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Estrangeiros têm direito a cuidados de saúde

Entrevista a Tito Campos e Matos

Vice-presidente do Conselho Português para os Refugiados

 

Os refugiados têm algumas necessidades de saúde particulares?

Há situações em que deveriam ter mais apoio especializado. Pelas situações vividas, há pessoas com necessidade de apoio particular, por exemplo, ao nível da saúde mental. Por vezes, é difícil obter consultas, até por haver falta de especialistas com experiência em certas áreas, como em traumas de guerra... O número de psicólogos e psiquiatras, por si, já é insuficiente para cobrir as necessidades do País... Também é comum os refugiados virem com lesões dermatológicas ou ortopédicas e problemas dentários. O acesso à medicina dentária no Serviço Nacional de Saúde é praticamente nulo, inclusive para os portugueses. Estas dificuldades podem ser mais dramáticas para estas pessoas, porque não têm rede de suporte familiar e não conseguem aceder a consultas privadas. Não podemos esquecer que, enquanto decorre o pedido de asilo, não podem trabalhar. Neste período, também não têm direito a comparticipação nos medicamentos. Apesar destas dificuldades, o acesso aos cuidados de saúde em Portugal é muito positivo e tem melhorado nos últimos anos.

saude para estrangeiros

Quando a língua é uma barreira, como se resolve?

Há a linha de tradução simultânea, via telefone, do Alto Comissariado para as Migrações, mas o intérprete pode não estar disponível. Muitas vezes, os próprios médicos tentam arranjar intérpretes voluntários... Para as consultas marcadas, podemos tentar arranjar um intérprete presencial. Mas a situação é complicada, sobretudo, fora dos grandes centros, onde há menos recursos e as pessoas não conhecem tão bem o sistema. As dificuldades começam antes de chegar ao médico, nos serviços administrativos, onde é preciso explicar como fazer a inscrição, que é preciso esperar na fila, porque as pessoas não sabem.

Há queixas de discriminação?

De discriminação, não. Por vezes, há má compreensão, devido às diferenças culturais. Por exemplo, nalgumas culturas a mulher não pode ficar sozinha no hospital, as meninas, com 6 ou 7 anos, não podem ficar sozinhas numa enfermaria com rapazes. São situações difíceis de gerir. É preciso continuar a fazer um trabalho de interculturalidade.

Se pudesse satisfazer um desejo, o que pediria?

Talvez mais intérpretes para os serviços de saúde, mediadores com competências ao nível das relações interculturais e... se calhar, o sonho de qualquer português, mais consultas da especialidade nos serviços públicos.