Notícias

$name

Gui Paiva, 66 anos, de Tercena, arredores de Lisboa, reformou-se há 2 anos, mas não cessou a atividade. Inscreveu-se na Universidade Sénior e começou a dar vida a um sonho antigo: aprender “pintura de arte”. Também faz teatro, estuda inglês, cavaquinho e informática. Jesuína Cruz, 81 anos, de Lisboa, canta, dança e participa em todas as sessões de esclarecimento promovidas pela Academia da Terceira Idade dos Olivais, um bairro da capital.

Georgina do Carmo, 85 anos, optou por viver numa residência assistida, para usufruir de assistência durante 24 horas. Vai ao ginásio todos os dias e percorre um quilómetro por semana, a nadar. Ester Clemente, 70 anos, da Amadora, apesar da dificuldade em movimentar-se, faz a lida da casa, vai às compras e não dispensa a fisioterapia e a hidroginástica, em busca de força para o seu joelho fraturado numa queda.

São exemplos de vida que não param com o avançar da idade, relatados na sessão de esclarecimento sobre saúde e alimentação. Esta ação da TESTE SAÚDE decorreu no início de dezembro, no Encontro Internacional para o Envelhecimento Ativo, e contou com uma plateia interessada e participativa.

Anabela Jorge e Dulce Ricardo, da TESTE SAÚDE, aconselharam os consumidores seniores sobre saúde e alimentação.
Anabela Jorge e Dulce Ricardo, da TESTE SAÚDE, aconselharam os consumidores seniores sobre saúde e alimentação.

Trocar as voltas à natureza

Apesar de inevitável, o efeito do processo de envelhecimento natural pode ser retardado ou limitado. Quem adota um estilo de vida saudável desde tenra idade, como não fumar, praticar exercício e seguir uma dieta equilibrada, sofre menos. “A qualidade de vida em idades avançadas depende, em grande parte, do que se investiu durante a infância e juventude”, explicou Anabela Jorge, médica responsável por vários estudos da TESTE SAÚDE, à audiência atenta, na Feira Internacional de Lisboa (FIL).

Se não foi dos mais cuidadosos, ainda pode circunscrever os estragos. Caso tenha sido exemplar, mantenha a direção e não se agarre ao sofá quando a reforma determinar o fim da vida profissional. A atividade física e mental ajuda a manter as capacidades, bem como a prevenir e controlar doenças crónicas, incapacitantes e degenerativas, como diabetes, enfarte, AVC, artroses e osteoporose.

O ginásio e a piscina foram as soluções encontradas por Georgina para manter o corpo na linha. Mas existem outras atividades mais simples, sem grande investimento económico, que produzem efeitos idênticos. Pode disciplinar-se, como Gui Paiva, dedicar uma parte da manhã à corrida, marcha e exercícios abdominais ou de flexibilidade no jardim mais próximo de si, ou seguir as pisadas de Jesuína Cruz, que guarda o passe dos transportes públicos no bolso e anda a pé. A bicicleta e a dança são outras possibilidades. O importante é mexer-se 30 minutos diários, pelo menos, cinco dias por semana. Caso tenha alguma limitação física, fale com o seu médico sobre as atividades a desenvolver. “A fisioterapia e a hidroginástica têm ajudado muito. Não podemos ficar parados”, afirma Ester Clemente, que já foi operada três vezes à rótula e continua a lutar pela recuperação da mobilidade.

“A fazer exercício, no computador ou na Universidade Sénior: estou ocupado todo o dia”, Gui Paiva, 66 anos.
“A fazer exercício, no computador ou na Universidade Sénior: estou ocupado todo o dia”, Gui Paiva, 66 anos.
“Nunca me sinto sozinha, por vezes, sinto-me é cansada de tanta atividade”, Jesuína Cruz, 81 anos.
“Nunca me sinto sozinha, por vezes, sinto-me é cansada de tanta atividade”, Jesuína Cruz, 81 anos.

Além do benefício físico, o exercício ajuda a combater o isolamento e a conservar a mente sã. “Se estivermos aborrecidos em casa, vamos dar uma volta pelo bairro e voltamos com outra disposição”, afirma, em jeito de conselho, Jesuína Cruz. Mas o que mais agrada a esta avó de 81 anos são os espetáculos que música e dança que, juntamente com os seus colegas do centro de dia, leva às escolas: “as crianças de 4 e 5 anos adoram e nós também”, afirma orgulhosa.

