROTESTE e pela Google para divulgar práticas digitais seguras às pessoas com mais de 50 anos. Através de dicas e conselhos, pretende proporcionar ao consumidor uma boa experiência digital e sem receios de ser enganado.

A mais recente contribuição são pequenos vídeos, apresentados por Lourenço Medeiros, editor de Novas Tecnologias na SIC e responsável pelo programa Futuro Hoje. Conversámos com este jornalista sobre literacia digital e a sua participação no projeto.

O que pensa de ações como o Net&Siga?

Só posso pensar bem. Fiz quase uma missão de vida comunicar sobre tecnologia às pessoas, de uma forma simples e tentando descomplicar eventuais dificuldades. Aliás, acho curioso porque, antes de estar na SIC online, eu e outras pessoas conhecidas pensámos em fazer vídeos educativos, em cassetes VHS, para distribuir aos cidadãos. Já nessa altura, tinha gosto por esse conceito pedagógico, que acho muito importante.

Como se pode ajudar mais quem está menos à vontade no meio digital?

Projetos como o Net&Siga ou o Futuro Hoje, que faço na SIC, são muito importantes. Contudo, a televisão tem o problema de não servir como manual de instruções, ou seja, eu não consigo explicar bem às pessoas como fazem isto ou aquilo. Com o Net&Siga há a parte visual, com os vídeos que faço, mas também as instruções, pois as pessoas podem ver exatamente o que têm de fazer em determinados casos: é uma das vantagens da web. Contudo, esta é também uma desvantagem, pois pode ser um obstáculo para as pessoas que têm mais dificuldades.

É ainda possível aumentar a literacia digital das pessoas mais velhas ao nível local, em autarquias ou centros de dia. Além das relações familiares, que funcionam muito bem para estas situações. O caso da pandemia é um exemplo. Muitas pessoas tornaram-se peritas em videoconferência, por ser a forma de falarem com a família. E, em regra, foram os filhos ou alguém próximo que lhes ensinou o que deviam fazer para, através das tecnologias, continuarem em contacto com os amigos e a família. O avanço na literacia digital é quase fruto da pandemia.

Como convencer os mais velhos de que um smartphone pode ser útil? E como ajudar a evitar serem enganados?

Para as convencer é necessário que saibam o que podem fazer com ele. Se, por exemplo, uma pessoa quiser fazer uma videoconferência para estar mais perto de alguém, isso é uma razão para a convencer a usar um smartphone.

Há muitos anos, dei aulas sobre internet na RTP e havia pessoas mais velhas, que tinham muita relutância em usar a internet. Por esta razão, começava por tentar perceber quais eram os seus interesses. Lembro-me, por exemplo, de um senhor que não sabia mexer num rato e nem queria saber. Conversei um pouco com ele e descobri que adorava comboios em miniatura. Ao fim do dia, tinha-se aberto um novo mundo, quando descobriu que a melhor fonte que podia ter para o seu hobbie era a internet. Acontece o mesmo com os smartphones: primeiro, é preciso ver se as pessoas precisam deles.

Já ajudá-las a não serem enganadas é mais complicado, até porque não é só um problema dos mais velhos. Projetos como o Net&Siga servem para alertar para algumas coisas, mas há que chegar às pessoas onde elas estão que, neste caso, são as redes sociais. A natureza das redes sociais faz com que seja difícil dar pedagogia às pessoas. Contudo, quem comete fraudes, sabe ir ao encontro daquilo que as pessoas procuram. Se calhar há que usar as mesmas armas.

Na sua opinião, quais os maiores desafios que se colocam a estes consumidores?

O primeiro é aprender a mexer nos equipamentos e nos programas. Mas, assim que conseguem, o problema são as fraudes. Sobretudo as que usam o MB Way ou o phishing, que nem sempre é fácil explicar como são feitas. Pode parecer absurdo que as pessoas caiam na fraude do MB Way, até porque as de que tenho ouvido falar implicam fazer coisas que não se deve ou não são habituais. Contudo, uma voz amigável ou uma maior pressão psicológica levam as pessoas a acreditar e a fazer. Às vezes, somos muito ingénuos. A única solução é a pedagogia e, mesmo assim, nunca vamos conseguir combater as fraudes a 100%, quer na sociedade quer na internet.

 

 
“O avanço na literacia digital é quase fruto da pandemia”, sublinha Lourenço Medeiros.

Considera que as empresas e instituições têm os devidos cuidados com quem tem menos conhecimentos do mundo digital?

Há quem tenha e quem não tenha. Há sites que são mais ou menos inclusivos, até por força da lei. Mas, de uma forma geral, não diria que há uma grande preocupação com isso. As empresas querem chegar às massas e não estão muito preocupadas com a, felizmente, pequena parte da população que ainda não chega lá e que tende a esbater-se. Eu não diria que é feito tudo o que devia ser, mas seria injusto se dissesse que não fazem nada. Alguma coisa vão fazendo.

Na sua perspetiva, quais continuam a ser as principais lacunas digitais em Portugal?

O problema da iliteracia, sem dúvida. Mas esta também se revela noutras situações e a outro nível, como a cibersegurança. Ou seja, tanto ao nível das empresas como do Estado, há muita coisa que não é feita em termos de segurança. Há o hábito do “deixa andar”, o que vai apanhar muita gente desprevenida.

Outra lacuna que senti, mas que se está a esbater, é o contacto do Estado com os cidadãos. Cada vez mais, o Estado usa a internet para facilitar a relação com o cidadão.

Nota que a covid-19 acelerou a literacia digital ou aumentou o fosso entre os portugueses e as novas tecnologias?

Sem dúvida que acelerou a literacia. Muita gente viu-se na necessidade de recorrer às novas tecnologias para poder estar com os amigos ou a família, ou até em termos de consumo, pois, quem não podia sair, pedia que as coisas fossem entregues em casa. A pandemia acelerou ainda a própria tecnologia. A videoconferência é um exemplo clássico: há muitos anos que é possível fazê-la, mas não havia muito o hábito de a usar. De repente, começamos todos a recorrer a programas de videoconferência e, hoje, são incomparavelmente melhores do que no início da pandemia. E passaram menos de dois anos. A pandemia acabou por melhorar a literacia e a própria tecnologia.

Além do projeto Net&Siga, que mais pode a defesa do consumidor fazer para ajudar neste domínio?

O projeto Net&Siga, embora pareça pontual, pode evoluir e ser aperfeiçoado com novas dificuldades que vão sempre surgindo e que implicam a necessidade de mais pedagogia. Além disso, a DECO PROTESTE pode fazer o que lhe é habitual: alertar para os principais problemas. Tradicionalmente, costumam ser os problemas de consumo. Mas, agora, estes colocam-se tanto em relação às lojas e aos produtos em si, como em relação às novas tecnologias e à internet. Mas acho que têm feito esta transição e, basicamente, é continuarem a seguir este caminho.

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