Dicas

Combater o "vício" da net nas crianças e jovens

Cabo de ligação ao mundo, a internet tem múltiplos benefícios, mas também alguns riscos, sobretudo para os mais jovens. Saiba como preveni-los.

  • Dossiê técnico
  • Joana Almeida
  • Texto
  • Fátima Ramos
09 agosto 2019
  • Dossiê técnico
  • Joana Almeida
  • Texto
  • Fátima Ramos
vicio internet

iStock

Apenas 1% dos jovens com 18 anos nunca acederam à internet, segundo os resultados de um inquérito recentemente publicados pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD). Quase um terço dos restantes começou a navegar antes dos 10 anos e 60%, entre os 10 e os 14 anos.

A internet encurta distâncias e aumenta o fluxo de comunicação. No mundo digital, está tudo à mão de semear, com o que tem de bom e de mau. Trabalhos de grupo e “reuniões” sem sair de casa, trabalhos académicos sem deslocações a livrarias ou bibliotecas, “conversas” sem encontros... a tecnologia possibilita tudo. Para muitos, a net é uma fonte de bem-estar e de desenvolvimento. Várias organizações, entre as quais a Unicef, defendem que a tecnologia pode contribuir, por exemplo, para o desenvolvimento da linguagem dos mais pequenos, se os conteúdos forem bem escolhidos e a utilização supervisionada. Para os mais velhos, além de facilitar o acesso ao conhecimento, favorece o desenvolvimento pessoal, por estarem expostos a ideias diferentes. No caso dos adolescentes, a internet e, em particular, as redes sociais, ajudam a criar o sentimento de pertença a um grupo.

Mas, como em quase tudo na vida, não há bela sem senão. Alguns estudos têm demonstrado que, quanto maior o número de equipamentos utilizados (telemóvel, computador, tablet, televisão...) e mais alongado o período que lhes é dedicado, maior é o risco de os utilizadores virem a sofrer de obesidade, porque se tornam sedentários e adquirem maus hábitos alimentares - é frequente comerem enquanto navegam e, muitas vezes, snacks pouco saudáveis. Outra questão preocupante é a privação do sono, porque ficam presos à rede noite dentro, mas também porque os próprios ecrãs são estimulantes, impedindo que o organismo abrande e se prepare para desligar. O tempo passado em frente ao ecrã pode ainda favorecer o isolamento e potenciar sintomas de ansiedade e depressão. Nalguns casos, a exposição frequente a certos conteúdos, incluindo jogos, publicidade e, por exemplo, sites com pornografia, violência ou promoção da anorexia, pode criar uma visão distorcida da realidade e desencadear problemas de comportamento. Por isso, os investigadores recomendam a disponibilização desta ferramenta aos mais novos com conta, peso e medida e nunca descurando o acompanhamento necessário por parte da família.

Regras da casa para equilíbrio entre real e virtual

O ambiente doméstico e regras adequadas ajudam a equilibrar a balança entre a vida virtual e a real, com o tempo necessário para suprir necessidades básicas, como alimentar-se e dormir bem, para a prática de exercício físico e para as relações sociais tradicionais. Deixamos algumas dicas.

  • Quarto livre de eletrónica. Um ambiente calmo, sem a tentação de nenhum ecrã, ajuda a dormir melhor.
  • Supervisão dos pais. Até à adolescência, é importante que os pais escolham com os filhos jogos, apps e conteúdos a ver.
  • Limites para o uso. Até aos 2 anos, o bebé deve estar longe de qualquer ecrã. Dos 2 aos 5, convém não se expor mais de duas horas diárias. A partir desta idade, é aconselhável fixar o tempo com os filhos e cuidar para que cumpram.
  • Ecrãs fora. Hora das refeições, atividades de fim de semana... convém que a família fixe períodos sem ecrãs (televisão, telemóvel, computador...) e que todos respeitem as regras.

Fixar limites à utilização da net

Se as atividades online, seja o jogo, as redes sociais ou outras, começarem a invadir o quotidiano, ao ponto de interferirem com as rotinas, é preciso intervir. Esta interferência traduz-se, muitas vezes, em saltar refeições, dormir mal, faltar às aulas ou a compromissos familiares e no isolamento social, entre outros aspetos.

No inquérito realizado pelo SICAD, cerca de um quarto dos jovens confessou já ter tido problemas relacionados com a utilização da net, com destaque para redução do rendimento escolar (16%), mal-estar emocional (12%) e mau comportamento em casa (10 por cento).

O que fazer nestas situações? “Não adianta entrar em conflito ou tirar a net, porque os mais novos vão aceder noutro local”, diz Daniel Sampaio, entrevistado pela nossa equipa. “É preciso sentarem-se com calma na sala e definirem um horário de utilização, a partir de um compromisso combinado entre todos”, acrescenta. O psiquiatra recomenda mesmo um contrato escrito entre pais e filhos, “de modo a comprometer todos na solução”. Caso a situação perdure, sem melhoras, pode ser necessário recorrer a ajuda profissional. No Serviço Nacional de Saúde, a porta de entrada é sempre o médico de família, que encaminha para a ajuda adequada. Se o problema parecer grave, quem vive na zona da Grande Lisboa pode contactar o Núcleo de Utilização Problemática da Internet, através do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria. Em geral, a solução passa pela psicoterapia individual e familiar e, por vezes, implica o tratar problemas associados, como a ansiedade.

 

 

 

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