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Suicídio: entrevista a José Carlos Santos, da Associação Portuguesa de Suicidologia

06 janeiro 2012 Arquivado

06 janeiro 2012 Arquivado

O suicídio é uma decisão permanente para problemas transitórios. O apoio da família e amigos e a ajuda profissional são a chave para voltar a ver o mundo com cores vivas.

Crianças, jovens e estudantes universitários

Têm surgido alguns casos de suicídios de crianças entre nós. O que pode levar uma criança a sentir que a morte é a única saída?
Falando no geral e de nenhum caso em concreto, podem surgir questões de natureza individual e quase sempre uma doença do foro mental, sobretudo depressão. A depressão leva à ideia de que o problema não tem solução além da morte. Como é que isto se instala? Pode ser por doença mental, dificuldades escolares, ausência do suporte de amigos ou confidentes, ruturas afetivas muito dramatizadas, problemas a nível familiar. O Prof. Daniel Sampaio foi a pessoa que mais estudou estas questões em Portugal. Trata-se de um tipo de diálogo que acontece quando os pais triangulam com o filho. A discussão centra-se no miúdo, mas é entre pai e mãe: “Por causa da tua mãe ou por causa do teu pai”, “se não fosses tu, já tinha abandonado o casamento”. O miúdo recebe uma carga excessiva e assume uma responsabilidade para a qual não está preparado. Nestes casos, se chega a suicidar-se, é comum deixar uma carta do género “espero que sejam felizes na minha ausência”. Esta tipologia está bem estudada em Portugal. É a ideia de salvar pela ausência. A criança parte para que os adultos funcionem bem.

Depois, há crianças com 12 ou 13 anos que ainda não têm a noção de irreversibilidade. Por exemplo, uma jovem que andava em consulta disse-me: “Eu já pensei muitas vezes em suicidar-me, mas nunca o fiz, porque sei que, no dia seguinte, vou arrepender-me”. Esta noção de que não há dia seguinte ainda não está adquirida. Muitas vezes, não querem morrer, mas aliviar o sofrimento. Existem também os indivíduos que procuram transformar o sofrimento psicológico em sofrimento físico. É o que se passa, por exemplo, com os que se cortam. Dizem, muitas vezes, “eu não consigo viver com o sofrimento psicológico, prefiro o físico e, quando vejo sangue, sinto-me aliviado”. O discurso pode causar estranheza, mas é, de facto, o que eles sentem.

Os adolescentes dão algum sinal?
Há comportamentos mais ou menos comuns. Por exemplo, se um adolescente diz “hoje, à noite, quero estar sozinho, porque quero pensar na minha vida”, à partida, isso é normal. Mas, se disser sistematicamente aos pais “hoje não quero jantar convosco, prefiro ficar no quarto”, recusar os convites dos amigos para sair ou as atividades de grupo, deixar de ter bom rendimento escolar ou oferecer objetos estimados, há que ficar alerta, pois são sinais de risco.

Existe também a questão do namorado, confidente ou grupo de pares. Mesmo que os pais não se identifiquem com o grupo de pares, é importante não obrigar o filho a escolher entre este e a família, porque a opção vai recair sobre o primeiro. O modelo de comportamento deixa, então, de ser a família. Ainda que, por vezes, os pais tenham de gerir algumas tensões do ponto de vista cultural, ambiental e social, provocar ruturas é o pior, porque, mesmo que os jovens integrem, por exemplo, um grupo gótico ou estejam associados a bandas de música que defendam ideias de morte, sempre que são criadas ruturas, deixam de ter um continente para pôr dúvidas. Se colocarem uma questão do tipo “os meus amigos dizem isto, o que achas?” e o pai ou a mãe responderem “isso é uma estupidez, não quero falar mais no assunto”, na próxima vez, já não lhes vão contar e a família perde a condição de referencial. Os miúdos precisam de testar limites, mas trata-se de um vaivém em termos de autonomia. Precisam de saber que, à noite, têm o colo do pai ou da mãe. Se deixarem de poder fazer este vaivém, os comportamentos de risco aumentam, quando antes eram doseados por uma relação afetiva com a família ou alguém que, sendo adulto, tinha experiência de vida e podia dar conselhos.

