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Resistência a antibióticos: problema de saúde pública a resolver

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As bactérias que se alojam no nosso organismo estão cada vez mais fortes e resistentes aos antibióticos que tomamos para as combater. Ao ponto de os líderes mundiais se terem comprometido, na assembleia-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2016, a agir para travar a resistência microbiana e enfrentar as suas causas profundas na saúde humana e animal e na agricultura.

Em Portugal, o consumo de antibióticos continua a ser excessivo e o futuro é preocupante. O que os consumidores sabem sobre antibióticos também é preocupante, com uns a acreditarem na eficácia dos antibióticos contra vírus e outros a afirmarem que servem para atacar gripes. Temos vindo a publicar estudos sobre a presença de antibióticos em alimentos para consumo humano desde 1997 e os resultados têm sofrido evoluções.

Os médicos e farmacêuticos devem informar, sobretudo se forem confrontados com pedidos injustificados de antibióticos. Nem todos os casos precisam de ser tratados com estes fármacos. Tome apenas por prescrição médica e siga à risca o tratamento.

10 alertas para a resistência aos antibióticos

Calcula-se que cerca de 25 mil pessoas morram todos os anos na União Europeia (UE) devido a infeções causadas por bactérias resistentes a antibióticos. Com frequência, recomenda-se que as pessoas não abusem de antibióticos, mas sabia que os animais também não deviam abusar?

Os antibióticos utilizam-se mais em animais do que em pessoas

Na União Europeia, em média, o consumo de antibióticos é um pouco mais elevado em animais que se destinam à produção de alimentos do que em humanos, ainda que as vendas estejam a diminuir.

A Agência Europeia do Medicamento (EMA) publicou um relatório sobre a utilização de antibióticos em animais no qual se verifica uma redução das vendas superior a 32 %, entre 2011 e 2017, em particular nas classes das polimixinas e das cefalosporinas de terceira e quarta geração.

Utilizar antibióticos em animais saudáveis contribui para gerar resistências

Por vezes, os animais de exploração agrícola, mesmo quando estão saudáveis, recebem tratamento com antibióticos para prevenir doenças que surgem em condições de sobrelotação ou de higiene insuficiente. Este uso, inadequado e excessivo, potencia resistências.

As bactérias que se encontram em frangos e porcos são, com frequência, resistentes a um ou vários antibióticos. De acordo com o relatório da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, setenta por cento das bactérias de Campylobacter que se encontram na carne de aves são resistentes a um antibiótico muito usado para tratar determinadas infeções articulares ou gastrointestinais.

Os antibióticos não matam os vírus

Quando alguém tem uma infeção causada por um vírus (como uma constipação, uma gripe ou a maioria das infeções de garganta e bronquite), os antibióticos de nada servem. Os antibióticos só combatem as infeções causadas por bactérias, como uma pneumonia ou a tuberculose. E com os animais acontece o mesmo. Por isso, só se deveria dar antibióticos aos animais quando prescritos pelo veterinário.

São as bactérias (não as pessoas, nem os animais) as resistentes aos antibióticos

Quando se fala em resistência a antibióticos, muitos assumem que são as pessoas ou os animais que desenvolvem essa resistência. No entanto, são as bactérias que causam as doenças as que se tornam resistentes aos antibióticos. Estas bactérias resistentes podem infetar tanto as pessoas como os animais e as infeções que originam são mais difíceis de tratar do que as causadas por bactérias não resistentes.

Como uma bactéria consegue tornar-se resistente a um antibiótico

Seja de forma natural ou porque houve mutação, algumas bactérias têm genes que lhes permitem resistir aos antibióticos. Quando as bactérias resistem à maioria dos antibióticos chamam-se “superbactérias”. Enquanto os antibióticos matam as bactérias, as bactérias resistentes sobrevivem e multiplicam-se, especialmente quando os antibióticos se utilizam de forma incorreta. Estas bactérias resistentes podem transmitir os seus genes de resistência a outras bactérias. Tal é mais problemático quando se formam“superbactérias”, já que a maioria dos antibióticos não tem efeito nestas.

As bactérias resistentes passam dos animais de exploração agrícola para as pessoas

As bactérias resistentes podem passar da exploração agrícola para as pessoas de diferentes maneiras: comer carne com bactérias resistentes pouco cozinhada é uma delas. Outras formas de transmissão incluem o contacto com animais de exploração agrícola vivos portadores das bactérias resistentes, consumir produtos cultivados em terrenos fertilizados com estrume proveniente de animais infetados ou beber água contaminada com os seus excrementos.

Na Europa, o uso de antibióticos para acelerar o crescimento animal está proibido

Incluir de forma habitual doses baixas de antibióticos na alimentação de gado bovino, porcos e aves acelera o seu crescimento e faz a produção de carne mais rentável. No entanto, aumenta o risco de resistências ao expor as bactérias a doses de antibióticos que não são mortais para elas. Ao contrário de outros países, como os Estados Unidos ou a China, a União Europeia proibiu esta prática em 2006. Mas são precisas inspeções que garantam que esta proibição está a ser respeitada. Em 2017, também a Organização Mundial de Saúde recomendou aos agricultores e à indústria que deixassem de usar antibióticos para promover o crescimento e prevenirem doenças em animais saudáveis.

Menos antibióticos no gado diminuem as resistências

Nos países em que os governos tomaram medidas para reduzir o uso de antibióticos nas explorações agrícolas (sobretudo no norte da Europa), observa-se uma diminuição dos níveis de resistência aos antibióticos, que voltam a ser eficazes. Mas alguns países da União Europeia estão a ficar para trás na luta contra a resistência aos antibióticos gerada na produção animal.

As resistências aos antibióticos não têm fronteiras

As resistências aos antibióticos estão a alcançar níveis muito altos em todas as regiões do mundo. As bactérias, resistentes ou não, desconhecem fronteiras e movem-se entre países, espécies animais e comida, entre outros. Combater as resistências aos antibióticos exige uma ação conjunta a todos os níveis, desde pessoas individuais a responsáveis pelas políticas na Europa e no resto do mundo, passando pelo setor agrícola.

Uma cozinha limpa diminui o risco de contaminação com bactérias resistentes

Quando cozinhar, assegure-se sempre de que lava as mãos depois de mexer em carne crua, sobretudo antes de tocar na comida pronta a comer. Lave também qualquer utensílio de cozinha, como tábuas de cortar e pratos, entre outros, depois de cada utilização.

Cozinhe bem a carne. O calor destrói as bactérias, incluindo as resistentes. Descongele sempre a carne no frigorífico.

Mas tudo isto nada mais é do que uma gota de água no oceano. Melhorar as condições higiénicas nas quintas, proibir o uso preventivo de antibióticos nos animais de quinta de forma rotineira e reduzir as condições stressantes aos que estão sujeitos a elas são medidas que ajudariam a reduzir a necessidade de utilizar antibióticos.