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Cirurgias: hospitais ignoram check-list que garante segurança do utente

29 junho 2015

29 junho 2015

Há uma check-list com todos os passos a verificar antes, durante e depois de uma cirurgia. É obrigatória, mas só metade dos hospitais parece segui-la.

Dos 41 hospitais do Serviço Nacional de Saúde que fazem cirurgias, 22 não confirmam se a lista de verificação da segurança cirúrgica foi cumprida pelos profissionais, de acordo com o relatório “Cirurgia Salva Vidas” da Direção-Geral da Saúde. Esta lista é obrigatória desde 2013 e é altamente recomendada pela Organização Mundial da Saúde.

Os nossos especialistas analisaram o relatório e destacam que em 2014: 

  • 22 dos 41 hospitais que fazem cirurgias não realizaram auditorias para verificar se a lista de verificação da segurança cirúrgica foi preenchida;

  • 12 dos 41 não avaliaram se a lista estava a ser aplicada como manda a Direção-Geral da Saúde. Das 29 unidades que avaliaram, 16% encontraram não conformidades;

  • 2 unidades apresentaram casos de cirurgia feita no local errado. As restantes indicaram que era zero ou não disponham dessa informação;

  • 40 unidades não disponham de dados sobre procedimentos errados e 1 reportou uma situação de erro;

  • 40 unidades não fizeram intervenções cirúrgicas em doentes errados e 1 indicou não ter essa informação; 

  • 3 unidades de saúde reportaram casos de retenção de objetos estranhos no local cirúrgico  e 38 apresentaram zero situações;

  • 21 unidades reportaram incidentes cirúrgicos.

Apesar de os hospitais serem obrigados a comunicar estes dados, de 6 em 6 meses, à Direção-Geral da Saúde, só 7 cumpriram. Os dados só foram divulgados depois de a Direção-Geral da Saúde os ter solicitado às Comissões da Qualidade e Segurança dos hospitais que fazem cirurgias. 

Os resultados e a não comunicação de dados mostram que a cultura de segurança nas cirurgias ainda necessita de ser muito reforçada. Os registos sistemáticos e a sua avaliação são essenciais para a análise das ocorrências e incidentes e também para melhorar a atuação dos profissionais em algumas situações e prevenir problemas. 

Perante este cenário, uma unidade de saúde com mais notificações pode, na verdade, oferecer mais garantias de segurança ao utente do que outra que não tem essa informação ou que reporta zero. 

Num estudo de 2011, avaliámos a perceção de 1575 portugueses sobre a segurança dos procedimentos médicos e o risco de erros. Mais de 35% dos inquiridos mostrou-se preocupado com a possibilidade de ser vítima de erro e 27% declaram mesmo estar muito preocupados. Dos inquiridos que tinham passado pela experiência de erro ou negligência, 42% não apresentaram queixa por se sentirem impotentes. Por isso, defendemos que os dados relativos aos atos médicos devem estar acessíveis aos utentes, para uma maior transparência do sistema, tal como está escrito na Carta de Direitos dos Doentes.

Se suspeitar de erro ou falha evidente
Se pensa ter sido vítima de um erro, notifique a Direção-Geral da Saúde através do formulário online NotifiQ@. Pode comunicar a situação anonimamente ou não. Esta entidade vai investigar com o objetivo de evitar que uma situação semelhante volte a acontecer. 

Também há meios para reclamar. Recorra logo ao Livro de Reclamações. A queixa é remetida à Entidade Reguladora da Saúde. Outros organismos que podem ajudá-lo são a Inspeção-Geral das atividades em Saúde, a Ordem dos Médicos, a Administração Regional de Saúde e o Instituto Nacional de Medicina Legal. Também pode pedir uma segunda opinião médica.