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Ranking dos hospitais: entrevista a Fernando Sollari Allegro

09 março 2012 Arquivado

09 março 2012 Arquivado

Assimetrias regionais na captação do investimento público determinam desempenhos muito diferentes entre hospitais e tal reflete-se na sua reputação perante os profissionais de saúde. Para 13 especialidades, perguntámos a 447 médicos qual seria o hospital com mais condições para tratar um doente grave.

O nosso inquérito, publicado na TESTE SAÚDE de abril de 2012, revelou uma macrocefalia de Lisboa face ao resto do País. Apenas em ortopedia e oftalmologia, cuja excelência cabe a Coimbra, não surgem unidades da capital a liderar. Neste ranking, o Centro Hospitalar Lisboa Norte, que inclui o gigante Santa Maria, é o mais dotado de condições. Nenhuma instituição do Porto consegue um primeiro lugar, embora as principais se posicionem entre as cinco melhores.

A liderar a fusão de quatro hospitais portuenses - Santo António, Maria Pia, Joaquim Urbano e Maternidade Júlio Dinis -, Fernando Sollari Allegro, Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Porto, acedeu a comentar os resultados. Igualdade no acesso à saúde, financiamento do Estado às unidades de saúde, reorganização da rede de cuidados hospitalares, direitos dos utentes e aposta na medicina preventiva foram os tópicos mais fortes de uma entrevista a partir da cidade do Douro.

Entrevistámos Fernando Sollari Allegro, Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Porto.

Em Portugal, existe igualdade no acesso a um serviço de saúde de qualidade, que ofereça, não só profissionais competentes, como também os equipamentos, as infraestruturas e as técnicas mais adequadas?
Igualdade no acesso não existe, porque há diferenças regionais importantes. Quem vive em Lisboa e Vale do Tejo e Coimbra tem muito mais facilidade de acesso, porque a oferta pública é muito superior à de outras regiões, sobretudo Norte e Alentejo. Os orçamentos da saúde, este ano pela primeira vez, procuraram uma aproximação. Mas, mesmo assim, o orçamento por habitante daquelas regiões é superior ao nosso.

Qual é a perspetiva a partir do Porto? As pessoas sentem que existe uma macrocefalia de Lisboa face ao resto do País?
No tratamento da doença, não sentem muito, a não ser em questões pontuais. Mas isso vale tanto para os habitantes do Porto como para os de Bragança, Vila Real ou Braga. Aquilo que sentem em relação ao Porto é o que nós, às vezes, sentimos em relação a Lisboa.

Pensa que as unidades líderes em cada especialidade, como o Centro Hospitalar Lisboa Norte, podem dever esta liderança a algum modelo de gestão particular?
Não, até pelo contrário. Devem ter mais dificuldades por serem muito grandes, o que traz problemas de gestão, por vezes, inultrapassáveis. Não me parece também que, globalmente, tenham mais equipamentos do que nós. O que acontece é que são postos à disposição deles meios que, muitas vezes, não temos.

Tais como?
Meios financeiros. O orçamento deles é muito grande e, portanto, a disponibilidade para investir em condições é maior.

Pensa que esse maior investimento se deve a que fatores?
Penso que é a proximidade do poder, pura e simplesmente.

"O modelo de reorganização da rede de cuidados hospitalares não se destina a servir melhor as comunidades, mas a racionalizar a despesa."

A reorganização da rede dos cuidados hospitalares, com as fusões e os agrupamentos, serve melhor as comunidades?
Este modelo não se destina a servir melhor as comunidades, mas a racionalizar a despesa. Quando temos dois serviços, a 1 km um do outro, a fazer a mesma coisa (por exemplo, intervenção coronária), se os fundirmos, acabamos por gastar muito menos dinheiro. Não quer dizer que, com isso, as pessoas tenham mais facilidade no acesso. Agora, seguramente, acontecem duas coisas: conseguimos racionalizar a despesa, porque compramos em conjunto; e reduzimos recursos humanos. Ao comprar em maiores quantidades, também se conseguem melhores preços. Esse é que é o objetivo das concentrações.

Mas isso não pode ter um impacto na qualidade do serviço?
Teoricamente, pode, mas tudo depende de quem faz as concentrações. Tem de pensar nesses aspetos.

E qual é a experiência do Centro Hospitalar do Porto?
Acho que as condições não pioraram. Estamos agora num movimento de concentração de hospitais. Vamos trazer o Maria Pia no fim deste mês ou no princípio do próximo. Já fazia parte do grupo, mas estava a funcionar noutra instituição e vem fisicamente para estas instalações. Era um hospital antigo, com muitos problemas de segurança, com despesas grandes do ponto de vista da manutenção e, portanto, optámos por trazê-lo. O mesmo vamos fazer com o Joaquim Urbano.

