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Saúde digestiva: entrevista a Leopoldo Matos

04 maio 2012 Arquivado

04 maio 2012 Arquivado

Entre os 50 e os 55 anos, toda a população deve submeter-se ao rastreio do cancro do cólon para remover eventuais pólipos, que não vão ter tempo de evoluir para tumor, aconselha o presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.

Realizámos um inquérito sobre problemas digestivos junto de 17 527 indivíduos em Portugal, na Bélgica, no Brasil, em Espanha e em Itália, que publicamos na TESTE SAÚDE de junho de 2012. Aproveitámos para entrevistar o médico Leopoldo Matos. Stresse, alimentação, consumo de tabaco e álcool e estilo de vida influenciam o percurso dos alimentos. Confira os conselhos do especialista para uma maior qualidade de vida do ponto de vista digestivo.

Leopoldo Matos é presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.

Quais os sinais de alerta que devem levar o doente ao médico?
Sempre que alguém sente um incómodo, tem uma dificuldade digestiva, perde o apetite, vê o funcionamento do intestino alterado, sofre de vómitos frequentes ou apresenta dificuldade em engolir, deve ir ao médico para esclarecer a situação. Tanto pode ser uma coisa simples, como um alerta para situações mais complicadas.

Como um tumor?
Sim. Do ponto de vista oncológico, com a esperança de vida mais longa, a probabilidade de tumores e entidades malignas é real. Por isso, devemos estar atentos. Na gastrenterologia e na saúde digestiva, preocupamo-nos mais em prevenir e propor rastreios do que em fazer diagnósticos. O que queremos é que os indivíduos não venham ter connosco já com o problema.

A partir de que idade é aconselhável fazer um rastreio ao cancro do cólon?
Na população em geral, sem sintomas, deve ser feito entre os 50 e os 55 anos. Mas, se houver uma carga hereditária de tumores do cólon, é preciso começar 10 anos mais cedo do que o familiar mais novo que teve o problema. Se teve aos 80 anos, deve começar aos 50. Se ocorreu aos 45 anos, deve começar entre os 35 e os 40.

Esta medida pode salvar vidas?
Seguramente. Estudos europeus e americanos demonstram que o tumor do cólon e do reto tem vindo a aumentar e a mortalidade duplicou em 10 anos.

Isso deve-se a que fatores?
Não sabemos exatamente, mas temos suspeitas de que se deva a hábitos alimentares e ao ambiente. Mas não temos provas sustentadas do ponto de vista científico. Sabemos é que a identificação e remoção de adenomas do cólon, designados por pólipos, é a única ação que diminui de forma significativa a mortalidade, de modo que o rastreio tem impacto.

A remoção é uma operação simples?
No geral, é relativamente simples. Se, no rastreio, a técnica utilizada for a colonoscopia, é possível retirar a maioria dos pólipos identificados, que não vão ter tempo de evoluir para tumor maligno.

Que outras medidas de prevenção podem ser seguidas?
Estão identificados alguns padrões. A dieta mediterrânica, com vegetais, peixe e gordura vegetal, é benéfica. Fazer exercício, beber bastantes líquidos e seguir um regime rico em vitaminas, ferro e cálcio também ajuda.

Qual a diferença entre um sintoma e uma doença?
Em gastrenterologia, por vezes, é complicado distinguir entre aquilo que pode fazer suspeitar de uma doença e simples perturbações funcionais. Muitos sintomas digestivos não traduzem obrigatoriamente uma doença. Podem dever-se a um mau funcionamento ou uma má prática. Por exemplo, o refluxo gástrico ou azia pode ser transitório. Se um indivíduo comer muito e beber uns copos, ingerir muita gordura e se for deitar a seguir, no dia seguinte ou mesmo nessa noite, pode sentir refluxo. Mas é uma situação transitória. Pode andar dois ou três dias incomodado. Agora, se, mesmo sem excessos ou durante o dia, tiver refluxo frequentemente, já é uma perturbação e deve procurar um médico. Muitas vezes, só com um diálogo entre o médico e o doente é possível identificar o problema. Às vezes, é preciso ouvir e esclarecer, porque os exames podem não dizer tudo. Posso fotografar uma porta e pensar que é normal. Depois, vou abri-la e range e arrasta. Posso pedir uma ecografia e o resultado parece normal, mas depois o indivíduo precisa de 50 gotas de bílis para digerir uma refeição e a vesícula só fornece 25. Portanto, há perturbações funcionais e doenças orgânicas. É possível ter os sintomas e alcançar o patamar do funcional ou ultrapassá-lo e chegar ao orgânico.

