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Médicos prescrevem antibióticos desnecessários

18 novembro 2014

18 novembro 2014

A prescrição desadequada de antibióticos continua em níveis preocupantes: face a uma simples dor de garganta, 21 médicos, em 50 visitados, receitaram um medicamento destes.

Para avaliar se os médicos prescrevem antibióticos desnecessários e se as farmácias os vendem sem receita médica, pedimos a colaboradores para visitarem 120 estabelecimentos escolhidos ao acaso, na Grande Lisboa e no Grande Porto (ver anexos), queixando-se de dor de garganta. Todos os colaboradores foram previamente avaliados para garantir a ausência deste tipo de problemas. Se questionados pelo profissional, os colaboradores diziam que não apresentavam febre nem outros sintomas, exceto um ligeiro incómodo ao engolir.

O problema da resistência a antibióticos

Nas 50 consultas, os médicos obervaram a garganta e procuraram inteirar-se dos sintomas. Em 20 casos, receitaram de imediato um antibiótico. Nos restantes 30, os nossos "doentes" perguntaram, sem insistir, se não seria melhor tomar um daqueles fármacos. Um recebeu a prescrição com indicação de que só deveria usá-lo se piorasse, tivesse febre e pontos brancos na garganta.

Nas farmácias, a situação é menos inquietante: pedimos um antibiótico sem receita médica em 70 estabelecimentos e só a Farmácia Faria, de Matosinhos, o dispensou. Nos restantes, recomendaram sobretudo analgésicos e anti-inflamatórios. Cerca de metade dos profissionais alertaram ainda para a necessidade de consultar o médico, se o estado de saúde se agravasse.

Num estudo idêntico que publicámos em 2007, a venda de antibióticos nas farmácias, na Grande Lisboa e no Grande Porto, rondava os 12%, uma proporção bastante superior à atual, que não ultrapassa 1 por cento. A prescrição médica também diminuiu: há sete anos, 57% dos médicos receitaram antibióticos para a dor de garganta; no presente estudo, 42% tiveram a mesma atitude.

O uso incorreto e desregrado de antibióticos, como o que sugerem os nossos estudos, tem contribuído para aumentar a resistência das bactérias. Se não forem tomadas medidas para travar o desenvolvimento destas resistências, em poucos anos, ficaremos sem armas para combate as infecções bacterianas.