Manter-se ocupado durante o dia e aprender sempre são os mandamentos de Gui Paiva. Apesar de viver com a sua mãe de 93 anos numa casa que já albergou uma grande família, nunca se sente sozinho: “todas as tardes vou à universidade, onde o convívio é espetacular, e também gosto da Internet. Recebo dezenas de mensagens por dia. Hoje até me chegaram algumas de Inglaterra”, conta o ex-desenhador gráfico, que recebe também grande apoio dos filhos.

Dieta apurada no sabor

Georgina não tem família chegada. Vive com o marido, que acompanha de perto, sobretudo, ao nível alimentar, “porque é muito guloso e gosta de tudo docinho”, revela.

A ingestão de açúcar em excesso é comum entre os mais velhos. “Muitas vezes devido a problemas de dentição, os idosos substituem alimentos mais difíceis de mastigar, como fruta e legumes, por outros de valor nutricional mais pobre, como doces e bolos”, afirma Dulce Ricardo, técnica alimentar da DECO PROTESTE. Esta prática, associada ao consumo de quantidades elevadas de gorduras, contribui, entre outros problemas, para o excesso de peso e obesidade. Estes problemas aumentam o risco de hipertensão, diabetes, enfarte e acidente vascular cerebral.

Com o passar dos anos, a velocidade de transformação dos alimentos pelo organismo diminui, pelo que não podemos continuar a comer da mesma maneira. As necessidades energéticas diminuem entre 5% (dos 40 aos 49 anos) e 30% (a partir dos 70 anos), mesmo para quem se mantém ativo. É necessário, por isso, adaptar a quantidade de alimentos.

Georgina Carmo, 85 anos, e o marido, 88 anos, sempre que podem, participam em “cursos” relacionados com a alimentação.
Georgina Carmo, 85 anos, e o marido, 88 anos, sempre que podem, participam em “cursos” relacionados com a alimentação.
Ester Clemente, 70 anos, tem dificuldade em movimentar-se, mas continua ativa: a lida da casa, as compras e o croché são as principais ocupações
Ester Clemente, 70 anos, tem dificuldade em movimentar-se, mas continua ativa: a lida da casa, as compras e o croché são as principais ocupações

“O ideal é fazer quatro a seis refeições por dia, comendo pouco de cada vez”, aconselha Dulce Ricardo. A recomendação implica alteração de hábitos para Ester Clemente, habituada a fazer apenas as três principais. Georgina, pelo contrário, faz múltiplas refeições, porque o “estômago aguenta pouca quantidade de cada vez”. Já o marido, que se levanta tarde e deita cedo, raramente cumpre o mínimo.

Jesuína Cruz come várias vezes por dia, mas tem dificuldade em ingerir fruta: nunca atinge as 3 a 5 doses diárias recomendadas. A falta de sede também a impede de beber a água que devia. Em contrapartida, é grande apreciadora de hortaliça. Por isso, tenta compensar com sopa.

Esta é uma ótima forma de obter as vitaminas, os minerais e as fibras necessários, desde que inclua vários tipos de vegetais. Também contribui para satisfazer as necessidades de líquidos (1,5 litros por dia). Além do reforço da sopa, a nossa técnica alimentar, sugere purés e sumos de fruta e chá. Evite adicionar muito açúcar ao último.

Os laticínios são os principais fornecedores de cálcio. Obtém a dose necessária, por exemplo, com três copos de leite, um iogurte e duas fatias de queijo.

Alternar entre carne e peixe é outra regra fundamental. As refeições vegetarianas também podem ser uma opção. Se tiver dificuldade em mastigar, pode triturar os alimentos e misturá-los na sopa. Os pratos de consistência mole, como empadão, pudim de peixe e lasanha também são boa opção. Os molhos à base de água e leite podem amaciar, permitem reduzir a quantidade de gordura e dão sabor.

Gui Paiva gosta de cozinhar. Em casa, prefere a sopa, carne de aves grelhadas e as saladas. Faz assados no forno com pouca gordura e quase não adiciona sal. Mas quando se junta com os amigos também gosta “de um bom leitão e de um bom vinho”. Ester Clemente, por seu lado, confessa que consome mais fritos do que deveria, embora tente variar no modo de confeção.
A dieta variada e equilibrada é a base da vida saudável em qualquer idade. Neste equilíbrio, há espaço para o leitão do Gui, os fritos da Ester e os docinhos do marido de Georgina, desde que consumidos ocasionalmente, de forma moderada. Como refere Dulce Ricardo: “envelhecer é um privilégio, que deve ser vivido com prazer”.