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Saúde mental: equipas comunitárias inauguram resposta mais rápida

Mais celeridade na resposta ao paciente e na perceção multidisciplinar. O projeto-piloto das equipas comunitárias de saúde mental, na zona de Beja, inaugura uma abordagem mais ágil e completa. Desde abril, a espera por consulta diminuiu.

fachada do departamento de psiquiatria e saúde mental do Hospital de Beja

António Cunha/4See

Contrariar o verbo “deixar”. De sair de casa, de tomar banho, de abandonar a cama, de falar. E acercar o verbo “começar”. Conquistas gigantescas para muitos dos que carregam sintomas de depressão. Que não são ganhos solitários. Por detrás da recuperação de gestos reguladores da existência quotidiana, estão profissionais unidos, que festejam o vislumbre progressivo da vitória sobre a doença. Psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e assistentes sociais entreolham sinergicamente a disciplina do lado, a favor do paciente. A Equipa Comunitária de Saúde Mental, que intervém no concelho de Beja, é coordenada pelo psiquiatra Vasco Nogueira. O Hospital José Joaquim Fernandes criou a equipa em abril de 2021, em conjunto com mais três, que atuam noutros concelhos do distrito. Ao todo, são quatro dos dez projetos-piloto em teste no País.

Múltiplas são as mais-valias, como a troca de opiniões numa abordagem multidisciplinar, que pode até decidir-se numa informal reunião de momento, e a aceleração da resposta. Como afirma Vasco Nogueira, “em alguns serviços, a marcação pode demorar largos meses, mas agora a última consulta de psiquiatria marcada no nosso serviço é daqui a três semanas, e poderia ser ainda mais rápida”.

 
Rute Carvalho (enfermeira especialista em saúde mental), Josefa Coelho (assistente social), Vanessa Pires (assistente administrativa), Catarina Gaspar (psicóloga), Vasco Nogueira (médico psiquiatra), Sónia Nunes (terapeuta ocupacional), Nuno Correia (enfermeiro especialista em saúde mental), Paulo Barbosa (médico do internato de psiquiatria) e Sónia Farinha Silva (médica do internato de psiquiatria). Faltaram à fotografia Ana Pedro Costa e Lúcio Silva, ambos médicos do internato de psiquiatria.

Mais do que meras visitas

Tendo já ultrapassado os 70 anos, Silvina Martins vive sozinha. A semiescuridão das divisões confirma a negação das saídas de casa. Enfrentar o exterior é um dos sinais de retorno à normalização da vida. Nuno Correia, enfermeiro especialista em saúde mental, e uma das faces mais visíveis da equipa comunitária, fala baixo e serenamente, e analisa o ambiente à sua volta. A condição da pessoa visitada não está apenas estampada na cara ou na expressão corporal, mas também no espaço onde habita. A avaliação é feita discretamente. As andanças da vida - e da mente - puseram Silvina Martins no radar da equipa comunitária, e a relação de confiança já tem meses. 

 
Nuno Correia, um dos enfermeiros da equipa comunitária, conversa com Silvina Martins, paciente que visita semanalmente, para lhe administrar medicamentos e avaliar o seu estado.

Nas deslocações semanais a meia dúzia de domicílios, missão que partilha com a enfermeira Rute Carvalho, Nuno Correia visita doentes com alta de internamento, a necessitarem de estabilização. Mas também dá assistência a quem carece de acompanhamento regular, para evitar o internamento. E existem as visitas para vigiar a adesão à terapêutica, por exemplo, na sequência de uma suspeita do médico na consulta hospitalar. O enfermeiro Nuno explica alguns destes quadros: “Por vezes, surge a chamada patologia dual. Além do problema psiquiátrico, há outro, que, normalmente, é o consumo de álcool ou de drogas. Numa fase de depressão, a tendência dos doentes é consumirem álcool, o que os leva a abandonarem a terapêutica e provoca desestabilização.” Finalmente, para os doentes que não se conseguem deslocar, é na visita que se aplicam os medicamentos injetáveis. 

Um passeio, uma leitura ou uma escrita são pontos de partida para reestruturar os interesses de quem padece de doença mental. No caso da depressão, estes pequenos passos podem ocorrer depois da recuperação das rotinas diárias, como cuidar de si e dos outros. Sónia Nunes, terapeuta ocupacional, elabora um plano, no qual até a rotina mais comezinha importa. “Um terapeuta ocupacional é polivalente. Trabalha as competências físicas, cognitivas e emocionais. Faço um horário, com todas as atividades, de segunda a domingo”, explica. “Se a pessoa se envolver significativamente, começamos a desfasar as consultas, passando-as de semanais para quinzenais ou mensais. Se houver dificuldades em cumprir, mantemos a semanal, até conseguirmos um bom suporte ocupacional na sua vida”, acrescenta. 