Mas alargam as instalações?
Não, adaptamos as que temos. No caso do Joaquim Urbano, outro hospital velho que faz parte do centro hospitalar, vamos fazer obras aqui no sexto andar, dando condições aos profissionais de lá para tratar adequadamente os doentes e trazê-los para cá. Pela mesma razão: porque é mais uma estrutura antiga, com poucas condições, cujos custos de manutenção são muito altos.

Mas, no fundo, este é um processo de concentração que pode dar origem a macrocefalias, como no caso de São João ou de Santa Maria?
Não, porque estamos sempre a reduzir a lotação. Nós percebemos isso muito bem.

Aprenderam com a experiência dos outros...
Sim, temos vindo sempre a reduzir as lotações de acordo com as necessidades, algo que aconteceu com frequência na cirurgia. Neste momento, temos 50 ou quase 60% de doentes operados em ambulatório. As camas não são necessárias e, por isso, reduzimos a lotação. Quando ocorreu a concentração, tínhamos, salvo erro, 820 camas e, agora, já estamos outra vez a chegar às 720. Já temos menos 100 camas do que na altura.

E isso não tem impacto no acesso à saúde?
Nenhum, porque estamos sempre a olhar para os resultados, para o número de doentes operados, para as taxas de ocupação. Se verificamos que baixam, tomamos medidas. Projetámos recentemente retirar camas dos cuidados intensivos, porque havia uma ocupação baixa.

E essa ocupação não pode ser apenas mais baixa num determinado momento?
É certamente, mas temos de gerir de forma conjuntural e de manter reservas para as crises.

A fusão de hospitais não poderá provocar uma suborçamentação dos serviços, uma vez que, em vez de o Estado ter de financiar três ou quatro instituições, fá-lo-á apenas para uma? Não faltará dinheiro para assegurar a qualidade?
Poderá acontecer, com certeza. Mas é evidente que a concentração visa reduzir os recursos e melhorar a eficiência, pôr os mesmos recursos com mais produção ou menos recursos com igual produção.

Esta fusão do Centro Hospitalar do Porto tem sido bem aceite pela população?
Não tenho tido queixas. É evidente que, na fase inicial, há sempre alguma perturbação, porque, às vezes, as pessoas não entendem muito bem. Mas, como ainda não houve migração dos hospitais, a maior parte não sentiu diferença nenhuma.

Não pensa que a avaliação dos serviços de saúde deveria ser pública e acessível às populações, tal como está implícito na Carta dos Direitos e Deveres do Utente?
Acho que, do ponto de vista da cidadania, é uma coisa necessária. Mas devo dizer que sou muito cético, porque não é por causa disso que as pessoas escolhem os serviços.

Aliás, não podem...
Mas, mesmo que pudessem, não era por causa da informação disponível que escolheriam. Há muitos trabalhos feitos no estrangeiro, sobretudo nos Estados Unidos, em que a medicina é muito liberal, que mostram que as pessoas não escolhem as instituições por terem “estrelinhas.” Escolhem por quem lá trabalha e, sobretudo, por conselho de um familiar ou amigo. Agora, do ponto de vista da cidadania, é evidente que as pessoas têm de receber informação e ter possibilidade de conhecer o que cada instituição faz.

E isso é possível em Portugal?
Claro que é possível. É uma questão de vontade coletiva e vontade política, como é evidente.

Acha que há alguma razão objetiva para que isso não aconteça ou é apenas uma questão de organização do Serviço Nacional de Saúde?
É uma questão de organização. Algo que tem sido muito difícil é a circulação da informação dentro do Serviço Nacional de Saúde. Sei que, neste momento, estão a ser feitos esforços importantes para pôr a informação a circular livremente. Mas dou-lhe um exemplo das dificuldades. Em 2001, fizemos um protocolo com a medicina geral e familiar para colocar a informação nas unidades de saúde que drenam para nós. Durante anos a fio, eles só conseguiram aceder a algumas partes do nosso processo clínico, porque não tinham o hardware suficiente para conseguir ver as imagens e outros aspetos. E isso é uma limitação do sistema. Eles gostavam de ver e nós gostávamos que eles vissem, porque facilitava a comunicação e reduzia os custos, quer deles, quer nossos, já que havia menos duplicação de exames. Mas não é fácil.

