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Democracia, notícias falsas e proteção de dados mais relevantes do que nunca

A democracia está em causa num cenário de falta de concorrência no mercado digital e quando as notícias falsas estão fora de controlo. Há uma nova fase na proteção do consumidor, que prevê acordos com grandes empresas, para proteger os dados dos cidadãos.

  • Texto
  • Deonilde Lourenço
28 dezembro 2018
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  • Deonilde Lourenço
inteligencia artificial

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Romper com um certo passado na defesa do consumidor e avançar para outro paradigma. Marco Pierani, diretor das Relações Institucionais do grupo Euroconsumers, organização europeia que agrega várias entidades de defesa do consumidor, da qual a DECO PROTESTE faz parte, defende acordos com as grandes empresas, que estão na vanguarda da usurpação dos dados digitais, para as consciencializar face à dimensão ética do negócio e aos direitos do consumidor quanto à posse dos dados e à sua divulgação. Conversámos com Pierani na Web Summit, que decorreu em Lisboa, em novembro último. A presença da DECO PROTESTE no evento “é um sinal positivo que queremos dar às empresas de que estamos prontos para criar valor acrescentado para o consumidor”. A missão é a mesma – servir o consumidor. A diferença está na relação com as empresas.

 De que forma se relaciona a defesa do consumidor com as grandes empresas?

A exploração positiva dos dados é um exemplo. A economia de dados é transversal ao mercado e não deve continuar a ser só uma ameaça ao consentimento do consumidor, mas também uma oportunidade. O consumidor deve ser capaz de monitorizar os seus dados. O nosso papel é agregar um grande número de consumidores e explorar de forma positiva os seus dados através de acordos estratégicos com empresas.

 
Marco Pierani, diretor das Relações Institucionais do grupo Euroconsumers.
 

A que empresas se refere?

Temos de começar pelas grandes plataformas, como a Google, o Facebook, a Microsoft e a Amazon. Estes são os grandes operadores da internet, mas os dados também são importantes para as empresas dos serviços tradicionais. Com um acordo ao nível da interoperabilidade dos dados, podemos extrair valor. Ou seja, pode significar dinheiro ou valor elevado nos serviços ao consumidor, se este consentir o uso dos dados. Mas só funcionará se for possível juntar uma massa crítica de consumidores. Deveremos superar a abordagem tradicional da proteção de dados, que, do ponto de vista da defesa do consumidor, foi sempre a de proteger dos abusos. Continuamos a fazê-lo. Temos ações legais contra o abuso de dados (como é o caso do Facebook). Mas precisamos de estabelecer acordos estratégicos com as empresas e de mostrar ao consumidor que os dados são seus.

O consumidor percebe o lado positivo da tecnologia?

Precisamos de lhe falar do valor dos dados. Em poucos anos, as grandes empresas que mencionei vão posicionar-se no topo da evolução do mercado. São as empresas com maiores receitas, que, na maioria, vêm da exploração dos dados, o que prova que são uma fonte comercial valiosa. Queremos uma batalha feita de forma colaborativa. Para a vencermos, precisamos de mostrar os benefícios ao consumidor. Não vai ser fácil, porque, durante muitos anos, discutiu-se este tópico de forma negativa. É o início de um novo posicionamento. Não é só defender. Somos o centro do mercado. Precisamos de um ecossistema mais equilibrado. Se continuarmos por este caminho, só teremos grandes operadores com muito dinheiro e nada para oferecer ao consumidor. E o mercado irá sofrer, porque não haverá concorrência justa. Estamos a trabalhar para um mercado melhor e mais equilibrado e para dar valor acrescentado ao consumidor.

Como?

Estamos a tentar falar com as empresas de uma nova forma, sem barreiras. Acreditamos que a confiança do consumidor é um valor acrescentado para as empresas. Queremos construir nesta confiança valor que retorne para o consumidor, em conjunto com as empresas.

Esse é o futuro das organizações de defesa do consumidor?

É um dos caminhos. Precisamos de explorar melhor, nos nossos serviços, os dados e a personalização. Estamos a fazê-lo com os associados. Temos consentimento para tal. Para não tratarmos todos os consumidores da mesma forma. No passado, todos recebiam o mesmo serviço. No futuro, cada consumidor receberá uma oferta apropriada e adequada aos seus interesses.

As empresas estão recetivas a acordos?

Estão mais flexíveis do que há uns anos. Ainda temos de trabalhar para haver maior abertura. As empresas já acreditam que somos um bom parceiro, porque transmitimos confiança aos consumidores.

Neste contexto, qual a importância da inteligência artificial?

A inteligência artificial é uma ameaça e uma oportunidade. A ameaça reside no machine learning ou na capacidade de, através de algoritmos, prever o comportamento de consumo. Cada vez mais, as empresas que exploram algoritmos preditivos o fazem. Isto é assustador e pode ter impacto na liberdade de expressão. A tecnologia deveria potenciar o ser humano e não servir as empresas. Outra questão a trabalhar é a transferência dos valores da sociedade para a máquina. Não é só um problema de proteção do consumidor, mas de direitos fundamentais. Estamos a transformar-nos numa organização de direitos civis, os quais se encontram em risco nas plataformas digitais.

O consumidor está consciente dos novos perigos?

Está mais consciente do que há 10 anos. A concorrência no mercado digital já não é a mesma. Queremos construir com as autoridades um ecossistema mais sustentável para o futuro do mercado, da sociedade e da democracia. As notícias falsas, por exemplo, interferem diretamente na democracia. Estão perto do foco da nossa atividade, porque somos uma espécie de anticorpo. A nossa informação é sólida e analisada de forma técnica. Precisamos de trabalhar a sua mais-valia, para permitir que os consumidores façam a sua escolha.

 

 

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