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Medicina tradicional chinesa: as vozes da polémica

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A recente aprovação do plano de estudos para a licenciatura em medicina tradicional chinesa relançou o debate sobre a validade científica das terapias que esta engloba. Conheça argumentos a favor e contra e as necessidades do consumidor.

10 maio 2018
medicina tradicional chinesa

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A medicina convencional e a tradicional chinesa serão inconciliáveis? O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, diz que sim e reforça que “medicina só há uma, a que tem eficácia comprovada”. Já António Moreira, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Chinesa, afirma que “a ciência não pode ser a religião do século XXI”, até porque o que é verdade hoje amanhã deixa de ser.

Polémicas à parte, mais de 100 milhões de europeus usam terapias não convencionais. Em Portugal, não se conhece o número de utilizadores, mas, segundo António Moreira, serão sobretudo pessoas com ideologia mais conservadora e nível social elevado, o que se compreende, já que todas as despesas ficam a cargo do utilizador. Mas qual será a verdadeira utilidade desta medicina a que o bastonário da Ordem dos Médicos insiste em chamar prática, por não ter evidência científica?

Para a Organização Mundial da Saúde, as medicinas convencional e tradicional não são incompatíveis, podendo funcionar em complementaridade. Segundo o último inquérito que publicámos sobre este tema, já lá vão dez anos, depois de iniciar uma terapia alternativa, cerca de metade dos pacientes decide prosseguir em simultâneo com a convencional. Porém, só 1% confessa ao médico que recorre a outros tratamentos.

Na altura, o terapeuta era claramente preferido ao médico de família, pelo tempo e pela atenção dedicados ao doente. Hoje, o bastonário da Ordem dos Médicos reconhece que o tempo e a disponibilidade dos médicos para o doente continuam a ser um problema. “Temos de humanizar os cuidados de saúde e dar mais tempo aos doentes para estarem com os médicos. A empatia seria suficiente para resolver a maior parte dos problemas que levam os doentes ao médico, mas também poderia reduzir a prescrição de exames.” Miguel Guimarães elegeu a relação médico/doente como bandeira e afirma estar “na iminência de ter os tempos-padrão” para essa relação.

Da complementaridade das terapias não convencionais nem quer ouvir falar, pelo menos, enquanto não provarem eficácia. Já António Moreira veria com bons olhos a integração destas terapias, em particular, da medicina tradicional chinesa, nos serviços de saúde. “A acupuntura seria uma forma eficaz e barata de tratar a dor”, garante.

Evidência fraca

A medicina tradicional chinesa envolve várias práticas: uso de produtos à base de plantas, tai chi e qi gong, moxibustão (aplicação de calor nos pontos de acupuntura, por exemplo, através da combustão de uma planta), dieta, acupuntura e massagem tui na.

A investigação sobre estas práticas é quase sempre inconclusiva, devido à fraca metodologia ou ao facto de os estudos terem características diferentes. Para a maioria das condições de saúde, não há investigações suficientemente rigorosas que permitam concluir com segurança que as terapias são eficazes: algumas revisões sistemáticas mostram possíveis benefícios, mas não se podem assumir os resultados como definitivos.

Entre os estudos existentes, destacam-se os que envolvem a acupuntura, que consiste na estimulação de certos pontos do corpo através de agulhas. Esta terapia parece ter algum benefício em caso de enxaqueca e dor crónica.

Algumas formulações à base de plantas, se usadas em conjunto com psicóticos, parecem ter benefícios na esquizofrenia. O tai chi poderá ajudar no equilíbrio de doentes de Parkinson e a reduzir a dor da fibromialgia. De qualquer modo, é necessária mais e melhor investigação em todas as técnicas.

Há ainda que considerar os riscos, associados sobretudo aos produtos naturais: nos Estados Unidos, por exemplo, têm sido encontrados metais pesados em plantas usadas na fitoterapia.

Consumidores querem mais informação

As terapias não convencionais estão legisladas e os regulamentos em falta desde 2004 começaram a ver a luz do dia. Os planos de formação são controversos, mas, para o consumidor que recorre aos serviços, dão alguma segurança. Espera-se que os estabelecimentos de ensino e os locais de prática sejam fiscalizados, de modo a garantir que a lei é cumprida.

Seria também importante haver maior comunicação entre os profissionais da medicina convencional e tradicional, para uma otimização do tratamento do doente.  A informação sobre riscos e benefícios das terapias é outro aspeto fundamental, para que o utilizador possa tomar decisões informadas. O Ministério da Saúde deveria também disponibilizar uma base de dados sobre os estudos existentes, para melhor orientar os utilizadores.

A segurança dos utentes exige ainda uma maior regulamentação dos produtos à base de plantas, nomeadamente normas de qualidade e um sistema de vigilância durante o uso,  à semelhança da farmacovigilância que existe para os medicamentos. 


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