Equipas de saúde mental interdisciplinares 

E como se processa a aclamada interdisciplinaridade? A psicóloga Catarina Gaspar responde: “Temos muitos doentes que passam por todos os membros da equipa. Alguns são acompanhados pelo psiquiatra. A maior parte faz depois psicoterapia comigo e alguns, terapia ocupacional. Assim, há interligação entre a medicação, a psicoterapia, a terapia ocupacional, as idas ao domicílio... A assistente social ajuda, por vezes, a perceber situações de cuidadores com burnout…”

A psicóloga garante ainda a articulação entre o departamento de psiquiatria e saúde mental do hospital com o centro de saúde de Beja: “O objetivo é atingir uma maior área de população e reduzir o tempo de espera. Estamos interligados, para respondermos facilmente às pessoas.” O foco primeiro e último, resume Sónia Nunes, “são os utentes”. Uma ideia reforçada por Catarina Gaspar: “Tornar a vida funcional é a nossa maior conquista.” E fala-nos de uma paciente de 74 anos. Um dia, não a reconheceu, de cabelo arranjado e roupa bem alinhada, quando antes naufragava em pensamentos suicidas, mal saindo da cama. Aos poucos, recomeçou a ir ao cabeleireiro, a cozinhar, a fazer caminhadas e trabalhos manuais... Trivialidades para o senso comum, mas verdadeiros milagres nascidos dos duelos de uma mente enferma.

"Só dinheiro não resolve o problema"

Psiquiatra e coordenador da equipa comunitária do concelho de Beja, Vasco Nogueira explica a conceção das equipas multidisciplinares, que articulam vários serviços e unidades de cuidados de saúde, próximas do doente e do seu contexto. A receita que está a ser testada no Alentejo, a resultar, será replicada.

 
Vasco Nogueira, médico psiquiatra, é coordenador da equipa comunitária do concelho de Beja.

Como contextualiza este projeto-piloto?

Trata-se de uma espécie de lança em África, porque, de facto, o Alentejo era um deserto em termos de resposta à saúde e à doença mental. Fatores económicos, sociais, culturais e demográficos explicam que esta seja a região mais assolada pelo suicídio, e não só pela doença mental. O envelhecimento, a emigração e o êxodo rural são riscos acrescidos. Ao contrário do que, tradicionalmente, se considerava, não é só o homem velho, isolado, deprimido, alcoólico, já com múltiplas patologias e com acesso a armas de fogo, que se suicida. O fenómeno sempre existiu também noutros grupos da população. Esta era, assim, uma região superprioritária de intervenção, pelo que o Ministério da Saúde decidiu lançar o desafio à nossa chefe, a Dr.ª Ana Matos Pires, que veio para cá com um espírito de missão que, ainda hoje, é muito vincado. Em cinco ou seis anos, transformou um serviço que quase não existia num serviço que se candidata a prémios, a investimentos, a projetos prioritários, e forma especialistas. Não é por acaso que é uma das pessoas que planeiam os serviços ao nível nacional.

A transição para as equipas comunitárias foi então natural.

Tínhamos uma terra por lavrar, e a semente foi lançada pela Dr.ª Ana. Quando surgiram recursos para médicos integrarem as equipas de enfermagem já existentes, o distrito começou a ser dividido em áreas, e o serviço foi organizado segundo essa matriz comunitária. Há cerca de um ano e meio a dois anos, saiu o despacho que cria estes projetos-piloto. Portanto, foi fácil avançar e, de momento, temos quatro equipas comunitárias no distrito. Se mostrarem ganhos em saúde, o modelo poderá ser depois replicado.

No fundo, faltava articulação entre serviços e vários níveis de cuidados de saúde.

E até dentro do próprio serviço! Claro que é preciso criar algumas coisas de raiz, mas o que faz mesmo falta é fazer melhor, é articular as várias equipas e unidades, como hospitais, cuidados de saúde primários, cuidados continuados ou outros. Não é deitando dinheiro para cima do problema que este se resolve. Claro que o dinheiro é importante, num SNS cronicamente subfinanciado, mas há que apostar em maior eficiência e articulação.

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