Na escola, há jovens que se afirmam por serem mal comportados...
Sim, há grupos em que os miúdos são mais considerados quanto mais mal-educados forem. São ousados, faltam às aulas, troçam dos professores, fazem disparates e, depois, chegam ao intervalo e gabam-se. É uma forma de notoriedade. Precisam de alguém que lhes diga “entendi o que fizeste, mas vamos pensar como poderia ser a tua vida se fizesses de outra forma, como é que o teu grupo te reconheceria se, em vez de teres zero a matemática, tivesses ‘satisfaz’ no próximo teste”.

Embora as generalizações sejam perigosas, nesta fase, os pais transferem a função da família para as escolas. Deixam os miúdos de manhã e vão buscá-los ao fim da tarde, chegam a casa cansados e não têm disponibilidade para ouvi-los. Depois, exigem que a escola desempenhe a função que anteriormente era da família.

Coimbra tem um problema de suicídio entre estudantes universitários. Como explica o fenómeno?
Os estudantes saem do secundário e, quando chegam a Coimbra, sofrem uma passagem demasiado brusca. Não conseguem gerir o tempo nem o dinheiro, no fundo, a sua autonomia. Alguns são muito bons estudantes e têm dificuldade em lidar com o fracasso. Coimbra é uma cidade pequena, o que, à partida, seria um fator protetor. Mas pesa o afastamento dos anos anteriores de vida. Têm de adaptar-se a novos amigos e formas de aculturação e integração. Há uma série de transições e mudanças, algumas demasiado bruscas para a preparação dos adolescentes.

Em Lisboa, também há este tipo de fenómenos. Se atentarmos, por exemplo, no núcleo de estudos epidemiológicos do Hospital de Santa Maria, fundado pelo Prof. Daniel Sampaio, verificamos casos de jovens com problemas. Mas, em Lisboa, a concentração numa única instituição é menor. Em Coimbra, existe uma perceção mais realista do que em Lisboa, que tem muitos pontos de dispersão. Os jovens são encaminhados para vários hospitais e, às vezes, é difícil obter uma ideia global.

Outro aspeto importante é o facto de Lisboa ter muitos estudantes que não saem de casa dos pais, pelo que não sofrem um choque tão grande. Coimbra é uma cidade menor, com cerca de 100 mil habitantes e mais de 20 mil estudantes no ensino superior. Durante a Queima das Fitas, o problema agrava-se, porque são associados todos os problemas da adolescência ao consumo de álcool, que é um potenciador.

Quando o Kurt Cobain se suicidou, em 1994, houve casos de imitação. O que leva um adolescente a seguir o seu ídolo?
Os fenómenos de imitação são antigos. Um caso bem famoso é aquele que ficou conhecido como efeito Werther. Este era uma personagem de um romance de Goethe, que mantinha um amor platónico por uma senhora com casamento marcado. Entretanto, ela seguiu a sua vida e ele suicidou-se. O livro acabou por ser proibido em algumas regiões da Alemanha no século XIX, porque muitas pessoas com um desgosto amoroso viram a solução no suicídio.

Mais recentemente, algo de semelhante aconteceu devido ao Kurt Cobain dos Nirvana, sobretudo entre os adolescentes. Deixou uma carta, erradamente tornada pública, que transmitia a ideia de que mais valia acabar com a vida do que ter um sofrimento permanente. Nos adolescentes, estas afirmações, que preconizam uma ideia romântica, têm um grande impacto. Trata-se da famosa ideia do Che Guevara segundo a qual “mais vale morrer de pé do que viver toda a vida de joelhos”. Muitos adolescentes suicidaram-se e deixaram uma carta parecida com a do Kurt Cobain. Por isso, os fenómenos de imitação são agora conhecidos como efeito Werther-Cobain.

Devemos colocar os suicídios de famosos na ótica de quem está doente. O que é que achamos das celebridades? Que não têm problemas e são felicíssimas. Quem está doente pensa: “Se aquele, que era famoso, não teve solução e foi obrigado a suicidar-se, o que há de ser de mim, que sou pobre e não tenho amigos nem futuro?” A solução passa a ser o suicídio.

Por isso, a Organização Mundial de Saúde defende que a comunicação social não deve associar sucesso nem coragem ao suicídio. Sucesso e coragem temos nós todos, que estamos vivos. Quem se suicida é sempre alguém que experimentou o insucesso em várias órbitas.