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Centros de saúde: espera é doença crónica

26 maio 2014

26 maio 2014

Três em cada dez dos nossos inquiridos esperaram um mês ou mais pela consulta com o médico de família, mas a satisfação com os serviços aumentou nos últimos 14 anos.

A satisfação dos utentes com os cuidados de saúde primários, conhecidos por centros de saúde, aumenta gradualmente há 14 anos, apesar da falta de médicos de família, das longas esperas pelas consultas e da falta de informação sobre os serviços. Estas são as principais conclusões do nosso inquérito a 3556 utentes residentes de norte a sul do país, que responderam sobre a unidade de saúde que frequentam, indicando o respetivo nome. Nestas, encontram-se Unidades de Saúde Familiares (USF) e Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP).

Os dois modelos distinguem-se, entre outros aspetos, pela remuneração em função dos objetivos: ao contrário das UCSP, as USF recebem incentivos (para a unidade e profissionais) se cumprirem os objetivos a que se propõem.

Faltam médicos
Segundo o inquérito, a maioria dos portugueses está inscrita numa unidade de saúde a menos de três quilómetros de casa, e demora até 15 minutos a lá chegar, mas um em cada dez não tem médico de família. O problema é mais grave no Algarve e em Lisboa e Vale do Tejo: 25 e 15% dos utentes, respetivamente, revelaram não ter médico. A Sul, o número de inquiridos nestas condições duplicou nos últimos cinco anos.

Um relatório preliminar do Tribunal de Contas, publicado no início deste ano, aponta no mesmo sentido. Os dados indicam cerca de um milhão e seiscentos mil utentes inscritos nos centros de saúde sem médico de família no fim de 2012.

O número corresponde a um aumento de 24% face a 2006, altura em que começaram a surgir as Unidades de Saúde Familiares, cujo propósito era reduzir as listas de pacientes sem médico.
A falta de vagas e a reforma ou transferência do profissional, sem substituição, foram os principais motivos apontados pelos inquiridos para não terem médico. Dos que tem, 65% não o escolheram, porque o centro de saúde não lhes deu essa oportunidade. Um quarto não sabia sequer que tinha direito de opção.

Com ou sem médico de família, a maioria recorreu a serviços de saúde, pelo menos, quatro vezes no ano anterior ao inquérito. O setor público é o mais frequentado, sobretudo, em consultas de medicina geral e familiar, serviços de enfermagem e vacinas. Noutras especialidades, como estomatologia (dentista) e dermatologia, ganham os privados. Quase um terço dos inquiridos recorreu a serviços privados de saúde no último ano, por falta de resposta do serviço publico.

A grande maioria das marcações é feita presencialmente ou por telefone. O recurso a novas tecnologias, embora em crescimento, está longe de ser universal: só 10% dos inquiridos marcaram consultas por e-mail, e 22% através da Internet, na plataforma E-agenda, do Portal do Utente. Em Espanha, quase 80% revelam que agendam as consultas por via eletrónica.

Consultas a um mês
Marcada a consulta, três em cada 10 portugueses esperam, pelo menos, um mês, pelo encontro com o médico de família. A situação é idêntica à que detetamos em 2009, aquando do nosso último estudo. No país vizinho e em Itália, nove em cada 10 pacientes conseguem resposta no prazo de uma semana.

As queixas persistem nas mesmas áreas: tempo de espera, disponibilidade de consultas especializadas e de exames médicos no centro de saúde, serviços ao domicílio, atendimento telefónico, formalidades para marcar consultas e competência dos serviços administrativos.

O último critério e os horários da unidade de saúde são os parâmetros mais valorizados por quem recorre a estas unidades. Os utentes das USF estão globalmente mais satisfeitos com a organização dos serviços do que os das outras unidades em todas as regiões. Ao nível do tempo de espera pela consulta com o médico de família, as USF destacam-se pela positiva no Centro e em Lisboa e Vale do Tejo. Nas restantes regiões, não encontramos diferenças entre dois modelos de organização.

A informação aumentou nos últimos cinco anos. No geral, foi o critério em que a satisfação dos utentes mais cresceu. Ainda assim, um quarto dos inquiridos mostrou-se descontente, sobretudo, por não ser alertado para o direito de escolha do médico. A informação sobre os custos dos serviços e as isenções é outro ponto a melhorar. Os algarvios são, novamente, os mais descontentes, mas desta vez têm a companhia dos utentes de Lisboa e Vale do Tejo. A informação online também precisa de investimento: a maioria dos que a consulta não encontra o que procura.

No geral, e apesar do aumento do nível de satisfação dos utentes nos últimos anos, as unidades de saúde não conseguem dar resposta a todas as necessidades dos utentes. As autoridades de saúde devem ter em conta as queixas dos consumidores e reorganizar os serviços de modo a dar-lhes resposta.

O nosso estudo
Em outubro de 2013, enviámos questionários a uma amostra da população adulta, estratificada por sexo, grupos etários e região. As respostas foram ainda ajustadas de acordo com as habilitações literárias. O mesmo estudo foi conduzido em Espanha e Itália.

Ao nível nacional, recebemos 3556 respostas válidas. Os resultados refletem a opinião dos utentes sobre o funcionamento dos centros de saúde e permitem avaliar a satisfação nas zonas de influência de 37 agrupamentos de centros de saúde.