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Internados em casa: reportagem junto de projeto pioneiro

27 março 2017
Hospitalização em casa

27 março 2017
Estão internados em casa com os cuidados que receberiam no hospital. São doentes da Unidade de Hospitalização Domiciliária do Hospital Garcia de Orta, um projeto pioneiro em Portugal, que tem proporcionado grande satisfação aos utentes e poupanças ao sistema de saúde.

“Enquanto puder beneficiar deste serviço maravilhoso, vou mantê-lo em casa”. Maria da Ascensão Almeida, do Seixal, referia-se ao marido, Celestino Ávila, internado devido a uma infeção urinária grave, mas que apresentava outras complicações de saúde. Graças ao projeto desenvolvido no Hospital Garcia de Orta, Maria da Ascensão pôde cumprir o seu desejo: manter o marido no conforto do lar e da sua família até ao fim, com os mesmos cuidados que teria no hospital.

Todos os dias, os doentes hospitalizados no domicílio recebem, pelo menos, duas visitas de médico e enfermeiro e, se precisarem, são transportados ao hospital para fazer exames. Além disso, estão ligados 24 horas por dia, via telefone, a uma equipa de duas dezenas de profissionais. Quando necessária, a ajuda bate à porta. Como contrapartida, não podem sair: estão à guarda do hospital e têm de cumprir algumas regras, às quais Ricardo Simões, de 72 anos, outro utente que beneficia deste serviço, diz gostar de obedecer.

Com problemas cardiovasculares, diabetes e peso elevado, Ricardo já foi internado por diversas ocasiões no Garcia de Orta, mas não pensa duas vezes quando se trata de ficar hospitalizado em casa. A esposa e a filha, ambas com complicações de saúde, são a preocupação maior deste doente que é também cuidador. “Em casa, é muito melhor: é outro conforto e a comida é muito melhor”, assegura. Quando falámos com Ricardo Simões, em finais de janeiro, estava a um dia de receber alta e passar para os cuidados do centro de saúde.

Uma ideia antiga

A unidade de hospitalização domiciliária do Garcia de Orta, a funcionar desde novembro de 2015, internou 281 doentes no primeiro ano de atividade. De início, os doentes eram recrutados à porta das urgências. Atualmente, alguns colegas já encaminham os pacientes para esta unidade. Porém,como a segurança é prioritária, nem todos são selecionáveis. Entre as patologias passíveis de serem tratadas em casa, contam-se as infeções urinárias, as pneumonias, as complicações respiratórias e as infeções da pele. Depois, as casas dos doentes, nos concelhos de Almada e do Seixal, têm de apresentar condições mínimas de salubridade e deve ficar assegurada a presença de um cuidador.

Cerca de 40 a 45 minutos é quanto podem durar as visitas. Nestas, além de cuidados médicos, surgem relações de proximidade, gratificantes para ambas as partes e com uma poupança média para o sisetma de saúde na ordem dos 1600 euros por doente. Os profissionais tratam os doentes e os familiares pelo nome, fazem piadas e tentam levar conforto. Mais do que uma profissão, é uma missão, uma arte que permite ver nas ligaduras brancas das pernas de Ricardo Simões as meias de Cristiano Ronaldo.

Mais do que o doente

A equipa acaba por não se deter apenas no doente, mas em tudo o que o envolve, o que obriga estes profissionais a manterem uma estreita articulação com outros organismos, como a Segurança Social, para sinalizarem situações problemáticas. A proximidade revela-se proveitosa: como os elementos das várias equipas se conhecem, os problemas resolvem-se mais rapidamente. A experiência mostra também que a má articulação entre os cuidados primários e os hospitais, uma crítica frequente ao nosso sistema de saúde, não é uma inevitabilidade.

No simpósio que a equipa organizou em finais de 2016, para apresentar resultados do projeto, representantes de muitos hospitais do País queriam aprender. Queriam descobrir o segredo de levar o hospital a casa dos cidadãos, algo que, de início, fazia torcer narizes de doentes e familiares. Mas, agora, já são estes a pedirem para ficarem em casa. “Está aborrecido, Sr. Ricardo?”, perguntava Sérgio Sebastião, enfermeiro responsável pelo serviço, ao perceber que, lá no meio de um humor agudo, assomava algum desalento com a sua situação. “Estaria mais aborrecido se estivesse no hospital”.


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