Outra questão, também no domínio da cidadania, é a da escolha. Em Portugal, o doente não pode escolher o hospital em que quer ser tratado. O sistema está filosoficamente organizado desta maneira?
Não é uma questão filosófica: é uma questão bem comezinha. É uma questão orçamental. Não é que fique mais caro ir a um hospital privado do que a um público. O problema é que temos uma estrutura instalada que tem 200 mil funcionários. Se os doentes não vão a este sistema e o sistema paga a outro ao lado, como é que se aguenta do ponto de vista orçamental?

"Poderíamos pôr as unidades de saúde em concorrência, dando liberdade ao cidadão de escolher, o que iria aumentar a qualidade."

Estamos tão estrangulados pela questão orçamental que a inversão do sistema é apenas uma utopia?
Não, não acho que seja uma utopia. Pelo menos, poderíamos pôr as unidades de saúde em concorrência, dando liberdade ao cidadão de escolher, o que iria aumentar a qualidade. Aumentava a competição entre as instituições, que, para terem orçamento, precisavam de cativar os doentes. Se fizessem isso, pelo menos, nos centros urbanos, seria positivo. É evidente que, em Évora, onde só há um hospital, não há competição nenhuma. Em relação à escolha por privados, fica sempre por resolver o problema de como é que se paga à estrutura, porque, se não tiver doentes, há saber o que fazer com os funcionários.

Sim, mas isso também é o problema do Serviço Nacional de Saúde ao fazer as restruturações. E o que é que faz o SNS aos funcionários?
Aquilo que se tem feito é não substituir pessoas que se reformam. É a única estratégia possível. Nem sequer há possibilidade de pagarmos indemnizações e dispensarmos pessoas.

Que outras medidas poderiam ser colocadas em prática para melhorar o acesso aos serviços?
Uma muito fácil, embora numa altura de restrições orçamentais seja mais complicada, era diferenciar o pagamento pela produtividade. Aumentando o ritmo de trabalho, aumentava a oferta e o acesso. No entanto, há constrangimentos que, às vezes, as pessoas não pensam. Há alguns anos, fui discutir um contrato-programa com uma economista que trabalhava na Administração Regional de Saúde e ela pediu-me para aumentar o número de consultas na ortopedia. Respondi-lhe: “Eu aumento o número de consultas na ortopedia, mas, para o ano, não me pergunte porque é que a lista de espera das cirurgias aumenta”. Numa especialidade cirúrgica, quando aumentamos o número de consultas, sobretudo de primeiras consultas, a seguir, temos mais marcações para o bloco e doentes para internar. É preciso pensar toda a cadeia.

Com a fusão dentro do Centro Hospitalar, houve uma diminuição de custos significativa?
Sente-se pouco ainda, porque o que imediatamente fundimos foi tudo o que correspondia a serviços de apoio: gestão de recursos humanos, transportes, informática, etc. E isso não tem um grande reflexo no custo final. Depois, fundimos alguns serviços clínicos: maternidade, obstetrícia, ginecologia e pediatria. Mas aquilo que terá grandes reflexos é, realmente, a concentração. Nessa altura, é que se vai notar bem o impacto nos custos.

"Tratamento da obesidade, diabetes e hipertensão, rastreios do cancro do cólon, da mama e do colo do útero: isso é prevenção. Gastamos pouco na prevenção do cancro e muito na medicina curativa."

Neste momento, Portugal vive uma época de desafios. Acha que este modelo de Serviço Nacional de Saúde é possível e desejável?
O Serviço Nacional de Saúde enferma de um mal organizacional. Por razões históricas, foi sobretudo criado a partir dos hospitais e a medicina hospitalar é muito cara. Devíamos apostar na prevenção, nos estilos de vida, nos cuidados primários e depois nos hospitalares. Mais de 50% da despesa está nos hospitais e não devia ser assim. A nossa organização tem de mudar para tornar o sistema mais sustentável. Tratamento da obesidade, diabetes e hipertensão, rastreios do cancro do cólon, da mama e do colo do útero: isso é prevenção. Se analisarmos os relatórios do Ministério da Saúde, vemos que gastamos pouco na prevenção do cancro e muito na medicina curativa. As grandes revoluções na medicina foram os antibióticos e as medidas de prevenção: as vacinações e o tratamento da água e dos alimentos. A introdução da tecnologia quase não teve impacto no aumento da sobrevida. Por isso, tem de haver mais investimento na prevenção, porque, nesta área, o investimento é muito reprodutível. O grande problema da medicina preventiva é nós não vermos os resultados. Os nossos filhos é que vão vê-los.


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