Para reduzir as probabilidades de doenças graves, “podemos diminuir os fatores dirigidos ao tubo digestivo, com exercício físico, controlo do peso e ingestão de líquidos”.

Quando surge um problema, a medicação parece não ser suficiente. Tem de haver uma mudança de estilo de vida, com exercício físico, dieta saudável e controlo de potenciais fatores de stresse?
Sim, mas os fatores de stresse, às vezes, não dependem só da pessoa. A vida urbana, maioritária na população, provoca stresse. Já se diminuirmos os fatores dirigidos ao tubo digestivo e aos acontecimentos oncológicos, com exercício físico, controlo do peso, ingestão de bastantes líquidos, reduzimos as probabilidades de doenças graves.

Porque é que as mulheres revelam tendencialmente mais problemas do que os homens?
Há duas explicações possíveis. O mau funcionamento intestinal, nomeadamente a obstipação, é mais frequente na mulher, por razões que se pensa terem que ver com o ecossistema hormonal. O problema é mais frequente na mulher adulta e, por isso, pode daí advir uma série de queixas. Pode haver condicionantes de sobrecarga de atividade, obrigações e fatores emocionais. A mulher também é mais sensível e passa por muitos acontecimentos e facetas durante o dia completamente diferentes das do homem. Depois, também pode haver uma resposta mais fácil e objetiva da mulher. O homem é sempre menos concreto a referir-se a si mesmo. Queixa-se menos, embora depois seja pior doente.

E porque é que os jovens parecem ter mais problemas digestivos do que os mais idosos?
O jovem pode não procurar o médico porque os sintomas não alteram a sua qualidade de vida de forma significativa. No adulto mais velho, normalmente, essas queixas já foram avaliadas e estão controladas ou, então, o próprio indivíduo considera que as pode controlar sozinho, alterando hábitos e seguindo alguns cuidados.

O acesso às consultas no âmbito do Serviço Nacional de Saúde é facilitado?
A gastrenterologia é uma das especialidades com maior necessidade de presença entre as populações. Aborda as doenças do tubo digestivo, do pâncreas, das vias biliares e da vesícula e do fígado, com recurso a técnicas endoscópicas, muitas vezes, diagnósticas e terapêuticas em simultâneo. Portanto, representa um leque de oferta muito vasto, sendo necessária, não apenas nas instituições hospitalares, como também em ambulatório, procurada pelos médicos que têm a responsabilidade de orientar os seus doentes para as especialidades. Em termos de doenças do fígado, ou seja, hepatologia, doença inflamatória do intestino e gastrenterologia geral, há capacidade em ambulatório neste momento para responder aos 10 milhões de portugueses, com uma ou outra dificuldade de acesso.

Há uma distribuição geográfica equitativa dos meios?
Embora a distribuição geográfica não seja homogénea, não existem áreas demasiado despidas de gastrenterologistas. Sabemos, no entanto, que, por exemplo, Portalegre e Bragança têm uma ou outra dificuldade. Mas estão na proximidade das unidades de outras cidades. Hoje, com as vias de comunicação, 50 ou 60 quilómetros não são dramáticos numa situação de acesso ao especialista. Não estou a falar do médico de família. Em relação à gastrenterologia hospitalar, a rede é suficiente e de grande qualidade. Tem, neste momento, capacidade para responder às necessidades dos doentes e apoiá-los com tecnologia de ponta, quer no privado, quer no público.

Então, não crê que os meios estejam concentrados nas grandes cidades...
Os métodos de diagnóstico e terapêuticos não devem estar distribuídos em todos os pontos onde há gastrenterologia, porque há exames e tratamentos que só devem estar instalados se abrangerem um milhão de habitantes ou valores próximos. E é por isso que há uma concentração de métodos mais avançados nos grandes centros populacionais. O Grande Porto está tão bem servido de gastrenterologistas e tecnologia como Coimbra e Lisboa. No Algarve, nas Ilhas, na periferia do Grande Porto e na Beira Interior existem também centros altamente apetrechados, competentes para dar resposta às necessidades da população. A gastrenterologia tem tido um desenvolvimento muito regular.

Qual é a sua perceção sobre a saúde digestiva dos portugueses?
Diria que é passível de melhorar, com esclarecimento e correção de hábitos alimentares introduzidos mais recentemente. Por isso, devemos regressar aos mais antigos. Os cuidados médicos e hospitalares estão suficientemente instalados no País, embora tenhamos algumas dificuldades no rastreio, porque este abrange populações muito vastas, incluindo as que não estão doentes. Temos condições para o rastreio, mas não está bem organizado, mais por razões oficiais do que propriamente pela comunidade médica ou pelo esclarecimento que os cidadãos têm sobre a matéria.