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Médico de família e paciente: boa comunicação não é a regra

22 março 2017
inquérito sobre relação entre médico e paciente

Baixas expectativas marcam a relação entre pacientes e médicos de família, revela o nosso inquérito. Uns dizem-se pouco compreendidos e envolvidos no tratamento. Os médicos gostariam que os doentes fossem transparentes quanto a automedicação e terapias paralelas.

Médico com dificuldade em dizer "não"

A proximidade entre médico e paciente pode suscitar um reverso. Dos médicos inquiridos, 48% assumiram que, todas as semanas, prescrevem exames desnecessários apenas porque o doente insiste. Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), explica: “Ainda se encontram doentes a pedir exames complementares, por admitirem a sua importância. Mas claro que os médicos não devem ceder, por princípio, a estes pedidos se, de facto, são exames desnecessários. Não com o simples argumento de sobrecarregar o sistema, mas por serem desnecessários, arriscados ou irrelevantes do ponto de vista clínico”. 

O número de médicos que, também todas as semanas, cedem à prescrição de fármacos desnecessários, por insistência do doente, é de 27 por cento. Rui Nogueira considera este fenómeno pouco frequente, mas ressalva que pode ser útil, em certas situações, prescrever placebos para tranquilizar o doente.

O nosso inquérito apurou ainda que, semanalmente, 21% dos profissionais recebem pedidos de baixa médica sem razão clínica que os justifique. Mas são apenas 8% os que acedem. O presidente da APMGF comentou igualmente este resultado. “Sim, é muito pouco frequente o doente insistir. O que não quer dizer que não haja doentes simuladores, que tentam e conseguem iludir o médico. Por outro lado, ainda se encontram doentes convictos de que a ‘baixa médica’ é um direito que depende da sua vontade. ‘Venho cá para meter baixa’ é algo que ainda se ouve.”

A proximidade leva a pressão, algo não totalmente assumido pelos doentes. Apesar de os clínicos afirmarem que são regularmente confrontados com estes pedidos, e que por vezes até cedem, a percentagem de doentes que admitem exagerar sintomas para obterem exames, medicamentos ou baixas é mínima. 

O nosso inquérito evidencia, assim, uma inconsistência de comportamentos e uma preocupação. Doente que exagera e médico que não sabe dizer “não” são duas faces de uma moeda que, num universo de 10 milhões de portugueses, tem o efeito de pressionar a sustentabilidade do sistema de saúde.